Charutos, Bebida, Maconha e Bacon

Meu avô sempre fumou, e eu cresci ouvindo que ele iria se matar de tanto fumar. Lembro-me, ainda pequeno, orando de joelhos, implorando para que Deus livrasse meu avô deste vício. Acho engraçado que outros vícios, tal como alimentação errada, nunca me fizeram implorar a Deus para que minha família fosse liberta da maldita pizza de todo final de semana. Eu fui viciado em drogas  pesadas por algum tempo e tive de ficar internado por diversas vezes. Sou basicamente um PhD nos efeitos maléficos que entorpecentes nos trazem; mas por ter sido envolvido com fisiculturismo por anos, também estou bem ciente de como a dieta e a vida ativa (ou a falta da mesma) afeta as pessoas. Quando me perguntam sobre cigarro, drogas, bebida, e outros problemas, eu sempre gaguejo, porque acho que a questão é muito mais complexa do que parece. As respostas conservadoras e liberais não me atraem pois parecem ignorar diversos fatores, quer queiram ou não. Por conta de e-mails e mensagens que recebi, decidi abordar este tema no texto da semana.

Cigarro, Charuto, etc

“Cigarro mata”, é uma propaganda que você já viu. Eu entendo, em parte, o porquê dessa frase. É simples e comunica a mensagem sem se preocupar com os detalhes. Mas como já disse o dito popular aqui nos EUA, “o Diabo está nos detalhes”. O que mata no cigarro? Bem, a nicotina que não é. Caroline Kitches, do R Street Institute, demonstra neste vídeo do PragerU sobre E-cigarettes que as pesquisas sempre indicaram que o que mata é o TAR, a substância produzida pela nicotina em combustão. E-cigarettes, por exemplo, não causam o mesmos danos que os cigarros tradicionais. Entretanto, mesmo que a ciência prove que existam alternativas menos prejudiciais do que o cigarro para pessoas que têm prazer em sentir fumaça na boca, eu suponho que a maioria de meus leitores iria se constranger em ver alguém fumando um cigarro eletrônico. Por quê? Bem, honestamente, creio que o argumento da saúde nada mais é que uma desculpa.

Veja bem, suponha que alguma companhia criasse um cigarro que tenha benefícios para a saúde. Você fuma e seu corpo recebe sua dose diária de vitaminas, quase como que um Centrum para quem acha bonito andar com um papel queimando nos dedos. Mesmo que agora cigarros sejam saudáveis, você fumaria? Se você não é fumante, creio que continuaria sem fumar. Mas eu acho que o cristão viria com outra desculpa, tal como “fuja da aparência do mal” ou algo do tipo. Minha sugestão é que o argumento da saúde é ridículo porque eu posso contar nos dedos os cristãos que conheço, que de fato se importam com a saúde como deveriam. Eles não dão a mínima pra saúde quando não se exercitam toda semana (e alguns, quando se exercitam, o fazem pela estética, não pela saúde), não estão nem aí para o corpo quando comem uma vez ao dia, e outros nem lembram de 1 Coríntios 6:19 quando comem suas besteiras todo dia (ou frequentemente). Logo, me parece que eles não ligam para a saúde tanto quando eles gostam de pensar que ligam. Conheço outros que não ligam para a saúde quando tomam um Tylenol ou paracetamol toda vez que uma dor de cabeça bate. Garanto que muitos não sabem o número de mortes anuais que estão relacionadas a Aspirina (veja neste estudo, por exemplo, que um terço dos usuários de Aspirina morre pelo seu uso em dosagens baixas). Eu lembro de pensar sobre isso quando sofria criticas atrás de críticas por estar utilizando esteróides anabolizantes. Mas o que eu posso garantir a todo mundo aqui é que meus exames de sangue, que eu fazia todo mês, existem para mostrar que eu era muito mais saudável quando regulava cada coisa que entrava em contato com meu corpo do que eu sou hoje em dia. Ainda conto meus macros e como seis vezes ao dia, me exercito sempre que posso e como “besteiras” muito raramente. Além disso, eu creio que o corpo é sagrado e tem um papel fundamental na nossa vida cristã, como já falei neste vídeo. Minha teologia é altamente relacionada ao corpo: ao contrário do que muitos crêem, não creio que você seja seu “eu verdadeiro” no seu interior. Creio que o ser humano é uma sombra daquilo que ele um dia será: um ser humano mais humano ainda.

Antes de concluir, deixo claro que eu não acho que você deva fumar cigarros. E pelo cuidado que tenho com meu corpo eu me sinto como que em autoridade para falar sobre o assunto (sem contar meus estudos). Porém, não me incomoda ter pessoas fumando cigarros eletrônicos que não produzam TAR ou outra substância maldosa ao corpo (de forma radical, porque ninguém dá a mínima pra isso quando se trata de bacon ou cachorro quente). Eu deixo claro aqui, também, que eu não sou um destes retardados que comparam maconha com Aspirina. Explico:

Maconha e Aspirina

O problema destes argumentos é que eles ignoram as pesquisas existentes em ambos os lados. Alguns, que já perderam o cérebro com abuso de drogas (ou que simplesmente tem falta de vergonha na cara), usam a mesma retórica, porém substituem a Aspirina por açúcar, que chega a me doer a alma. A maconha, por exemplo, trabalha muito com predisposição genética. Lembro-me de ter de dar banho e alimentar o Álan, um garoto que era viciado em maconha e estava internado comigo. Maconha para fins medicinais? Para fins medicinais que produzam até esterco de vaca em forma de vacina. O problema é a reação que acontece no seu cérebro quando o THC “atinge” seus neurotransmissores e a corrente sanguínea. Você perde o controle do seu corpo, de certa forma. Obviamente, não é como o crack ou drogas mais pesadas, e eu sei muito bem disso. Mas a maconha afeta seus trabalhos mentais de uma maneira que você, até certo ponto, não tem controle total. Aí eu acho que temos um bom argumento contra o uso não só da maconha, mas de qualquer droga que nos tire do nosso controle.

O álcool, por exemplo, é muito apreciado. Minha namorada sabe o quanto eu gosto de uma marguerita, que é uma caipirinha americana (basicamente). De vinhos eu gosto mais dos brancos, e uma cerveja gelada só é recusada por mim porque minha síndrome do intestino irritado não degusta a cevada tanto quanto meu paladar. Uma coisa que eu não gosto no álcool é o efeito da embriaguez. Mesmo quando eu saía em festas, eu bebia porque era algo social e por outros motivos, mas eu sempre odiei a sensação da embriaguêz. Quando isso acontece, você perde o controle. Me parece que a Bíblia nos pede, uma vez atrás da outra, para nos mantermos “sóbrios”. Sei que isso se trata de nosso relacionamento com Deus, mas a embriaguez é combatida pelas Escrituras (Gálatas 5:21, por exemplo). Sobre bebidas, “todo aquele que por elas é vencido não é sábio” (Provérbios 20:1). No bom Português, se você é viciado em bebida você é burro.

É comum o Antigo Testamento utilizar a figura de linguagem da embriaguez em paralelo com os inimigos de Deus, que estão incapacitados e punidos por Deus. A Bíblia nunca louvou os atos de bêbados: Noé foi burro (Gênesis 9:20), Ló foi um imbecil (Gênesis 19:30-38), e Absalão e Amnom teriam se saído melhor caso estivessem no controle da situação (2 Samuel 13:28 e 1 Reis 16:9). Não devemos nos embriagar, mas sim devemos ser cheios do Espírito (Efésios 5:18), tal como foi João Batista (Lucas 1:15). Embriaguez é uma desgraça (Romanos 13:13, 1 Coríntios 5:11, 6:10, e 1 Pedro 4:3), porque ela te tira do controle. Da mesma maneira como eu creio que cristãos devem ter cuidado para não se envolverem com o ocultismo ao “perderem o controle para o Espírito Santo”, creio que o princípio do controle sejá válido para bebida, maconha, e outras drogas. De forma breve, coma bolo, tome aspirina quando necessário, mas nunca se embriague porque isso é coisa de retardado.

Se Ela Dança, Eu Danço

Um amigo me enviou um email com um print de um cidadão que postou algo em favor do fumo e do álcoolismo. Aqui vai a citação do nosso amigo:

É preciso explicar. Por aqui, e a despeito do fato de Lutero e Melancton serem grandes apreciadores de cerveja; a despeito do fato de Calvino receber parte de seu salário de pastor em litros de vinho; a despeito de a Escócia, berço do presbiterianismo, ser também o berço dos maravilhosos uísques; a despeito do fato de grandes teólogos protestantes como Barth, Bultmann, Brunner e Paul Tillich se deleitarem com charutos, cachimbos e cigarros – ,por aqui, como eu dizia, foi decretado em tempos passados que os protestantes, modelos de virtudes morais, não bebem, não fumam, não jogam baralho.

Um Mundo Num Grão de Areia – Rubem Alves

Eu não li o livro e não sou expert na vida de nenhum dos homens citados, mas esse pensamento poderia ser analisado de forma mais profunda. Simplesmente colocar essa frase no Facebook, onde imbecis ganham sua voz e acéfalos ganham seu conhecimento do mundo, me parece irresponsável. Sim, todos estes eram grandes apreciadores de cerveja e, como eu já disse, o beber não é ruim, mas sim a embriaguêz. Se Lutero bebeu, espero que tenha gostado da bebida e que Deus me conceda provar da mesma. Mas se embriagou-se, pecou. De fato, existem algumas denominações que assemelham-se a governos totalitários; não confiam que o povo saiba o que fazer então saem instituindo regras aonde não lhes é chamado. Se o texto critica esse posicionamento, vá em paz!

Entretanto, colocar pessoas como Bultmann e Tillich como modelo “protestante” é dar um tiro no pé. Ambos foram teólogos liberais, e Bultmann está impregnado em quase toda igreja que eu conheço. A teologia de Tillich, por mais que muito apreciada por mim pela sua precisão, abriu as portas para um misticismo que nunca se misturou bem com o povo supersticioso do Brasil. Citar modelos de teologia falha como exemplos de caráter é demonstrar a falta de apreciação por uma teologia que transforma a vida cotidiana. Salomão teve várias esposas que corromperam suas crenças em Deus, e não encontramos um texto de reprovação divina de forma direta ao mesmo. Mas isso não significa que devamos imitar seu comportamento. Aparentemente, nosso amigo Rubem argumenta que, visto que indivíduo A contribuiu de forma positiva ao cristianismo, tudo que indivíduo A fez está sancionado e autorizado por conta de sua contribuição positiva. Este raciocínio é falho e os homens falhos da Bíblia estão aí para demonstrar isso.

In Summa,

Nego que você deva fumar ou que deva beber. Mas se o fizer, pense nas consequências e analise suas intenções. Áqueles que fumam, eu recomendo que pare. Eu tomei Xampix, e isso me foi suficiente para começar a ter nojo do cigarro. Hoje eu não pretendo voltar a fumar, e não tenho motivo algum para fazê-lo. Pela sua saúde, pare. Mas pelo bom raciocínio, comece a cuidar de outras áreas da saúde também. Não cuide do seu corpo só em parar de fumar, mude sua visão do corpo. Entenda que ele é um templo, e que seres humanos são o ápice da criação Divina. Transforme sua visão antropológica, e permita-se entender que o corpo é mais que uma carcaça. Abandone o Platonismo a respeito da composição, e reconheça que a matéria é digna de corpos divinos, quanto mais de uma dieta equilibrada e exercícios frequentes! Em honra ao corpo, eu tentei utilizar meu cérebro de maneira própria para demonstrar as falhas em alguns raciocínios conservadores e liberais. Agora, em honra ao corpo e ao bom raciocínio, espero que você abandone o que te fere e o que te faz menos humano. Viva uma vida pura e livre do que te fere. Seja humano!

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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