Filemon – Considerações Hermenêuticas e Contexto (Parte I)

Filemon é uma carta fantástica. Muitos dizem que se não tivéssemos nenhuma outra carta disponível, somente com esta carta poderíamos entender o impacto que o evangelho de Jesus causou na região. Mas antes de falar sobre o impacto de Jesus, vamos buscar entender o que aconteceu aqui [1].

A Prisão

Para buscarmos entender o que esta carta significa hoje, devemos buscar entender o que ela significou no passado. A hermenêutica que ignora a interpretação, e vai direto para a aplicação aplica aquilo que provavelmente não entendeu. A primeira pergunta que eu me faço neste texto é, como era o modelo de prisão no 1º século? Aqui já podemos ver o primeiro erro de ir direto a aplicação, e também o erro de temer material extra bíblico para auxílio em sua interpretação. A prisão nos tempos atuais é a pena em si. Ao cometer um crime você fica preso, até que venha a sua punição—ou seja, até que você saiba quanto tempo ainda você vai ficar preso. No 1º século a prisão era o local onde você aguardava sua pena. Sua pena não seria ficar preso, mas sim ser torturado, enforcado, liberto ou executado de qualquer outra forma. No sistema Romano de justiça você sempre ficava na dúvida: serei morto ou liberto?

Paulo na Prisão

A segunda coisa que me chama atenção neste texto é a reação de Paulo a sua prisão. Ele inicia apresentando-se como prisioneiro. Espere aí: será que existe algum motivo para Paulo não se apresentar como apóstolo, eleito de Deus, servo do Senhor, ou algo do tipo? Por qual motivo Paulo se apresenta como um prisioneiro? Teria ele orgulho de estar preso? Me parece que sim. Me parece que a primeira coisa que o autor quer que entendamos sobre ele é que ele mesmo é um prisioneiro. O verso 10 começa a fazer mais sentido: Paulo está se colocando no mesmo nível de Onésimo—ambos estão em algemas.

O Nome

Nomes sempre tiveram muita importância nas culturas antigas, e até hoje os pais mais pensadores colocam um nome especial em seus filhos. Natan, por exemplo, significa presente de Deus. No Hebraico, ele é o verbo dar, e constantemente se relaciona a algo dado por Deus. Tudo isso aponta para o fato de que minha mãe me concebeu de uma forma quasi-milagrosa. Onésimo também é um nome que nos chama atenção. O “útil,” como também poderia ser chamado, faz sentido do verso 11. Antigamente, talvez, ele fosse inútil a Filemon; mas agora, o útil é de muito valor a Paulo e a Filemon.

Os Devedores

Paulo parece implicar que Onésimo fez algo. Algum dano ou ato feito por Onésimo agora o tornou devedor a Filemon. Paulo, em sua retórica forte, sugere que Filemon cobre a conta de Onésimo à Paulo. Filemon, porém, também é devedor. Aqui, o nivelamento que Paulo fez de si mesmo como prisioneiro ao lado de Onésimo, agora alcança Filemon: da mesma maneira que Onésimo é devedor a Paulo, Filemon também deve a Paulo. A impressão que temos é que Paulo abraça ambos pecadores e os lembra de que estamos todos no mesmo barco. Obviamente, a carta foi escrita porque Onésimo deve algo a Filemon, mas Paulo lembra a todos que todos devem algo a alguém.

Paulo e a Escravidão em Filemon

Mas e a escravidão? Em momento algum Paulo parece ser contra o modelo de escravidão Romana. Aqui somos confrontados com a ideia de alguns teólogos de que a Bíblia é um sistema de doutrinas. Na verdade, a Bíblia é uma história. É uma coleção de histórias escritas por pessoas lidando com problemas específicos. Paulo, neste caso, está respondendo um problema específico (o conflito entre Filemon e Onésimo), enquanto busca não arranjar um outro problema maior (ser morto pelo Império).

Quando você pensa sobre escravidão aqui, não pense no translado de escravos que foi abolido por William Wilberforce, também outro cristão. Escravos eram como carros—eram uma parte essencial do modelo político de Roma. Não eram somente os pobres e negros que eram escravos. Escravidão não era uma questão étnica. Caso você fosse um rico de olhos claros, e seu país ou estado tivesse sido derrotado em uma guerra, você poderia se tornar prisioneiro e cumprir sua pena como escravo. A escravidão também se estendia ao povo como uma forma de evitar a pobreza. Seu mestre te providenciaria uma casa para morar, comida, um local para banho, um local para suas necessidades, e um local para você trabalhar. Em troca de trabalho, ele te dá segurança. Se seu mestre tem alimento, você teria alimento. Se seu mestre é bom, você é bem tratado. Agora lembre-se de como Jesus constantemente é referido como mestre, e como nós somos referidos como escravos de Deus. A palavra “servo”, normalmente vindo do Grego duolos, nada mais é que uma tentativa dos tradutores de desvirarem-se de assuntos polêmicos. Ao fazerem isso, no entanto, eles obscurecem uma das mais lindas mensagens do NT: somos todos escravos de Deus.

Paulo não advoga pela libertação de todos os escravos no governo Romano. Você consegue imaginar a catástrofe que isso seria? Constantemente vejo pessoas na internet glorificando a tortura de bandidos, a exaltação daqueles que apoiam a soberania do Estado, e outras formas de violência. Parece que estes não entenderam a mensagem de justiça do Apocalipse nem o sentido de Juízes. Em Apocalipse, todo o sangue que existe é o sangue do cordeiro. Nenhum outro sangue é derramado. Em Juízes, vemos como a violência não resolve absolutamente nada. Um juiz violento se levanta e resolve tudo na nação por alguns dias. Propositalmente, o autor coloca já em seguida o fato de que a violência já retorna. A violência só gera mais violência, talvez por isso o Reino de Deus é instituído através da paz e do sacrifício. Talvez se lêssemos as bem-aventuranças desta forma teríamos uma igreja diferente no Brasil. Aonde quero chegar? Me parece que a mensagem bíblica não é de revolta, mas sim de sabedoria. Paulo sabe que o Império Romano vem agregando-se de escravos de todas as partes do mundo em sua expansão. Ao conquistar uma terra, a escolha da escravidão sempre pareceu mais atrativa aos conquistados do que a espada. Agora imagine isso, milhares da população do Império são escravos. Alguns destes foram bem tratados, outros não. Mas uma coisa é certa, a grande maioria, se não todos, querem a liberdade. Outra coisa também é certa, a natureza humana corrompida tem sede de vingança. Seria inteligente a sugestão de que o Império libertasse mais de 1/3 da população antes da hora? Milhares de homens trabalhadores com sede de vingança pelas ruas do Império… O que poderia dar errado?

Novamente, Paulo demonstra sabedoria em suas palavras. Ele sabe que resolver tudo com violência não leva a nada. Ele tinha Juízes em sua Bíblia, e juízo em suas racionalidades. Sua sugestão? Mestres, tratem bem seus escravos; escravos, honrem seus mestres. Poderia Paulo abrigar Onésimo? Como possibilidade, sim. Como algo fazível, não. Abrigar um fugitivo do estado que está sobre pena de morte não era a melhor das ideias. Paulo sugere a reconciliação. Ele envia Onésimo de volta a Filemon em busca de algo maior do que vingança ou simplesmente livrar a traseira de Onésimo.

Paulo e Onésimo

Talvez no passado Onésimo não fosse seguidor de Jesus, mas agora ele o é através de Paulo. Ele se tornou discípulo de Paulo em sua prisão em Efésios. No fim da carta de Colossenses, vemos o autor citando Onésimos como um servo de Deus (4:7-9). Vemos que algo aconteceu em sua vida. Por mais que ele tivesse sim feito errado no passado, alguém agora advoga sua causa. Eu poderia muito bem dizer que quem advoga pela causa do crente é Deus, mas isso seria ignorar o texto. Aqui, quem advoga pela causa de Onésimo é Paulo. Se a mensagem de proteção existe na carta, é uma mensagem que mostra como os irmãos devem defender uns aos outros em sabedoria.

A Sugestão de Paulo

Mas, seria essa proteção inocente? Paulo sugere que Filemon simplesmente esqueça do ocorrido ou sugere que a devida punição seja infringida? Nenhum dos dois. Paulo sugere de forma explícita que Filemon dê continuidade ao ministério da reconciliação que foi inaugurado no Evangelho de Jesus. A similaridade desta carta à carta de Colossenses é impressionante. Em Colossense, Paulo sugere mostra como o Cosmos foi reconciliado em Jesus e como isso é feito através de seus seguidores. Em Filemon, agora ele demonstra que as implicações cósmicas do Reino de Deus também permeiam cada parte de nossos relacionamentos profissionais, pessoais e eclesiásticos.


[1] O que segue é uma transcrição de um sermão entregue na CBVNBrasil em Agosto de 2017. O estudo foi baseado na carta de Filemon, nas aulas de N. T. Wright e outros comentários bíblicos. Como o sermão é uma atividade não acadêmica eu não me preocupei em utilizar notas de rodapé ou citações exatas.

 

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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