Debater Ou Não, Eis a Questão.

 

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A internet é um fenômeno lindo. De tutoriais para descascar um abacaxi (literalmente) a uma aula de língua estrangeira, você pode encontrar diversos recursos sensacionais. Nela também, temos acesso a conteúdos intelectuais que, por diversos fatores, muitos de nós não teríamos e deste modo também não nos tornamos tão dependentes das mídias de massa. No entanto, ela também tem seu lado complicado. A possibilidade acesso a tudo o que queremos tem, com frequência, feito com que aprendamos muito superficialmente a respeito de uma infinidade de coisas. Assim, com um Frankenstein de conhecimentos, tem se formado opiniões convictas sobre política, teologia, ou sobre o vestido azul ou branco, que são discutidas muitas vezes de forma bastante acalorada. Neste contexto, como cristãos, nossa fé, nossos posicionamentos morais, políticos, e teológicos são constantemente colocados em xeque. Pessoalmente, às vezes considero complicado discernir quando dizer o que penso e quando me calar. Por isso, trago aqui algumas reflexões que costumo (tentar) fazer antes de me engajar na defesa de algum ponto de vista.

Qual é a importância do tópico?

Debates são delicados. É por isso que sempre antes de entrar em uma discussão é necessário considerar a importância do tópico. Já vi guerras verbais sobre assuntos insignificantes cujo fim causou sérios desconfortos. Por outro lado, existem momentos nos quais é imprescindível a manifestação e a defesa de nossa opinião. No caso da apologética, por exemplo, Calvino disse que ele “sería um covarde se visse a verdade divina sendo atacada e continuasse em silêncio”. Diante disso, a consciência do valor do que se discute faz-se necessária. Muitas rixas políticas, filosóficas, religiosas, ou até futebolísticas jamais começariam se passassem por esse filtro de relevância. Outras, porém, deveríam ter sido levadas adiante devido à seriedade do assunto e às vezes não foram. Desta forma, embora algumas pessoas possam apreciar o simples ato quase narcisista de expor seus argumentos, se nosso intuito é proporcionar algum bem, verificar a pertinência do assunto é um ato preventivo.

Eu sei defender o que defendo?

Muito bem, eu compreendo que é um assunto de vida ou morte. O futuro do país, a saúde da igreja, um pensamento errado está sendo difundido e pessoas têm sido influenciadas. O coração bate mais forte. Eu sinto que preciso debater. Contudo, espera-se de um debatente que ele conheça muito bem o tópico. Parte desse processo é descobrir onde outros que debateram esse assunto já chegaram e como o fizeram, o que se diz a respeito na literatura existente, quais são os pontos e contrapontos, e refletir continuamente nos caminhos da verdade. No entanto, na internet encontramos quase instantaneamente respostas fáceis para argumentos difíceis. Sempre há algo resumido sobre: “Por que o universo existe ao invés de nada?” ou “Por que ser Calvinista ou Arminiano?”, por exemplo. Entretanto, muitos desses argumentos não resistem a dois ou três questionamentos mais profundos, o que compromete a credibilidade daquilo que se defende. Porém, se a fonte da argumentação é o valor daquilo que se defende é necessário um bom conhecimento para que a defesa seja coerente. Sendo assim, estudar, pesquisar, buscar constantemente se aprofundar nos assuntos que nos são relevantes, mostra-se tão ou mais significativo que a mera eloquência.

“Se nosso intuito é proporcionar algum bem, verificar a pertinência do assunto é um ato preventivo.”

Quando é a hora de parar?

Okay. Você checou suas motivações, estudou tudo sobre o tema e sabe exatamente qual seu objetivo. Saber onde se quer chegar é um dos princípios da construção da boa argumentação. Em contrapartida, saber que é impossível alcançar o se quer, pode evitar muito desgaste. É interessante ter sensibilidade para entender que às vezes o outro não está disposto a te ouvir, não está em um bom dia, ou quer o debate apenas pelo debate. E até, ainda que ambos estejam bem motivados, a conversa se acalorou e agora ninguém escuta ninguém. Millôr Fernandes disse que, “com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado”. Assim, ser atento a alguns sinais que te ajudem antever um resultado final apontando para algo pior que o começo, pode ajudar a saber a hora de parar e a não jogar palavras ao vento.

“Se a fonte da argumentação é o valor daquilo que se defende é necessário um bom conhecimento para que a defesa seja coerente.”

Eu amo meu oponente?

Embora o contexto exija, “oponente” talvez não seja a palavra mais apropriada. Em qualquer circunstância, a pessoa com quem eu debato é, no fim das contas, meu “próximo”. Observar que se ama ao próximo é a melhor justificativa para o início ou o fim de um debate. Em seu livro “Em guarda”, que trata de apologética, William Lane Craig descreve as atitudes raivosas que alguns estudantes tem em suas palestras diante de suas falas em defesa da fé, e sugere que elas são fruto do fato de estarem perdidos e confusos. Segundo ele, “quanto melhores forem meus argumentos, menos beligerante me torno”. Mas, o que se vê na maioria dos momentos onde existe um conflito de opinião é uma beligerância constante. É perceptível a necessidade de sensibilidade neste contexto. Craig também diz que “se você tem boas razões para defender aquilo que crê , então, em vez de sentir raiva, sentirá uma compaixão genuína pelos perdidos, que em geral estão tão desorientados”. Sendo assim, acredito que a melhor pergunta nesta análise é: “eu amo a pessoa com quem eu debato como a mim mesmo?”. Se amamos a verdade que defendemos vamos querer que nosso companheiro também a ame. Sendo assim, busquemos conhecimento, bons argumentos, mas também vamos nos certificar se nossa atitude é um ato de amor.

Eu considero a possibilidade de estar errado?

Quem nunca viu alguém fazendo digressões ou recorrendo a falácias para não perder a razão? Debater exige a posição humilde de compreender que nem sempre estamos completamente certos. De fato, todos nós, de alguma forma, estamos buscando a verdade. No entanto, em muitos assuntos, chegar a uma conclusão absoluta é extremamente difícil, e quando se chega, tal conclusão ainda pode ser frágil.Sendo assim, menosprezar aquele com quem se dialoga condenando-o ao total equívoco não é uma postura intelectualmente honesta. Ainda que nosso companheiro possa estar errado, desrespeitar seu conhecimento julgando nosso argumento irrepreensível é uma atitude um tanto imponderada, uma vez que estamos perdendo uma oportunidade de aprender. Além disso, como queremos que nosso ouvinte dê a devida atenção ao que dizemos se nós não fazemos o mesmo?

“Observar que se ama ao próximo é a melhor justificativa para o início ou o fim de um debate.”

Ao estudarmos a bíblia, os momentos em que Jesus teve a oportunidade de confrontar as opiniões os outros, percebemos sua constante ponderação das circunstâncias. Com os vendilhões, ele desceu o chicote, com os que acusavam a mulher adúltera, destruiu os argumentos com uma frase sutil, em outro contexto, nos recomendou a oferecer a outra face, e com Pilatos, decidiu se calar. Sua sabedoria conhecia o tempo de silenciar e o tempo de falar. Deste modo, como o livro de Tiago sugere, peçamos sabedoria ao generoso Deus para que sejamos equilibrados e para que, naquilo que discordamos, nossa questão final seja sempre o amor. Deste modo, nossas motivações para qualquer argumentação serão suficientes para obter um bom fruto.

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Mayara Lima é professora de inglês graduada em Letras Estrangeiras Modernas pela Universidade Estadual de Londrina e pós-graduanda em religiões e religiosidades pela mesma Universidade. Como estudante, tem interesse em estudos da linguagem focados na tradução de textos religiosos e em análise do discurso. Pessoalmente, gosta de literatura, especialmente poesia, e também teologia. Mora em Apucarana, no Paraná, e congrega e serve na Comunidade Nova Aliança nesta cidade.

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