Apologética – O Que É? Por Que Fazer?

O Que É Apologética?

Basicamente, apologética é qualquer defesa, resposta, contestação ou argumento em favor à fé cristã. Ela pode defender-se contra ataques de outras religiões, ou responder a céticos. Também pode contestar afirmações feitas por outras cosmovisões, e apresentar argumentos em favor daquilo que acredita.

A apologética, como argumentação filosófica, já é, de certa forma, praticada por muitos. O menino que tenta convencer a mãe que jogar futebol na chuva as 7 horas da noite não vai causar nenhum dano a sua saúde, está praticando um tipo de apologética—ele está argumentando e defendendo seu caso. Quando o marido explica para sua esposa porque ele precisa assistir o jogo de futebol no domingo, e porque ele não pode conversar com ela de noite porque está cansado, está exercitando suas faculdades racionais em defesa de sua própria posição. Vejam que não está em debate a veracidade e validade de suas afirmações, visto que muitas leitoras poderiam descordar, logo respondendo e contestando, das afirmações do marido.

Motivações Bíblicas

Se já fazemos filosofia na vida real, devemos utilizá-la para defender a fé? Em 1 Pedro 3:15-16, Pedro pede a seus leitores que estejam sempre preparados para responder a todos que perguntarem pela razão da esperança que está neles. Nos dias presentes, se nossa esperança está em Deus, este mesmo precisa existir. Logo, precisamos estar sempre prontos para responder a todos que nos pedem sobre a razão de crermos em tal ideia.

Confrontando alguns teólogos literalmente adictos a debates soteriológicos, Judas escreve a seus leitores lhes dizendo que embora este assunto seja importante, o momento pede que ele faça apologética—que ele defenda as doutrinas que a ele foram entregues. Sabiamente escreveu o autor do provérbio 26:4, e mais sabiamente escreveu ainda o verso 5. Utilizando nossa sabedoria e bom senso, devemos saber quando responder aquele que é ignorante a respeito do cristianismo e quando não responder. De qualquer forma, temos o dever de estarmos preparados para responder quando o momento for oportuno. Me parece que nestas poucas passagens já temos motivos suficientes para expandir nossa grade curricular e nossos focos de estudo para englobar a apologética e a boa retórica.

E exemplos não nos faltam. Paulo, falando em Hebraico em Atos 22, apresenta sua apologia aos que o prendiam. Eles se espantaram por sua tamanha sabedoria e facilidade com a segunda língua, o que já nos incita a pensarmos sobre o caráter do apologéta. Talvez o bom apologéta não seja o adolescente chato do Facebook, mas sim o sábio estudioso que mede suas palavras e as apresenta, como pede Pedro, com mansidão e temor, com boa consciência, para que nada possa ser dito em difamação de nosso caráter.

O contexto judicial da palavra pode ser visto claramente em Atos 24, onde Paulo apresenta sua defesa judicial a sí mesmo. A apologética, como podemos ver, é também a defesa judicial, formal, objetiva e logicamente apresentada àqueles que atacam alguma visão de seu interesse. Atos 17 talvez seja o melhor discurso persuasivo apresentado por Paulo em defesa da existência, caráter, e atos do Deus cristão. Em Atos 25 advoga sua própria causa, logo fazendo apologética a si mesmo. Um capítulo adiante vemos Agripa dirigindo-se a Paulo, e “por pouco” não sendo convencido por suas afirmações. Este texto em isolamento já demonstra a liberdade do ouvinte de rejeitar ou aceitar nossas afirmações. E muitos dirão a nós, como disse Festo, “Estás louco, ó apologéta! As muitas letras te fazem delirar!” Quem aqui é contra os pensadores e nunca pensou ou disse isso que atire a primeira pedra…

E perante aqueles que nos perguntam coisas pelas quais não sabemos responder? Primeiramente, devemos ter a autoridade de poder puxar 1 Coríntios 9:3 da cartola e iniciar nossa fala: “A minha defesa perante os que me interpelam é esta:” e continuar dali de acordo com o contexto. Paulo trazia a apologética, a defesa e confirmação do evangelho (neste caso), até mesmo em prisões (Filipenses 1:7). Quanto mais nós devamos defender nossas crenças em nosso local de trabalho, lazer e até mesmo na igreja. Tal como Paulo, somos incumbidos a defesa do evangelho (v. 16). Tal obra, portanto, requer mais do que uma boa memória e muitos livros. Paulo pede, “vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo [estando] firmes em um só espírito, com uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (v. 27).

A Lenda de Spurgeon & A Autoridade Máxima da Bíblia

“Mas a Bíblia não precisa ser defendida”, disse Fulano. Aos que nunca ouviram isso, eu explico. Reza a lenda que certa vez Spurgeon, o príncipe dos pregadores, fora confrontado por uma senhora que pedia que este apresentasse razões para que céticos creiam na Palavra de Deus. Ela buscava uma defesa perante os ataques pagãos de sua época. Spurgeon, supostamente respondeu que defender um leão é no máximo, um desperdício de tempo. Ninguém defenderia um leão. Logo, ninguém deveria defender a Palavra, visto que o Leão da Tribo de Judá sabe se defender sozinho. Por mais força retórica e aparente poder que traga esta lenda, encontramos aqui um problema. Ainda lembro das palavras de Greg Welty, coordenador do Mestrado em Apologética e Filosofia Cristã na Southeastern Seminary, ecoando na sala de aula. “A apologética não pode ser contrária a Palavra porque a Palavra recomenda a apologética”.

Fulano se retira, frustrado por não poder utilizar a lenda de Spurgeon como sua carta especial. Vemos, porém, Beltrano, no canto da sala, dizendo que não podemos julgar a Bíblia por alguma outra coisa que tenha menos autoridade que ela mesma. Pergunto a Beltrano se tal analogia, claramente negativa, é necessária para o que proponho. Pergunto ainda o que Beltrano faz com textos como Salmo 19 e Romanos 1 e 2. Tal como Paul Moser tentou e falhou, também falham aqueles que objetam a prática da apologética clássica sem levar em consideração textos que suportam a teologia natural e a prática apologética.

Motivações Práticas

William Lane Craig, em Reasonable Faith, também apresenta três motivações práticas para esta tarefa, e eu elaboro em cima de seu fundamento.

Todos os crentes que lêem este texto já tiveram (ou vão ter) seus momentos de dúvida. Como diz a imagem popular, o “deserto”, o momento em que a presença de Deus parece estar distante e que tudo vai mal, pode ser desafiador. Em tais momentos, eu já fui beneficiado por lembrar-me de argumentos para a existência de Deus. Por mais que eu não sinta Deus, ou apenas experimente o lado ruim da vida, sei bem porque aprendi que meu Deus existe. A aplicação interna da apologética não é apenas a solução para a dúvida, mas pode, por vezes, demonstrar o erro de alguns argumentos levantados aos nossos irmãos e a nós mesmos. Como disse John Frame, a apologética pode ser uma arma contra a descrença, fortificando nossa mente e nos blindando de ataques do inimigo. Aos líderes, em especial, lembro de Tito 1:9, que mostra que uma das tarefas dos anciãos da igreja é defender a mesma de falsas doutrinas. Será que você seria considerado um varão aprovado por estes padrões?

Em segundo lugar considero uma abordagem externa a esta tarefa. O evangelismo é a parte mais importante da flecha, é a afiada pedra que penetra o coração. As outras disciplinas, no entanto, são as penas e a rabeira. Elas auxiliam a ponta da flecha a se manter na direção correta, por mais que sejam secundárias. Um exemplo disso é Paulo perante o rei Agripa, em Atos 26, como já vimos anteriormente. Seria a apologética “pré-evangelística” então? No texto sugerido não vemos divisão entre evangelismo e apologética. Um leva ao outro. Sabemos que o evangelismo só pode nos levar até certo ponto. Um dia, todos duvidam. E quando este dia chegar, precisaremos de apologétas. Caso o alvo de nosso evangelismo nunca se pergunte sobre as questões difíceis da vida, ou sobre argumentos complexos, talvez haja algo de errado em nossa abordagem evangelística. Como sugeriu Will Metzger, em Tell The Truth, nosso evangelismo deve abordar a pessoa como um ser completo. Um ser que tem mais do que emoções, mas também tem necessidades racionais que precisam ser supridas por respostas inteligentes.

Por último, lembro do nosso testemunho perante o mundo. Nas Institutas da Religião Cristã, de João Calvino, livro 1, Capítulo 7, ponto 4, vemos o reformador envolvendo-se com a atividade de demonstrar o cristianismo como merecedor de respostas e tempo intelectual investido. Lembrem-se de seus filhos, a credibilidade de nossa fé está em jogo. Infelizmente, a muitos de nós foram dadas respostas tais como, “mistério de Deus” ou “tem coisas que a gente só vai saber no céu”, que nada mais são do que uma demonstração da nossa falta de vontade em pegar um bom livro e empenhar-nos a decifrar as complexas palavras do bom filósofo cristão. Lembremo-nos de Lucas, que escreveu duas cartas ao seu suposto amigo Teófilo, demonstrando a ele com precisão cirúrgica que Lucas não cria em vão, como aquele que pisa em um vão esperando o chão se materializar. Mas cria com a razão, utilizando a natureza do Logos, do Verbo de Deus.

Apologética Não Salva Ninguém…

Mas de que valem nossos esforços? Nunca poderemos converter ninguém. Ora, se tal argumento fosse bem sucedido poderíamos abandonar até o ministério da proclamação das boas novas e também o da pregação. Paulo, que fez apologética, reconheceu a Timóteo que Deus é aquele que concede o arrependimento (2 Timóteo 2:24-26). Lídia não foi salva no vácuo (Atos 16:13-14). O Espírito normalmente não trabalha sozinho, mas através da ministração e do trabalho árduo de seus líderes. Em Romanos 10 vemos Paulo conectar a salvação ao trabalho daqueles que vão a obra. Como disse Welty, “se Romanos 8 é o cordão de ouro da salvação, Romanos 10 é o colarinho da responsabilidade humana.” Antes de se levantar contra a tarefa apologética, lembre-se que o que é válido para a pregação e para missões também é válido para a apologética. Reconheço e concordo que a apologética não leva ninguém a salvação. Mas acrescento na fala que Deus não ordena somente o fim (salvação), mas também o meio (missões, pregação, testemunho, e até apologética).

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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