Abrão mentiu sobre Sarai?

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Em Gênesis 12:10-13:1 encontramos algo interessante sobre a vida de Abrão. Parece que em 12:10-13 Abrão ordena que sua esposa, Sarai, minta sobre seu status de relacionamento com Abrão. Será que Abão mentiu sobre sua esposa? Abrão pede que ela afirme ser sua irmã, não sua esposa (v. 13). Por que Abrão fez isso? Abrão tinha acabado de receber a promessa de Deus, e logo em seguida mentiu? Bem, como vamos ver em seguida, não creio que Abrão mentiu sobre sua esposa. Entretanto, meu objetivo não é de apresentar uma hagiografia de Abrão, mas sim buscar compreender o que se passa nestes versículos.

Contexto

Gênesis 12-15 é a culminação no livro; aquilo que foi aguardado por 11 capítulos finalmente vem a ser. Abrão, um homem próspero, de meia idade, e consideravelmente inteligente, é o objeto das promesas de Yahweh (em primeiro sentido). Os três capítulos são o desenrolar da aliança bilateral e unilateral de 12:1-3. Bilateral porque Deus ordena que Abrão vá (v. 1) e que ele seja uma benção (v. 2b) [1]. Visto que Abrão responde com fé (deixando nação, povo, e parentela), Deus promete que fará dele uma grande nação, o abençoará, e fará seu nome grande. Por conta disso, Abrão poderá cumprir o segundo imperativo. Então Deus promete receber e retribuir o que Abrão receber e retribuir, e a promessa do Cristo também é vista aqui (v.3, cf. Gl. 3:8 e Rm. 9:5). Unilateral porque mesmo quando Abrão não é totalmente fiel (v. 10-13:1) Deus continua mantendo sua aliança. Em seguida Abrão, em fé, deixa tudo para trás (v. 4) e se torna uma benção (v. 5-9).

Abrão é tamanha benção que constrói um altar ao Senhor (v. 8) próximo ao carvalho de Moré (v. 6). Lutero traduziu o verbo “invocou” como “pregou” e ele não estava tão errado. O local de culto dos Cananeus (v. 6) se tornou um local de proclamação do povo de Deus através de Abrão. Abrão, então, era uma testemunha em meio aos pagãos. Seriam os acrescentados de Harã, os prosélitos que se juntaram devido ao testemunho de Abrão (v. 5)? Possivelmente.

Abrão então desce ao Neguebe e, devido a fome, foi para o Egito. Até agora ele parece estar cumprindo o “ide” de Deus com integridade. Como pode ser que este homem fiel se tornaria um mentiroso que usa a esposa pra salvar o próprio rabo nos próximos versículos?

Abrão e Sarai

A idéia de Abrão não era completamente uma mentira. Ele diz que Sarai é sua irmã, mas por que? Primeiramente vamos responder aos teólogos que afirmam que por conta do autor de Gênesis utilizar o “minha irmã” em outras ocasiões, que estas ocasiões devem ocorrer simultaneamente. Isso parece ser improvável, visto que Abrão repete o feitiu de 12:13 em 26:7, e 26:1 afirma claramente que a fome relatada ali era diferente “da primeira havida nos dias de Abraão”. Enfim, o texto não julga Abrão explíticamente. Só podemos acusá-lo de não agir “com fé” (ou ao menos acusar o autor de Gênesis por não inserir isso no texto).

O que Abrão faz é contar uma meia-verdade, não uma mentira. E meias-verdades não são sempre mentiras. No capítulo 20 vemos que, de fato, Sarai era uma meia-irmã de Abrão (v. 12). Allen Ross, professor do DTS, comenta que Abrão “comunicou aos egípcios apenas o que ele queria que eles soubessem”. Por que Abrão fez isso? Leia Gênesis 24:29-61 e você irá entender o que é uma lei fratríquica. Quando em território inimigo, o esposo poderia ser morto caso alguém se interessasse pela esposa dele. Mas se ela fosse sua irmã, então quem desejasse a esposa deveria se comunicar com ele e ele estabeleceria as orientações para prosseguir o relacionamento. Abrão, então, ganhou tempo com sua estratégia, visto que seu desejo era ficar no Egito por um tempo, sem intenção de permanecer alí (muito menos de morrer alí).

Significado

Não devemos focar tanto na questão estratégica de Abrão a ponto de perdermos o foco da figura maior: Abrão quase teve sua esposa perdida pelo Faraó, e Deus libertou Abrão e sua família das mãos do Faraó. Primeiro vemos que o Faraó se dobra à Abrão para conseguir sua “irmã”, Sarai. Abrão é abençoado por Faraó. Isso nos leva a José (41:41-43) e Jacó (45:16-20), ambos foram abençoados por Faraó. Três vezes Deus abençoou e libertou os descendentes da promessa das mãos dos Egípcios. Isso serve para o povo de Israel reconhecer que Deus cumpre suas promesas e não desampara seu povo eleito mesmo que seu povo fraqueje.

Segundo, vemos as pragas do Egito e mais do futuro sendo antecipado em Abrão. A fome (12:10, 47:13), a migração (12:10, 47:27), a morte dos homens (12:12, Ex. 1:22), as pragas do Egito (12:17, Ex. 7:14-11:10), as bençãos materiais (12:16, Ex. 12:35-36), a libertação (12:19, Ex. 15), e até a saída ao Neguebe (13:1, Nm. 13:17, 22). Abrão antecipa a vida de Israel! O que Israel deve sofrer no futuro deve ser sofrido com segurança e fé, a fé de Abrão, pois Deus já havia libertado e vingado antes, e Ele não muda.

Conclusão

Vemos que Abrão não mentiu, mas foi sim um belo de um estrategista. Uma mentalidade formidável e quiçá, um ato de fé. Digo isso pois vejo a possibilidade de Abrão ter agido com tamanha clareza e astúcia por confiar nas promessas de Deus anteriormente estabelecidas. Admito que também me parece que o tiro saiu pela culatra, porque agora sua esposa-irmã estava sob o domínio dos Egípcios. E aquilo que Abrão tentava proteger, sua semente, estava, agora, fora do seu controle. Deus então interrompe a história e providencialmente restaura a ordem (12:17-20). Por fim, não me parece que Abrão fez algo imoral ou mal. O texto não parece responder essa questão e eu não vejo este ato de Abrão como algo ruim. Lembro também que essa estratégia era um princípio que foi passado adiante (20:13), o que parece acrescentar ao caso cumulativo de que Abrão não agiu imoralmente. Lembremo-nos também de não perder o foco do texto. A imagem de Israel e do Egito em Abrão é muito maior do que sua questão ética com Sarai. Mantenhamos o foco em nossa exegese.


[1] Algumas traduções traduzem o imperativo por uma predição. No entanto, o imperativo é claro.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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