O Exclusivismo (Inclusivista) Dos Cristãos

photo-montage-1514218_1920Entendendo O Problema

A sociedade ocidental atual é ávida apreciadora do que D. A. Carson chama de Pluralismo Filosófico (PF de agora em diante). PF é a cosmovisão pluralista aplicada, “é a ideologia que se recusa a permitir que qualquer religião afirme aprensetar uma verdade exclusiva” (RYKEN, 1999). PF, então, é admitir que todas as religiões são alternativas que merecem atenção, certo? Não. PF é admitir que todas as religiões são igualmente válidas, ou seja, todas são verdade.

Outro pilar que merece atenção dos cristãos do acidente é a diversidade. Cristãos são conhecidos por serem “mente-fechada”. De fato, se um judeu ouvir um millenial falando para ele, “eu tenho a mente aberta”, ele certamente ouvirá um desesperato grito: “Então feche-a!” O que isso quer dizer (leia mais sobre isso, aqui)? Quer dizer que, biblicamente, ter uma mente aberta é algo ruim. É como ter uma fortaleza com rombos, você não consegue conter o que aprendeu, nem corretamente dispersar o que deve no tempo certo. Mas não creio que ativistas de Facebook estejam fazendo uma afirmação teológica quando nos chamam de “mente fechada”. Somos chamados de mente fechada pois não celebramos PF. Afirmamos que somente Cristo é o caminho para Deus, e que todas as outras religiões do mundo estão erradas. Por favor, continue a leitura, gostaria de lhe mostrar a beleza do cristianismo.

Cristão-Pluralista, Sim Senhor!

Apesar das acusações de que cristãos não são pluralistas, Ryken consegue mostrar pelo menos duas formas de pluralismo que são apreciadas no meio evangélico. O Pluralismo Empírico (PE, de agora em diante) e o Pluralismo Querido (PQ, de agora em diante). PE e PQ são diferentes entre si e diferem de PF, mas de forma alguma devem ser rejeitados por cristãos. Pense no país lindo que Deus nos inseriu, o Brasil. Sotaques variados, etnicidades diversas, religiões pra dar e vender, cosmovisões que não acabam mais, enfim, uma verdadeira salada cultural. Então empíricamente, vivemos em uma cultura pluralista, e amamos isso! O brasileiro é conhecido por amar, celebrar, e receber outras culturas. Gostamos de ver os gringos falando português com sotaque errado; com toda certeza temos o pluralismo como algo querido entre nós.

A celebração da diversidade é pra lá de valiosa. Meu comentário bíblico de cabeceira é a The Cambridge Bible for Schools and Colleges, pois adoro ver como as idéias de Salomão, em Eclesiastes, são usadas por filósofos epicureus. Seu culto, quer você perceba e/ou admita ou não, é saturado de elementos de outras culturas, e se a igreja estivesse mais atenta a isso gastaria menos tempo discutindo picuinha sem noção. Na Palavra de Deus, vemos Seu amor por TODAS as culturas. Todos os homens, independente de cargo e posição, são chamados ao evangelho (1 Timóteo 2:1-6); o cordeiro de Deus tira o pecado “do mundo”, não só do seu bairro (1 João 1:29); e todos os povos, todas as culturas, são chamadas a salvação pelo próprio Deus (Isaías 45:22). Por mais que o arco-íris tenha ganhado conotação pejorativa para alguns cristãos, o cristianismo é “um arco-íris de cores e culturas” (METZGER, 2012).

Cristão Exclusivista É Inclusivista!

Não sei se você percebeu, mas meu último ponto implica que através da exclusividade de Cristo, todas as culturas, raças, povos, e nações são incluídas no Reino de Deus! Como cristão sou exclusivista sim, e não posso negar. Jesus Cristo é o único caminho para Deus. Ou é ele, ou não é nada. Mas isso não me torna racista, preconceituoso, ou mente fechada. Pelo contrário, meu exclusivismo me torna inclusivista, pois através de Cristo Jesus todas as culturas e diferenças podem ser unidas. Você é burro? Vem pro Reino! É rico? Vem pro Reino! É negro? Vem pro Reino! É coreano e fala espanhol? Vem pro Reino! Tem PhD? Vem pro Reino! Não passou da quarta série? Vem pro Reino! Consegues, enxergar a beleza disso?

Desculpe, A Tolerância Não Te Ama

A maior virtude de todas é a tolerância, de acordo com algumas pessoas. Para estas, não importa que o significado da palavra no dicionário, mas o que elas mesmas querem que a palavra signifique. Tolerar é nada mais que um verbo transitivo, é permitir algo mesmo que tacitamente; tem quase o sentido de suportar algo desagradável. Infelizmente, para alguns, discordar de suas opiniões ou criticar algo que elas gostem é fazer uma crítica ontológica, é criticar a própria existência da pessoa como ser. Infelizmente, muitos cristãos também agem assim. Quando eu digo que não gosto de música “gospel” e apresento os motivos, ou quando falo que não sou fã de tal banda, quase tenho uma aula prática sobre a inquisição.

“Um cristianismo que abre mão de suas afirmações exclusivistas cessa de ser o cristianismo em todas as suas formas”, disse Metzger, em seu livro Tell The Truth. Tolerância, nos dias de hoje, é quase um pedido islâmico, é uma questão de vida ou morte. “Ou você aceita minhas idéias e cala a boca, ou você é um ______” (nessa hora o millenial abre o seu bloco de notas, copia todos os xingamentos que deve mandar pra você, copia, e cola). Esta forma de tolerância nunca será disponível ao cristão, porque esta forma de tolerância não ama, ela é indiferente.

A tolerância deve ser aplicada à pessoas, não a suas ações. Esta é a verdadeira tolerância. Tolerância que engole a verdade não é tolerância, é ausência de culhões, é medo de perder a amizade (que não é verdadeira, pois o relacionamento se baseia na abstenção de um, pois aquele que se cala aceita refratar a verdade para não ferir o amigo).

MacDowell e Hostetler, em The New Tolerance, aprensetam uma conversa entre o amor e a tolerância, e eu gostaria que você guardasse estas palavras em seu coração:

Se você ama uma pessoa você não vai agir de modo indiferente a seus comportamentos e crenças perigosas e destrutivas simplesmente para evitar ofendê-lo(a). Porém mesmo assim, a nova tolerância demanda este tipo de indiferença.

A tolerância diz, “você deve concordar comigo!” E o amor responde, “em verdade, preciso fazer algo muito mais difícil; eu devo te expor à verdade porque estou convencido que ‘a verdade te libertará'”.

A tolerância diz, “você deve aprovar aquilo que eu faço”. E o amor responde, “eu devo ir além, eu devo amá-lo mesmo quando seu comportamento me ofende”.

A tolerância diz, “você é obrigado a permitir que eu faça as coisas do meu jeito!” E o amor replica, “sou, na verdade, obrigado a algo muito mais difícil; implorarei a ti que sigas o caminho certo, porque creio que você vale a pena mesmo que meu pedido seja arriscado”.

A tolerância busca não ofender; o amor se arrisca. A tolerância é indiferente; o amor é ativo. A tolerância não custa nada; o amor demanda tudo.

Novamente, Jesus é o supremo exemplo do verdadeiro amor cristão, que, por vezes, é a antítese da tolerância. Seu amor O dirigiu a uma cruel morte de cruz. Longe de ser indiferente a “escolha de vida” dos outros, ele pagou o preço de tais escolhas com Sua própria vida, e amorosamente pavimentou o caminho para que todos dizendo, ‘vá, e não peques mais’ (João 8:11)”.

A Racionalidade Do Exclusivismo Inclusivista

 

Neste último momento gostaria de apossar-me de três argumentos finais propostos por Metzger em favor deste pensamento, o pensamento exclusivista da salvação por meio de Cristo e de Cristo somente. Quando você tiver uma conversa com alguem que é adepto da visão que acabamos de analisar, (com paciência e amor) apresente estes argumentos à pessoa. Não assuma que ela não está interessada em aprender e que vai te xingar. Lembre-se, isso é pra glória de Deus, não para mostrar quem está certo ou errado. Se este entender o erro de sua visão, glória a Deus! Se não entender, glória a Deus também!

1. Marcos 14:32-42

Neste texto Jesus pede a seu Pai se era factível que o cálice “viesse a passar dele”. Jesus aqui pede ao pai se existe alguma possibilidade do plano de salvação ser cumprido sem o sacrifício de Cristo. Se a resposta do Pai for “claro, filho!”, então já saberemos que de fato é possível ser salvo sem o sacrifício vicário de Jesus. Se a resposta dele for ausente, se ele não der resposta nenhuma, então ele ignorou as necessidades de seu filho e tal “deus” não merece nossa atenção. Um Deus que não ama o próprio filho não pode me amar. Mas se a resposta de Deus é negativa, então só existe uma maneira para o desenrolar da salvacão ser atualizado. De fato, não há nenhuma resposta no texto, mas sabemos que ele foi obediente até a morte de cruz, conforme Filipenses 2:8. A resposta do Pai foi, em verdade, negativa. Não há nenhum plano B para salvação do perdido. Se houvesse, o Pai de amor teria poupado seu próprio filho. Ajude a pessoa com quem você conversa a entender que, se de fato há algum caminho além de Cristo, o Pai assassinou seu próprio filho (sim, Deus Pai o moeu, veja Isaías 53:10) em vão! Tudo que aconteceu foi apenas um teatro sádico de um Deus ditatorial e doente. Tal coisa não pode ser verdade, e não é. Não há nenhum outro caminho para Deus pois o sacrifício de Cristo não foi em vão.

2. Sinceridade Não Implica Verdade

Certa vez conversava com um amigo da Assembléia de Deus. Ele citou uma de minhas músicas antigas para provar que a formalidade do culto não é importante. Decepcionado com sua afirmação eu alegremente admiti que estava errado quando escrevi a música, e que tal canção não deve ter mais autoridade que a Palavra de Deus. Ele então afirmou que eu estava sendo sincero, e que eu sabia muito bem quem havia me inspirado a escrever aquela letra. Após ter limpado a coca-cola que eu cuspi na tela do computador quando lí aquilo, eu calmamente respondi que a sinceridade das minhas palavras não implicam a veracidade delas, e que muito menos ele deveria achar que eu fui inspirado pelo Espírito Santo a escrever algo contrário aos escritos inspirados que são a Palavra. Infelizmente, muitas pessoas crêem que sinceridade implica em veracidade. Será que essa crença é atualizável? Podemos aplicá-la? Suponhamos que seu filho esteja doente e que você esteja indo a cozinha para medicá-lo. Você pega o frasco A e dá a seu filho três pílulas. Ele toma e piora. Você então, carregado de tristeza e boas intenções, vai a cozinha e pega o frasco B e o medica. Sem apresentar nenhuma melhora, você o leva ao pronto socorro. Chegando lá eles examinam seu filho e você conta quais medicamentos deu. O médico dá risada e te dá uma bronca por sua incompetência. Você quis fazer o trabalho do médico sem o conhecimento dele. Você teve intenções boas, mas seu filho não seria curado por elas. Boas intenções não curam; más intenções nem sempre trazem destruição (já leu a história de José?). Como explica o autor, “a fé não pode ser separada de seu objeto; a fé é sempre em algo. A validade da fé é determinada pelo seu objeto”. Quantas pessoas tem fé que serão curadas de suas doenças terminais e acabam falecendo? Sua fé era esperança, e como esperança era legítima; sua fé era confiança no amor de Deus, e como tal também é legítima. Mas como fé na cura, ela era falsa. O contrafactual se provou falso e a potencialidade futura não veio a existir. In summa, a verdade é algo independente de sua sinceridade.

3. A Irracionalidade Da Coexistência E Múltipla Validade

Você provávelmente já viu essa imagem:

Essa imagem implica que todas as religiões podem coexistir; basicamente, da esquerda para a direita, o islã, budismo, ciência, judaísmo, paganismo, wicca, e cristianismo. Mas coexistir significa existirem no mesmo espaço e/ou ao mesmo tempo. Seria meio difícil para as letras “oexist” coexistirem com a letra “C”, visto que ela quer destruir todas as outras letras, conforme já expliquei detalhadamente neste vídeo que você vai assistir. É ingênuo e ignorante crer que as religiões podem coexistir visto que algumas, como o islamismo, tem crenças absurdamente radicais que implicam em morte daqueles que discordam de tal cosmovisão.

O que é sugerido por alguns é a validade múltipla de tais religiões. Mas isso não resolve o problema, pois afirma que A pode ser B enquanto ser A sem deixar de ser B. É uma contradição! O cristianismo afirma o Trinitarianismo teísta, o judaísmo e o islã afirmam um monoteísmo singular, o hinduísmo é panteístico, e o budismo é ateístico. Como todos podem ser verdade? Você vai ter que fazer uma escolha, mais de um destes não pode ser verdade. A salvação do cristão é pela graça mediante a fé, a salvação do judeu é pela lei, a salvação do muçulmano é mediante obediência a Allah e sua soberana vontade, salvação para os budistas é mais como um Nirvana, e para os hinduístas é o Moksha. Como podem todas ser verdade ao mesmo tempo? Não podem, este é o fato.

Conclusão

O cristianismo é exclusivista sim, e isso é nosso orgulho. Nosso exclusivismo é inclusivista por definição, de forma que outras religiões não podem ser. O amor é ativo enquanto a tolerância moderna é passiva e indiferente. O cristão deve dialogar com as outras culturas e buscar aprender, afinal, “toda verdade é verdade de Deus” (Agostinho). Temos a missão de dialogar com pessoas que tem cosmovisões diferentes, de acordo com Gálatas 1:8. Nós amamos pessoas e culturas, e estamos dispostos a dedicar nossas vidas por elas.

Um pedido encarecido meu é que você use este artigo para aprender e, pela graça, espalhar o amor de Deus. Não o use como “decoreba” para “vencer” uma discussão. Vencer um debate e perder a alma do oponente é perder o debate. Pense nisso.

Em breve outro artigo apresentando incoerências em PF.


Bibliografia Consultada:

  • Donald A. Carson, The Gagging of God: Christianity Confronts Pluralism (Grand Rapids: Baker, 1996).
  • Josh McDowell and Bob Hostetler, The New Tolerance (Wheaton, IL: Tyndale House, 1998).
  • Philip Graham Ryken, Is Jesus the Only Way? (Wheaton, IL: Crossway, 1999).
  • Will Metzger, Tell The Truth: The Whole Gospel Wolly by Grace Communicated Truthfully & Lovingly, 4th ed. (Downers Grove, IL: Inver Varsity Press, 2012).

 

The following two tabs change content below.
Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

Latest posts by Natan de Carvalho (see all)

Tags: , , , , , ,

%d blogueiros gostam disto: