Os Pilares da Metodologia Teológica – Escrituras, Tradição, Razão, e Experiência

book-863418_1280-2A teologia cristã é baseada nas Sagradas Escrituras. A tradição cristã não é nada além da maneira tradicional de se interpretar as Escrituras. Para interpretar as Escrituras é preciso que usemos a razão e que estejamos alertas de como nossas experiências afetam nossa relação na tarefa da interpretação. É também necessário que estejamos atentos aos fatores culturais que influenciaram os pais da igreja, que é fundamental no entendimento da tradição. Reconhecer isso é reconhecer sua metodologia teológica, é reconhecer o que precede sua abordagem ao Texto Sagrado. Mas, como estes pilares sustentam a tarefa do teólogo em harmonia? É possível que a tradição vá de encontro as Escrituras? E se a razão for contrária a fé? Experiências são maneiras confiáveis de se obter conhecimento de Deus? Para responder estas questões você devce estar disposto a analizá-las separadamente com a mesma mentalidade, e sistematicamente organizar uma maneira de compreender estes pilares que são fundamentais para aquilo que os cristãos chamam de doutrina.

Teologia Cristã

Teologia, quando praticada dentro da comunidade de Deus, é a articulação organizada da fé cristã a respeito do Deus Triuno. Isto é, obviamente, baseado no fiel, inerrante, e suficiente testemunho da Bíblia Sagrada, a verdadeira narrativa de todo o mundo. Teologia cristã é a explicação racional da revelação divina, a qual floresce como uma disciplina relacional e pessoal, como um exercício acadêmico, e um cometimento eclesial como meio de adquirir um maior conhecimento de Deus, com o objetivo de influenciar sua própria vida e a comunidade cristã ao seu redor. Portanto, teologia cristão é um ato feito em comunidade, é um relacionamento com Deus e com a Igreja Católica. Teologia cristã é tanto uma tarefa intelectual quanto um exericício espiritual. Logo, deve ser praticado por pessoas salvas pela Graça através da fé, por pessoas já deificadas e Cristoficadas, pois o indivíduo empenhado nesta tarefa está alistado em uma tarefa que tem como objetivo a prática em prol e dentro dos limites da comunidade de Deus. Seu propósito é amadurecer crentes que, em sua práxis, podem pensar,  falar, e viver justificadamente perante Deus para Sua glória somente.

“Teologia cristão é um ato feito em comunidade, é um relacionamento com Deus e com a Igreja Católica”

Experiência

Experiência pode ser compreendida como (1) contexto ou realidade, como (2) afeições religiosas ou encontros supernaturais, ou até mesmo como  (3) circunstâncias existenciais. Seu contexto é sua experiência, é o que traz a tona as perguntas que você irá responder através das Escrituras. A maneira mais comum de se compreender experiência é relacionando-a a afeições religiosas. Tanto o Antigo (Ex. 3; 1 Sam. 3; 1 Rs. 3; Sl. 19:8-10, 42:1-2, 43:4; Is. 6; Jer. 20:9; Ez. 2:2, 3:12, 8:3; etc) quando o Novo Testamento (At. 2:11, 8:17, 10:46; Rom. 5:1, 12; 1 Cor. 12-14; Gl. 5:22; Fil. 4:4; Col. 3:16; Heb. 6:5; 1 Ped. 1:8; Apo. 3:16; etc) afirmam a essencialidade de afeições santas na tarefa de conhecer mais de Deus. Experiência, neste contexto, não deve ser confundida com emocionalismo ou entusiasmo, mas como o que mantém teólogos longe de uma morte espiritual, de ritualismo, e do institucionalismo. Experiência como afeição é fundamental para a renovação da fé, porém não é uma negação da dimensão cognitiva da auto-revelação de Deus na Palavra; experiência provê o zelo ao conhecimento, com o objetivo de previnir o teólogo de uma queda em esterilidade espiritual. Experiência não é uma passagem ao oculto; experiência deve ser cuidadosamente observada para mandar teólogos longe de ideologias humanistas, heresia, anarquismo moral, narcisismo, e impotência cultural (John Jefferson Davis, Foundations of Evangelical Theology, [Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984], 165-168). Se você compreende experiência como afeições santas, para utilizar a linguagem de Jonathan Edwards (cf. Religious Affections), você irá concordar que, ao contrário do experiencialismo, experiência implica que o Espírito Santo fala nas Escrituras, não afora. De acordo com Bruce R. Ashford e Keith Whitfield, Lutero também cria que “a Palavra de Deus estavelece-se em nós através da experiência” (Bruce. Ashford & Keith Whitfield, “Theological Method: An Introduction to the Task of Theology”, em A Theology For the Church, Edição Revisada. Editado por Daniel L. Akin [Nashville, Tennessee: B&H Publishing Group, 2014], 27).

Experiência também pode ser entendida como circunstância existencial, que é tão comum quanto afeições religiosas, mas infelizmente a maioria não está consciente deste fato. Circunstâncias existenciais tem um impacto tremente em como o teólogo faz uso das Escrituras [1]. O teólogo deve estar ciente de suas circunstânvias existenciais e deve ter cuidado para que suas condições não ditem o significado do Texto Sagrado. A Escritura deve auxiliar na interpretação do contexto existencial do teólogo, não o oposto. Quando se trata de teologia, a ordem dos fatores pode alterar o produto. Independente de como é compreendido, experiência sempre será analizada e explicada pela Escritura. Escritura e experiência não andam separadas, você não pode excluir a experiência e experar ter teologia cristã.

“Experiência como afeição é fundamental para a renovação da fé, porém não é uma negação da dimensão cognitiva da auto-revelação de Deus na Palavra”

Experiência, então, é o que o teólogo traz a mesa quando se empenha no exercício teológico. A humildade prática que pode ser construída a partir deste entendimento é maravilhosa, pois isso significa que diferentes posições teológicas podem de fato estar fazendo perguntas diferentes ao texto e por conta disso, obtendo respostas diferentes do mesmo. Para entender quais questões estão sendo respondidas pelo autor do texto e quais questões você está tentando responder com o texto te levará a um entendimento mais profundo de como o processo interpretativo toma forma no exercício teológico. O método epistemológico de interpretação das Escrituras permite que o teólogo trabalhe em uma via de mão dupla: as Escrituras interpretam a experiência e a experiência se torna a aplicação da Palavra; as experiências levantam as questões e a Palavra as responde. Segue-se que a aplicação da resposta bíblica na cultura é, novamente, experiência.

Escrituras

Qual, então, é o lugar das Escrituras na teologia cristã? Ela é a base epistemológica da comunidade cristã. Sem Escritura, nenhum conhecimento do Deus Triuno poderia ser alcançado por mentes humanas. A Palavra inspirada por Deus é a auto-revelação de Deus a todos que são iluminados pelo trabalho do Espírito Santo [2]. O Espírito de Deus fala nas Escrituras, liderando a comunidade de fé em uma jornada que garante crescimento espiritual, uma jornada que foi escrita por Deus em confluência com os autores do texto original. Portanto, Escritura é elevada em relação a experiência, pois providencia os limites nos quais o teólogo analisa a experiência em si. Enquanto ambos experiência e tradição estão sujeitas a alánise e validacão pelas Escrituras, a Palavra permanece normativa e inabalável. A inspirada coleção dos 66 livros inspirados é aonde Deus se revela. Entretanto, a comunidade cristã afirma que a Palavra é inspirada por Deus, não nossas interpretações dela. Ela é o fundamento infalível no qual cristãos estabelecem doutrinas falíveis que buscam comunicar verdades inerrantes em uma linguagem errante para trazer seres imperfeitos a um Ser perfeito. A linguagem passível de erro dos cristãos é miraculosamente usada por Deus pelo Espírito Santo para apresentar o Filho, que infalívelmente é divinamente revelado nas Escrituras. O papel da Trindade na formação da doutrina, então, é essencial a teologia cristã (cf. David J. Treier & David Lauber, Trinitarian Theology for the Church [Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 2009]).

“Ela é o fundamento infalível no qual cristãos estabelecem doutrinas falíveis que buscam comunicar verdades inerrantes em uma linguagem errante para trazer seres imperfeitos a um Ser perfeito”

Tradição

De acordo com Alister E. McGrath, tradição é “um processo ativo de reflexão pelo qual a instrospecção teológica e espiritual é validada, acessada, e trasmitida de uma geração a outra” (Alister E. McGrath, Christian Theology: An Introduction [Cambridge, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1996], 188). Tradição, então, é como a comunidade de fé tem interpretado a Palavra históricamente. Se a telogia cristã encontra seu fundamento na Palavra, tradição refere-se a maneira tradicionalística de fazer teologia; tradição se refere a como teólogos interpretaram a Palavra no passado. A respeito da single-source theory ou tradição em si, a interpretação corporativa é mais valiosa que interpretação particular e privada. Enquanto a Bíblia é infalível e inerrante, a tradição não o é. Tradição não deve ser entendida como uma disciplina fixada na rocha, mas como uma reflexão sujeita a flutuação. Neste sentido, tradição cristã difere da tradição Católica Romana (dual-source theory) defendida no concílio de Trento, pois aqui é o caso em que não existe, ou pelo menos não é tão importante, tradição que não seja escrita, apenas tradição baseada em reflexões passadas na Revelação Escrita. Tradição, da mesma forma que experiência e Escritura, é acessada por meio de nossas capacidades cognitivas.

Razão

Razão é intrínsicamente conectada a teologia. Sem razão, qualquer forma de epistemologia seria impossível. Teologia, significando conhecer e amar a Deus e comunicar verdades a respeito dele, implica que no mínimo compreensão de quem Deus é deve ser atualizada. Para tal atualização é necessário que se faça uso de nossas capacidades cognitivas. Por outro lado, fazer uso da razão não significa este é o meio pelo qual conhecemos e experimentamos Deus em um relacionamento, mas meramente um dos pilares que tornam o exercício teológico possíveis. Razão é uma força abstrata que pode ser denominada como intelecto (do Latin intellegere, que sugere a idéia de uma leitura interna). Esta força abstrata é o que leva o teólogo a meditação, memorização, e refleção na Revelação de Deus. O teólogo, no exercício de reflexão sobre o conteúdo fornecido pela Palavra, não devota-se unicamente a revelação divina, mas também compreende as verdades da fé em si mesma e também sua relação com outras verdades fora da esfera teológica. Conclui-se que o intelecto é o que torna possível a tarefa da teologia cristão ao teólogo, recontando as verdades da Escritura em uma maneira culturalmente compreensível.

A complexa tarefa da teologia pode ser resumida nestes quatro pilares, que constituem a medologia teológica dos evangélicos ao se utilizarem da Palavra [3]. Teologia cristã é feita na comunidade, e em sua análise racional, minuciosamente examina Deus, Cristo, o Espírito Santo, o homem, a igreja, e o fim dos tempos. A partir desta breve descrição dos quatro principais pilares da teologia cristão você pode se engajar na tarefa teológica de maneira muito mais preparada, pois agora está ciente de si mesmo, de suas circunstâncias existenciais, de sua metodologia, e dos objetivos ta tarefa teológica em si.


[1] Por exemplo, um pai cristão que perde um filho pode ser levado a questionar a autoridade do texto Bíblico quando vê que Deus permite que impíos tenham filhos, ou até mesmo o caráter de Deus, que neste caso estaria tratando o ímpio com mais amor do que os eleitos.

[2] Aqui afirmo que Revelação só acontece quando Deus se revela ao leitor pelo texto. O texto em sí não é a revelação de forma completa, mas quando o Espírito ilumina o leitor a revelação toma forma e se efetua.

[3] Outros pilares podem e devem ser considerados, tais como ciência, ciência moderna, física, teologia natural, filosofia, linguística, a relação da igreja Ocidental e da Oriental, etc.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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