Deus É Pai, E Eu Com Isso?

father-656734_1920Alvin Platinga define Deus como um ser necessário; Benedito descreve Deus como o Logos Supremo; Aristóteles fala do motor imóvel, o ato puro, o pensamento do pensamento; Hermêutico o chama de O Tudo, e a Bíblia O chama de maneiras diferentes em lugares diferentes. Ao dizer que a cabeça de Deus é “Pai” não estamos meramente dando um nome a alguém, mas isto é feito para que possamos conhecer quem é Deus.

“Deus tem muitos nomes, porém não tem nenhum nome” é uma frase comum entre teólogos. Esta é uma maneira simples e útil de nos ajudar a compreender que Deus não pode ser exaustivamente compreendido pelos nossos sentidos. Deus, por ser espírito (João 4:24), nunca poderá ser experimentado por nosso sentidos humanos. Coisas criadas não podem experimentar coisas não-criadas (e esta é uma das coisas que me faz ver um dos motivos pelos quais Deus nos deu expíritos, para termos experiências com ele). Devido a este fato, Wayne Grudem corretamente afirma que “Deus tem muitos nomes no sentido de que temos muitas descrições de seu caráter pela Escritura; no entanto Deus não tem nenhum nome no sentido de que nenhum nome pode é capaz de descrever ou entender todo seu caráter.”

Não existe ninguém melhor do que Deus para nos revelar quem Deus é.

Uma maneira confiável de saber quem é Deus não é através do que pensamos sobre ele, nem tentando entender o que sabemos sobre ele com lógica modal ou filosofia Grega. A definição de Plantiga pode ser fantástica para apologética (e eu sou um grande fã de seu segundo argumento ontológico), mas ela carece do lado relacional de Deus. O mesmo pode ser dito de outras definições dadas por filósofos ou pensadores [1]. Não existe ninguém melhor do que Deus para nos revelar quem Deus é. Agora que isso está entendido, podemos nos perguntar: O que significa “Deus é Pai”? [2].

Seria assustador ver Cristo dizendo, “Oreis assim: Deus que está no céu”, no Sermão da Montanha. Por que? Porque estaríamos falando de um ser distinto, transcendente, e distante. Todo o aspecto relacional da oração seria perdido, e possivelmente todos os objetivos da oração seriam perdidos [3]. Quando oramos para um Deus que está no céu devemos lembrar da reverência que deve ser prestada ao falarmos com tal Elohim. Mas quando oramos por um Deus que está no céu e este Deus é nosso Pai, tudo muda. Podemos agora, confiantemente, achegarmo-nos ao Trono da Graça (Hebreus 4:16). Estudar os atributos de Deus na Teologia Sistemática pode nos assustar, justamente pelo fato de que Sua santidade é imensuravelmente superior à nossa. Entretanto, enxergar a santidade de Deus à luz de Cristo nos levará a ter confiança no Pai. Um Pai santo nunca pecaria contra seus filhos, logo podemos concluir que todas suas promessas serão cumpridas. Se nós, que somos pais maus que pecam a todo momento, podemos tratar nossos filhos bem, quem dirá Deus que totalmente santo e fiel (Mateus 7:11)?

 

“Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra” (Efésios 3:14-15). De acordo com este texto, reconhecer que Deus é Pai, também é reconhece-lo como criador. O amor de Deus pela sua criação e sua soberania sobre a criação estão explícitos neste texto [4]. Enquanto as culturas mais remotas do antigo Oriente Médio representavam deusas dando luz a criação, e portanto tornando a criação apenas uma extensão de sua divindade, o Cristianismo descreve Deus como Pai, aquele que paternalmente criou tudo que existe.

Se não definimos “Deus” da mesma maneira que a Bíblia define, estamos falando do mesmo Deus?

Cristãos devem buscar compreender quem Deus é em luz da Escritura, não de si mesmos. Se Deus não tivesse escolhido se revelar a nós, estaríamos em uma escuridão espessa a procura de uma luz que é inacessível (1 Timóteo 6:16); seríamos como vermes feitos de barro sem luz inerente a procura de um Deus que habita em um manto escuro de trevas (Salmo 18:11). Para seres sem luz natural, é impossível o conhecimento de um Deus que é rodeado por nuvens e escuridão (Salmo 97:2), a não ser que ele se revele a nós. Como já sabemos, Deus se revelou através da Escritura. A revelação de Deus é a (única) maneira segura de conhecer a Deus. Se não definimos “Deus” da mesma maneira que a Bíblia define, estamos falando do mesmo Deus?


[1] “O Logos Supremo” de Benedito é útil para definir Jesus, visto que João utiliza a mesma linguagem e seus escritos contidos na Palavra são inspirados. A definição de Aristóteles veio de sua resposta a pergunta de Tales, e creio eu que ela carece de suporte Bíblico para aqueles que não adotam o determinismo como filosofia interpretativa. “O Tudo” perde de vista o ponto que Paulo estava fazendo, porém posso conceder o direito de dúvida, visto que creio que Hermêutico buscava um resultado diferente do qual eu aqui critico. Porém, eu critico seu resultado, não meramente sua intenção, pois nenhum prato é avaliado pelo que inspirou o cozinheiro, mas pelo gosto (resultado).

[2] É necessário afirmar aqui que o fato de Deus Pai ser Pai não implica em que a paternidade divinal não esteja presente no Filho e no Espírito Santo. O Pai é Deus (Filipensses 1:2), o Filho é Deus (João 1:1 e 14), e o Espírito Santo é Deus (Atos 5:3-4). Seria incoerente, e até falacioso, concluir que o que está presente no Filho não está presente no Espírito, visto que todos são o mesmo ser e são definidos similarmente pela Escritura (compare Isaias 64:8, João 1:3, e Jó 33:4, com a definição de “Criador”, por exemplo).

[3] Se não há nenhum aspecto relacional na oração, a oração não seria nada além de comunicação com um deus pagão que tem interesse na criação por interesse próprio.

[4] Para ver este estudo de forma mais profunda clique aqui.

 

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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  • Sara

    Ok, mas devo orar somente para Deus pai? Ou tanto faz, se eu oro pra Jesus, pro Espírito Santo, ou para Deus? Preciso ser específica para quem direciono minha oração, ou devo considerar que os 3 são Deus e ponto final?
    Agora eu fiquei confusa. Mas na dúvida sempre oro para o Pai, em nome de Jesus.

    • A oração cristã é essencialmente trinitária. Você ora ao Pai, em nome de Jesus, através do Espírito Santo.

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