A Dificuldade De Avaliar Resultados

buildingIgrejas que fazem parte do movimento “Seeker-Sensitive” crescem sem parar, o movimento “reformado” parece estar tendo maior abertura na mente do povo, crentes pentecostais estão saindo de suas igrejas, igrejas batistas perdem membros que vão para a luterana. Enfim, o que significa isso? Neste texto me proponho demonstrar que a dificuldade em se avaliar tal questão é muito maior do que parece. Enquanto alguns respondem, “eles vem por causa da Palavra” ou “saíram porque não eram dos nossos”, eu quero propor uma análise um pouco mais profunda.

Correlação Não Implica Em Causalidade

Quantas vezes você viu alguém sair da igreja e aplicou um versículo destinado a falsos mestres da Palavra ao seu irmãozinho da igreja (1 João 2:19)? Ou quantas vezes você viu que sua igreja começou a pregar a Palavra mais firmemente, e mais pessoas começaram a vir? Bem, estas coisas acontecem frequentemente em nossas igrejas, igrejas que lutam para descobrir como atingir essa salada de fruta cultural que temos hoje em dia. Lembre-se de uma fórmula para sua vida: Correlação não implica em causalidade. Sabe o que isso quer dizer? Isso quer dizer que as vezes o irmãozinho saiu da igreja porque ninguém o acolheu, não porque ele nunca foi cristão; quer dizer que as vezes sua amiga “se desviou” porque ela estava com depressão, não porque ela não havia se convertido de verdade. É possível que as pessoas estejam indo à igrejas reformadas e entrando em cultos teológicos não porque eles amam a Verdade, mas porque eles querem ser aceitos por um grupo, ou porque querem ter respostas para tudo, ou porque amam discutir só para estarem certos e darem a última palavra no final. Jared Leto conta que ouviu muitos pregadores antigos da história americana, provavelmente reformadores. Seria sensato afirmar, então, que Leto estava interessado na Palavra [1]?

Somos rápidos em julgar. Eu odeio a frase “não julgueis” da maneira como ela é usada pela maioria dos brasileiros, que não chega nem perto de significar o mesmo que Jesus significou em Mateus 7. Mas, no sentido popular brasileiro, somos rápidos em julgar as situações. Creio que boa parte disso seja por falta de treinamento e reflexão nossa, não somente de nossa carne.

Na Prática, As Coisas Complicam

Como você sabe que a igreja dizimista é fiel ao Senhor? Pelo fato de ela doar dinheiro? Deus odeia o salário de prostitutas (Deuteronômio 23:18), mas se membros da instituição eclesiástica doarem dinheiro diremos que eles estão sendo abençoados por Deus e que eles estão honrando a Deus? Como um pastor pode afirmar que sua igreja está sendo fiel sem conhecer detalhadamente a vida de cada um? Da mesma maneira que o empresário pode estar dizimando dinheiro que sonegou de impostos, a pobre dona Maria pode estar não dando o dízimo por não confiar que Deus pode prover para ela e sua família. A questão complica mais ainda…

Certa vez ouvi de um pastor que suas crianças nem saíam do culto público para beber água e usar o banheiro, e fiquei impressionado. De fato, eu não saio não. Consigo ficar 8h dormindo sem fazer isso, então consigo ficar 2-3h na no culto sem fazer isso também. Porém, de forma mais profunda, esse detalhe que o pastor notou não vale nada. As crianças podem não estar saindo por medo de um Deus carrancudo que as proibiu de sair durante a pregação; podem estar com medo da professora da escolinha dominical que disse que quem sair durante o culto não ganha lanchinho depois. E aí, quão rápido podemos julgar a situação?

Como muitos sabem, fui viciado em crack por algum tempo em minha adolescência. Até hoje o sou, porém em recuperação. Fui internado 4 vezes em clínicas de reabilitação; 7 meses (somados) em uma clínica cristã que me ajudou muito, mas não “resolveu meu problema” [2]. Eles trataram meu problema como sendo espiritual, como alguma rejeição de Deus e tudo mais. De fato, fizeram um bom trabalho, me ajudaram muito e eu sou eternalmente grato a eles. Inclusive recomendaria esta clínica a todos que me perguntarem. Porém, o MEU problema, em particular não era espiritual. Quando fiz um tratamento com Ibogaína, tratamos a adicção como uma doença, uma deficiência na enzima P450 no fígado. Estou limpo desde então. Cristãos fundamentalistas, no mal sentido, teriam um espasmo cerebral ao saber disso, mas eu não me importo. O filósofo tem a função de criticar os sistemas e propôr reflexões sem ter de se comprometer a abraçar um sistema em particular.

Defendo que devemos desengessar nossa compreensão de resultados. Equações envolvendo números são complicadas, quando colocam letras piora, concorda? Então por que pensamos que uma equação com seres humanos criados a imagem de Deus, com liberdade, consciência, livre arbítrio, uma natureza corrompida, seria mais fácil? De fato, precisamos pensar mais sobre o assunto.

Enquanto escrevo isso, no aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida, um homem sentado a minha frente recebe um Doctor Pepper de sua esposa, ela veio andando e trouxe para ele, que estava mexendo no celular. Já me veio o pensamento, “que cara vadio, nem pra ir buscar comida para sua esposa. Um homem de verdade busca as coisas para sua esposa, não manda ela buscar”. E bam! Fui pego na armadilha que considero. Quem disse que ele mandou ela lá? Quem disse que ela é esposa dele? Quem disse que não foi ela quem quis passear e trouxe um presente para ele (possível, visto que até agora ele ainda não abriu a garrafa)? Quem disse que ele não está no celular assistindo uma video aula para sua prova final de mestrado esta noite (improvável? Quem se importa, se é possível estou errado)? Neste momento percebo quão fácil é julgar as situações sem analisá-las com cuidado.

Resolução (Ou Não) Relacional

Este tipo de resolução é o que proponho. É possível que o João tenha traído sua esposa por inúmeros motivos, e é possível que aquele motivo que você acreditava, com todo seu treinamento de Sherlock Holmes, está absurdamente errado. E se, ao invés de decretar o veredito sem nem ouvir o jurí, você criasse uma amizade com o João? É possível que nem ele saiba o porquê da traição (não seja cara-de-pau suficiente para me dizer que você nunca pecou sem saber o porquê)! Que tal ajudá-lo a descobrir a causa de seu problema ao invés de se tornar inimigo dele por se achar superior? Considere isso: como estariam nossas igrejas se buscássemos ouvir as pessoas para entendê-las e não para respondê-las?

Sócrates era odiado por seu método de ensino. Ele fazia perguntas. Meu professor de História das Idéias, dr. Benjamin Quinn, me encruzilhou algumas vezes na sala de aula perante outros 80 alunos. Eu dizia, “creio em A”, e ele perguntava “por que?” Após 5 respostas ele ainda perguntava o por que, e eu simplesmente não tinha raízes tão profundas para minhas opiniões. Isso me destruiu, isso me fez renascer. Sugiro que façamos o mesmo: perguntas. Perguntemo-nos uns aos outros a razão das coisas que fazemos antes de tomar voz ativa.

Considere isso: como estariam nossas igrejas se buscássemos ouvir as pessoas para entendê-las e não para respondê-las?

Você não precisa ser comentador relacional. Eu, assim como o Yago Martins (ele mesmo admitiu), sou um péssimo comentador político (mas isso vai mudar em nome de Jesus). E a pressão que todo brasileiro ou americano tem dentro de sí, a de dar palpite e se achar o entendido em absolutamente tudo, é grande. Eu nem tento comentar sobre o que não sei. Na cara dura digo: não sei (é possível que você já tenha me perguntado algo achando que eu saberia, e tomou um “não sei” bem bonito também. Mil desculpas a você). Você também não tem a obrigação de ser comentador de relacionamentos ou de estatísticas. Estude como mentir falando a verdade através de estatísticas e você irá entender o que eu disse: o problema é maior do que números! Mulheres ganham menos, negros matam mais negros nos USA, jovens não compram mais casas, E DAÍ? Isso não prova nada! Lembre-se, correlação não implica em causalidade. Haja relacionalmente. Faça perguntas. Seja honesto consigo mesmo quando não souber a resposta, e se você se encontra muitas vezes tendo as respostas sobre relacionamentos de seres humanos livres, considere calar a boca porque, provávelmente, você estará falando besteira. Mas isso também é uma análise…

Estamos todos condenados…


[1] Neste vídeo ele comenta que usou este tipo de pregação para “encarnar” o Coringa, em Esquadrão Suicida.

[2] Aqui também faço uma ressalva. NENHUM tratamento vai salvar vagabundo. Se o adicto não quiser mudar nada vai mudá-lo. Depende do tratamento? Sim, e muito! A família ajuda? Eu estaria morto sem ela (literalmente). Mas quem é o principal agente causativo na recuperação do viciado? O adicto.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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