Cristo Pregou Aos Espíritos Em Prisão? – P&R

demon-177816_1920Pergunta

“Bom dia irmão,

Eu estava lendo 1 Pedro e fiquei meio “what” nessa parte:

“Por isso mesmo o evangelho foi pregado também aos mortos, para que eles, mesmo julgados no corpo segundo os homens, vivam pelo Espírito segundo Deus.”
1 Pedro 4:6

Sobre “pregar o evangelho aos mortos”, pelo sentido da exortação de Pedro, parece que ele está falando sobre pregar para os que rejeitam a verdade (mortos espirituais), porque ele enfatiza muito os “eleitos” e está falando muito sobre a retidão de Deus. Achei que analisar o texto dessa forma poderia ter sido um pouco superficial da minha parte. Você tem algo para me abençoar a respeito deste texto?”

Resposta

Fala meu querido,
espero que tudo lhe esteja indo bem!

Este texto tem muitas complexidades devido a vasta gama de interpretações possíves que nos é acessível hoje. De pessoas falando que isso se refere à mortos espirituais (Albert Barnes, por exemplo), àqueles que pensam que se refere a mortos no sentido literal (John Gill, para citar um). Quero deixar algumas observações para que você compreenda este texto de forma mais clara. Para isso, vamos ler do verso 3 ao verso 6 (JFAC):

“Porque é bastante que, no tempo passado da vida, fizéssemos a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borracheiras, glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias; e acham estranho não correrdes com eles no mesmo desenfreamento de dissolução, blasfemando de vós, os quais hão de dar conta ao que está preparado para julgar os vivos e os mortos; porque, por isto, foi pregado o evangelho também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens, na carne, mas vivessem segundo Deus, em espírito.”

Tais consequências de uma vida pecaminosa foram citadas em outras partes da Escritura (Rom. 1:18-32; 1 Co. 6:9-10; Gal. 5:19-21; Ef. 5:3-7; Col 3:5-10; 2 Tm. 3:1-7). Parece-me que Pedro está lembrando sua audiência dos resultados do pecado. O verso 1:22 da mesma carta nos mostra que Pedro estava de fato fazendo isso, pois ele passa a carta inteira tentando lembrá-los de que eles agora são filhos da luz [1]. A frase literalmente significa “o tempo que já há passado” (parelauthos chronos), e tem forte conexão com o tempo/estado real/atual. O verbo perfeito sugere que tudo que está sendo tratado já passou. Os verbos que seguem, Katergazomaiporeuomai, também sugerem o mesmo. Como diz John MacArthur, “cada [frase] se construindo em cima da outra, estes três verbos perfeitos afirmam que, para o crente, o passado pecaminoso é um livro selado e sua saga está terminada” [2]. Eu gostaria de me delongar no significado de cada palavra, por motivos pastorais, mas pelo propósito da sua pergunta me aterei ao foco. Caso queira saber meus pensamentos a respeito de cada uma destas obras da carne estou disposto a lhe responder novamente.

A palavra que se refere a “blasfemando de vós”, blasphemeo, lembra o que muitos outros comentaristas crêem: que o público-alvo de Pedro estava sendo perseguido, provavelmente por sua relutância em participar de cerimônias civís e funções imorais que eram comumente aceitas na época. Tal rebeldia à cultura gerou ódio que resultou na perseguição de muitos cristãos. Estes, que perseguem os cristãos, que blasfemam contra eles, hão de dar conta ao que está preparado para julgar os vivos e os mortos. “Tais viciosos agressores estão acumulando uma dívida com Deus que irão passar a eternidade pagando-a” [3]. Um caso similar foi abordado por Jesus em Mateus 18:23-34. Tanto aqueles que estão vivos enquanto Pedro fala, quanto aqueles que já morreram e estão pagando a dívida, são os alvos dessa frase. Nos versículos anteriores ao 6, vemos que a palavra “morto” sugere o sentido comum: fisicamente sem vida. No verso 1 Cristo “padece” na carne (morte física), e no verso 2 a frase “no tempo que vos resta na carne” também sugere a paráfrase “no tempo de vida que lhes resta”. Ao que tudo aponta, no capítulo todo, morto significa morto e não espiritualmente morto. De fato, isso não deveria nos assustar, visto que nossa esperança também está no fato de que Cristo irá julgar os mortos (Ap. 20:11-15, conforme 2 Ts. 1:6-10). Tais mortos, no dia do julgamento, hão de prestar contas diante de Cristo, tal como o homem rico requeriu de seu mordomo (Lc. 16:1-2). No julgamento dos mortos, Deus “trará à luz as coisas ocultas das trevas e manifestará os desígnios dos corações” (1 Co. 4:5). Veja que interessante, irmão! Aqueles que demandavam explicações, como sugere 1 Pedro 3:15, agora serão colocados contra a parede. Deles serão demandadas explicações que não podem ser respondidas, pois não tem advogado. Não sei muito sobre este dia, apenas sei que a resposta, dessa vez, virá diretamente do Justo Juiz, e ela não será “com mansidão e respeito” (v. 16).

Compreendendo 1 Pedro 3:18-20.

Eu realmente gostaria de lhe enviar um email curto, mas como já diz o dito popular, “para cada questão complicada existe uma resposta simples… e errada”. É possível que Pedro esteja usando as palavras “morto” e “vivo” como em seu paralelo em 3:19. Para isso, vamos ter que pensar um pouco sobre os espíritos em cadeia e Noé.

Esta passagem é o culminar da carta, em que Pedro chega no ápice do sofrimento: Jesus Cristo. Estes versos são riquíssimos, contendo respostas a muçulmanos e judeus. Mas novamente, como o foco são os mortos do capítulo 4, vou me ater ao foco (é difícil mas eu vou conseguir haha).

Jesus padeceu na carne (v. 18, novamente morte física). Sabemos que ele realmente morreu através do Salmo 34:20. Os soldados romanos costumavam quebrar as pernas dos crucificados para que eles morressem (cf. João 19:31-32). As pernas de Cristo, no entanto, não foram quebradas, visto que ele já havia literalmente morrido (v. 33). Cristo, porém foi vivificado no Espírito (1 Pd. 3:18) [4]. Lembre-se disso: morto na carne e vivificado no Espírito. Seu corpo padeceu, mas Deus continuava vivo e reinando sobre o mundo. Escrevi um artigo sobre a morte de Deus, caso queira lê-lo você pode conferí-lo aqui.

“No qual”, expressa que, após sua morte física ele foi e pregou aos espíritos em prisãoPoreomai indica que ele foi de um local (a) para outro (b), indica movimentação (a mesma palavra é usada no verso 22 a respeito de sua ascensão). Mas o que significa pregar aos espíritos em prisão?

A palavra kerusso carrega o sentido de proclamação vitoriosa. Comentei sobre este verbo em um Hangout com o Canal Li e Recomendo sobre evangelismo. Este verbo, como já expliquei no vídeo, não carrega o sentido de pregar o evangelho, mas sim de anunciar vitória. Pedro poderia muito bem ter usado euangelizo se ele quisesse dizer que Cristo “pregou” aos espíritos em prisão. Ele não quis, então não temos nenhum motivo léxico ou intratextual para concluir que Jesus Cristo foi pregar após sua morte. Cristo, ao morrer na cruz, iniciou o maior espetáculo da história. Ele expôs publicamente diante dos principados e potestades (Col. 2:14-15) sua vitória sobre o pecado (Rom. 5:18-19), morte (Rom. 6:9-10), e por fim do Diabo (Heb. 2:14). É de conhecimento compartilhado entre comentaristas que o general romano, quando vitorioso, faziam uma passeata nas ruas de Roma, expondo publicamente seu triunfo (cf. Col. 2:15). Cristo, quando morreu, fez o mesmo. A linguagem foi, provavelmente, reconhecida na hora pelos leitores de Pedro, visto que a carta foi escrita em 64AC, pouco antes do domínio do Nero que incendiou Roma.

Como sei que Cristo não fez esta proclamação diante de pessoas que haviam morrido? Bem, ele poderia ter usado a palavra psuchai, mas preferiu pneumasinPneumasin nunca é usada para para se referir a pessoas, salvo quando encontramos um genitivo que qualifica a palavra, como em Hebreus 12:23 (espíritos dos justos, dikaios). Desde Gênesis 3, Satanás tem lidado com uma promessa que lhe causa dor de cabeça: Gênesis 3:15. Deus prometeu à serpente que Ele mesmo triunfaria sobre ela. Visto que ela, a anos, vem triunfando sobre as criaturas de Deus. Para prevenir isso, Satanás tentou exterminar os Judeus (Ester 3:1-4:3), tentou destruir a linhagem Messiânica (2 Cr. 22:10-12, 23:3 e 12-21), e até mesmo tentou matar o Messias em si (Mt. 2:16-18), e após ter falhado, tentou desviá-lo de sua missão (Mt. 4:1-11). Por fim, ele conseguiu. Ele impeliu os líderes romanos a crucificarem Jesus (Mc. 15:6-15). Aparentemente, quem poderia kerusso era ele, Satanás. Em meio à celebração satânica, Cristo vitoriosamente anuncia sua conquista aos espíritos que estão presos no abismo (Lc. 8:31; 2 Pd. 2:4; Judas 1:6). Estes espíritos estão presos até o grande dia em que serão lançados no lago de fogo e enxofre (Mt. 25:41; Ap. 20:10). Tais espíritos estão literalmente aprisionados, phulake! Estar preso já é ruim. Agora, estar preso e sendo publicamente humilhado (Cl. 2:15) por Aquele a quem a promessa falava (Gen. 3:15) é tortura… Estes demônios que estão presos, são os que foram presos durante o tempo de Noé (Gn. 6:1-8). Se você quiser conhecer mais sobre o que aconteceu, você pode assistir o teólogo Mark Ellis comentando no tema.

Chegando A Um Veredito

Em 1 Pedro 3:19 vemos Cristo proclamando (kerusso) vitória perante os espíritos em prisão. Já em 1 Pedro 4:6 vemos que o evangelho é pregado (euanggelizo, agora), e não temos agente mencionado; no primeiro caso estamos tratando de espíritos malignos (pneumasin), no segundo, pessoas mortas (nekros). Sei que existem pessoas que usariam 3:19 para fazer um paralelo com 4:6, mas neste ponto espero que você já esteja entendendo que este paralelo mais parece fantasia do que realidade. Em 3:19 concluímos que Cristo de fato cumpriu a profecia de Gênesis 3:15, e em 4:6 vemos que os que já morreram, os que blasfemavam contra os fiéis de Roma (provável audiência de Pedro), ouviram o evangelho; caso contrário, como poderiam blasfemar aquilo que nunca ouviram?

“O ponto do versículo 6 não é provêr justificação para o direito que Deus tem de julgar ambos os vivos e os mortos, muito menos é de continuar iluminando o evento obscuro descrito em 3:19. O ponto é, na verdade, o encorajamento de cristãos que estão sofrendo perseguição, assegurá-los de sua fé. Apesar de sua rejeição por agentes humanos e a morte que já havia tomado alguns deles, nada disso foi em vão. Pelo contrário, o mesmo julgamento que vai demandar uma explicação daqueles que blasfemando, se opuseram aos cristãos (v. 5a), também será a vindicação daqueles cristãos que, ao que aparentou aos contemporâneos descrentes, haviam sofrido o julgamento da morte, e portanto estavam sem esperança” [5].

Creio que esta breve reflexão sobre o versículo deve ter lhe acrescentado algo. No fim, a mensagem do versículo é esta: “Aqueles que antes demandavam um veredito de vocês, e quando o recebiam blasfemavam e os perseguiam, vão agora ter de prestar contas perante Deus. Os que se foram crendo estão bem, visto que seu juiz é também advogado. Mas os que se foram como blasfemadores passarão a eternidade pagando uma dívida grande demais para carregarem; lhes levará eternas eternidades para pagar sua despesa. As ofensas que vocês receberam não se comparam as ofensas que Cristo recebeu. E Cristo, por ter sido vitorioso e por ter celebrado a vitória diante de todos o Reino do Mal, deu a vocês, os vivos e os mortos, a oportunidade de celebrarem também diante dos vivos e mortos a salvação que vem de Cristo. Louvado seja Deus”.


[1] A frase que se relaciona ao pecado está sempre no pretérito (cf. Rom 7:5; 1 Co. 6:9-11a; Ef. 2:1-3).

[2] John MacArthur, The MacArthur New Testament Commentary, 1 Peter (Chicago, IL: Moody Publishers), 228.

[3] Ibid., 230.

[4] O texto grego omite o artigo definitivo que sugere a tradução “vivificado pelo Espírito”, como se o Espírito Santo o houvesse trazido a vida. Tal fato é verdadeiro (Rom. 8:11), porém o texto, aqui, afirma que o espírito que foi vivificado foi o de Cristo, não que o espírito de Cristo, o ser, foi vivificado pelo Espírito Santo de Deus.

[5] Paul J. Achtemeier, Hermeneia – A Critical and Historical Commentary on the Bible, 1 Peter: A Commentary on First Peter (Minneapolis; Fortress Press), 291.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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