Imortalidade Condicional – Uma Resposta ao Aniquilacionismo

A maior parte dos cristãos acredita que ao morrermos, morreremos ou para a vida ou para a morte. Ambas situações serão eternas. Quem aceitou a Cristo receberá a vida eterna e quem o negou morrerá eternamente. No entanto, como em tudo na teologia, essa idéia é contestada. Ainda me lembro de meu primeiro semestre na SEBTS quando uma garota me disse que acreditava em eternidade condicional. Quando ela me explicou o que era aquilo eu disse, “ah! Aniquilacionismo… Sim, sim, eu conheço. É uma heresia,” e dei uma risadinha. Ela não gostou muito do meu comentário mas como ela estava copiando meu trabalho de hebraico do Antigo Testamento, achei inútil discutir os textos do Antigo Testamento que falam disso, visto que boa parte da posição aniquilacionista depende de palavras hebraicas e gregas.

Há um tempo atrás um leitor do site me chamou a atenção para o fato de que ele era aniquilacionista. Prometi a ele uma resposta ao problema e minha visão no assunto. Cumprindo a promessa eu gostaria de analisar questões bíblicas, teológicas, e filosóficas que cercam este assunto. Infelizmente não podemos dar respostas simples (como eu dei a garota que copiava meu trabalho) a esta questão. Um problema adotado por pessoas de peso como F. F. Bruce, John Stott, Clark Pinnock, e outros, merece nossa atenção.

Aniquilacionismo – Adeptos e Debate Contemporâneo

Ao que parece, o primeiro aniquilacionista (EC a partir de agora) foi Arnobius (-330DC). Arnobius não era um bom teólogo. Seven Books Against the Heathen, uma de suas obras mais memoráveis, contém elementos henoteísta e gnósticas. Em Adversus Nationes Librii VII, 2.14 encontramos sua defesa da EC (espaço e tempo não me permitem citar, mas aos que desejam fique a vontade para pesquisar). Embora o Teólogo africano tenha sido o primeiro, quem de fato elaborou esta doutrina foi Edward White, um ministro congregacional, em sua obra Life in Christ. Obras atuais que podem nos dar mais clareza da posição EC estão nesta nota de rodapé [1].

EC também é encontrada em alguns grupos marginais, como Socinianos, (alguns) Anabatistas, Testemunhas de Jeová e Adventistas do Sétimo Dia. Não desejo usar da falácia de culpa por associação, e admito que tal movimento seria tolice. Também não aprovo os que fazem o mesmo. Atirar pedras em Socinianos ou Testemunhas de Jeová é fácil, mas quem vai querer bater de frente com Phillip Hughes, John Wenham, Michael Green, ou E. Earle Ellis? Uma declaração da Evangelical Alliance Comission on Unity and Truth Among Evangelicals (ACUTE: 2000, 130-135) afirma que é possível que um creia em EC e seja considerado um cristão.

Entendemos que a presente Evangelical Alliance Basis of Faith permite ambas  interpretações tradicionalistas e condicionalistas do inferno.”

Em Defesa do Aniquilacionismo

O dicionário de Oxford da igreja cristã define EC como o seguinte:

“Uma teoria cuja imortalidade não é um atributo necessário da alma imaterial, mas condicional ao seu comportamento durante sua vida no corpo” [2].

Kenneth Keathley, a quem eu devo boa parte deste artigo graças a suas aulas de teologia cristã II, afirma que o “Aniquilacionismo defende que na morte, o injusto cessa sua existência de forma imediata ou eventual. [Por conta disso], muitos aniquilacionistas preferem o termo ‘condicionalistas'” [3]. Basicamente EC afirma que a imortalidade depende da sua confissão de fé. Os que aceitaram a Cristo viverão eternamente e os que negaram morreram e serão aniquilados em algum ponto. Como EC é mais robusto que outras crenças não ortodoxas a respeito da vida após a morte (como universalismo, por exemplo), terei de me desculpar por me faltar espaço e tempo para responder a todos os pontos de todas as diferentes ramificações de EC. No entanto, creio que ao final desta resposta você poderá entender os motivos que me restringem de adotar tal posição. Mas antes disso, vamos aos pontos propostos pelos proponentes de EC [4].

1. Destruição, Fogo Consumidor, Não-Existência, e Morte

Filipenses 3:19 (ἀπώλεια), 2 Pedro 3:7, e 1 Tessalonicensses 5:3 (ὄλεθρος) são exemplos de passages que afirmam tal coisa. Em Mateus 10:28 Jesus afirma que não devemos temer os que podem matar o corpo, mas sim os que podem destruir (ἀπόλλυμι) a alma no inferno. O termo pode ser traduzido como “perecer” (ἀπόλλυμι em João 3:16 e 1 Corintios 1:18). John Stott afirma que “seria estranho se as pessoas que sofrem destruição não fossem destruídas” [5].

2. Algumas passagens falam do fogo “consumidor” do inferno

Mateus 3:12 fala deste fogo consumidor (πυρὶ ἀσβέστῳ, NA28), e Stott afirma que a função primária do fogo não é causar dor, mas consumir, como fica claro ao observarmos todos os incineradores do mundo, ele afirma sarcasticamente [6].

3. Certas passagens falam da não-existência do ímpio

Obadias 16: “Portanto, como vós bebestes no meu santo monte, assim beberão também de contínuo todos os gentios; beberão, e sorverão, e serão como se nunca tivessem existido” (וְהָי֖וּ כְּל֥וֹא הָיֽו, BHS/WIVU).

4. Algumas passagens falam fo estado final do perverso como a “morte”

Apocalipse 20:14 e 21:8 são bons exemplos disso. θάνατος normalmente significa “o término da vida física” [7] e em 21:8 tem o sentido de morte eterna [8].

5. EC afirma que humanos são condicionalmente mortais

Eles afirmam que a doutrina da imortalidade da alma vem de filosofia Helenística, e que a Bíblia ensina que apenas Deus é imortal (1 Timóteo). Além disso, 1 Corintios 15:51-55 nos mostra que Deus concede vida eterna apenas àqueles que crêem.

6. A natureza eterna do inferno

Temos passagens que afirmam que o inferno é “eterno” e “sem fim”, mas Edward Fudge acredita que αἰώνιος se refere apenas ao tempo, e não a natureza ou a qualidade de um determinado objeto [9]. Por exemplo, Cristo obteve a “eterna redenção” (Hebreus 9:12), blasfêmia contra o Espírito Santo é um “pecado eterno” (Marcos 3:29), Sodoma sofreu a “vingança do fogo eterno” (Judas 7), os salvos receberão “vida eterna” (João 10:28), e os não-salvos irão experimentar a “destruição eterna” (2 Tessalonicensses 1:9). Passagens como Mateus 25:41 e 46 devem ser entendidas desta mesma forma.

7. O uso do Antigo Testamento no Novo Testamento

EC afirmam que as passagens do NT não podem ser entendidas em um vácuo, mas devem ser lidas à luz de suas fontes no AT. Por exemplo, a doutrina clássica cristã afirma que o sofrimento é eterno e consciente. Usamos Marcos 9:48 como um dos textos base para afirmar tal coisa. O problema é que Marcos 9:48 cita Isaias 66:24, e Isaias se refere à corpos mortos que claramente não estão conscientes.

8. A doutrina da punição eterna é moralmente intolerável

Pinnock afirma: “de uma perspectiva moral, o tormento eterno é intolerável porque ele trasforma Deus em um monstro com sede de sangue que mantém um Auschwitz sem fim para vítimas que ele nem permite que morram. Como alguém pode adorar ou imitar um Deus tão cruel e sem misericórdia?” [10] Stott confessa que ele não consegue sequer entender como pessoas conseguer adotar tal doutrina sem cauterizar seus sentimentos [11].

9. Punição eterna e pecados temporais

EC afirma que existe uma exacerbação na punição eterna de atos que foram cometidos de forma finita. Alguns teólogos que não adotam EC, como William Lane Craig, entendem que pecados finitos não devem ter uma punição infinita. Mais adiante veremos a sugestão de Craig para resolver tal tensão.

Pecados são cometidos em um período de tempo limitado, e punir tais eventos temporais eternamente parece ser injusto. Como Pinnock questiona, “qual propósito de Deus seria servido através da tortura sem fim do ímpio exceto pura represália e vingança?” [12] Além do mais, Keathley nota que esta idéia infringe o princípio de imparcialidade na justiça. Roubar de um pobre é ruim, mas roubar de um rico é pior porque ele possui mais? Da mesma forma parece que pecar contra um irmão é ruim e merece punição temporal, mas pecar contra Deus merece punição eterna. Isso parece contraditório.

10. A posição tradicional apresenta um dualismo eterno

1 Corintios 15:28 diz que Deus será “tudo em todos”, mas se o inferno e os punidos serão eternos, Deus não será tudo em todos, mas tudo em alguns. Tal “vitória” sobre o pecado parece insatisfatória, porque “a maior parte da humanidade permanece eternamente em rebelião e oposição à Deus” [13].

Uma Resposta à Eternidade Condicional

Agora que analisamos alguns dos argumentos em defesa da EC devemos ver se existem respostas para tais objeções. O estudante que for honesto o suficiente para reconhecer que ele não sabe tudo, e esforçado o suficiente para buscar respostas, irá encontrar respostas para os argumentos apresentados. Não creio que lembrar o leitor que o 5º Concílio de Latrão condenou EC em 1513 seja suficiente, então abaixo eu listo algumas das respostas que eu dou e que outros irmãos deram ao problema da EC.

1. ἀπώλεια e ὄλεθροςe: Extinção?

ἀπώλεια (apōleia) significa destruição, não extinção. Wayne Grudem nota que apōleia também é usada pelos discípulos (Mateus 26:8) para falar do “desperdício” do perfume derramado sobre o corpo de Jesus [14]. Será que o perfume cessou de existir? Parece tolice entreter tal idéia. Como Grudem explica, o perfume não foi extirpado da face da terra, mas “foi destruído no sentido de que ele não poderia mais ser util ou vendido para ninguém”. ἀπώλεια não significa uma mera extinção da existência, “mas um eterno estado de tormento e morte” [15]. Se as próprias passagens bíblicas não fossem suficientes, existem inúmeras passages gregas [16], além do uso na LXX [17] que mostram que ἀπώλεια não significa extinção nem de longe. Eu poderia passar mais tempo aqui me utilizando de passagens bíblicas que mostram que ἀπώλεια não tem um significado exclusivo real, mas deixo isso como tarefa de casa pra você [18].

ὄλεθρος (olethros) também não pode significar o fim da existência de algo se temos em vista textos como 1 Corintios 5:5 para comparar [19]. Será que devemos pensar que a “carne” que foi destruída foi literalmente retirada do mundo atual? Não consigo pensar em nenhum teólogo que tenha sugerido tal idéia. Se alguém vier sugerir que 1 Coríntios tem um “sentido diferente” de 1 Tessalonicensses podemos sugerir que tal pessoa se aproprie de algum léxicon decente e faça a leitura do mesmo. O sentido das palavras é o mesmo, então não há desculpas [20]. Stott foi ligeiro demais em seu sarcasmo e perdeu a linha. Concordo com Stott que aqueles que são destruídos precisam ser destruídos, mas Stott faz um pulo falacioso de (1) aqueles que são destruídos são destruídos para (1b) aqueles que são destruídos são aniquilados. Nem Stott e nem quem quer que seja que queira afirmar isso não tem suporte bíblico ou lógico para fazer tal afirmação.

2. Fogo consumidor

Stott passa dos limites bíblicos e se suporta em tautologia novamente. Indicar a função biológica e química das chamas não faz absolutamente nada para ajudar sua exegese. Mateus 3:12 fala de um πυρὶ ἀσβέστῳ mas Stott foca somente no fogo (πυρὶ) e se esquece que ele é ἄσβεστος. Este fogo não tem fim, ele é eterno, e nada pode apagá-lo [21]. Este fogo não será extinto ou aniquilado, ele queimará eternamente.

É interessante notar que Apocalipse 17:8 e 11 profetizam que a Besta será destruída. Ela então é jogada no lago de fogo e enxofre junto com o Falso Profeta (19:20). Miraculosamente, 1000 anos depois, ela reaparece e 20:10 declara que ela sofrerá dia e noite para todo o sempre [22]. Claramente, fogo consumidor não implica fogo que apaga a existência.

Além do mais, devemos estar cientes da linguagem figurada na Bíblia. O inferno não pode ser tomado de escuridão literal e chamas de fogo ardente ao mesmo tempo (Hebreus 12:29; 2 Tessalonicesses 1:8). Ou é um ou o outro. Aqui, novamente, vemos os adeptos de EC utilizando-se de uma hermenêutica falha, que literaliza linguagem alegórica para provar seu ponto.

3. Oseias 16

Este versículo é composto da seguinte forma:

(Suporte) Razão -> Comparação -> [Suplemento] -> Predição -> (Sentença) Elaboração.

O que nos é importante no momento é a elaboração da predição. A Predição é que todas as nações beberão continuamente. A substantivo תָּמִיד é absoluto, e tem o sentido de algo que não pode ser interrompido, algo que não tem fim [23]. A profecia, então é de que todas as nações beberão (לעע tem sentido de algo que é bebido devagar de maneira dolorosa [24]) e esta bebida será consumida sem interrupção.

A sentença “e serão como se nunca tivessem existido” é apenas a elaboração da predição. Ela é uma cláusula secundária. Ela não carrega o peso que a sentença anterior carrega. A preposição כְּ (k) é de sentido comparativo, não literal [25]. Para dizer que esta expressão tem sentido literal teríamos de nos utilizar de uma péssima tradução bíblica ou ignorar o sentido comparatido da frase.

4. Morte

Como já expliquei em outro artigo, morte não é simplesmente o fim:

“Esta é minha posição. Jesus Cristo, sendo completamente Deus, morreu. Deus morreu. A distinção que eu faço é na palavra morte, não na natureza de Cristo. A natureza de Cristo já está resolvida faz tempo, não quero me delongar neste ponto. O ponto aqui é “qual morte Cristo morreu?” As pessoas que argumentam contra este ponto que escrevi normalmente definem morte como o cessamento da existência. Porém tal definição é absurda. Quem morre não deixa de existir, quem morre deixa de existir fisicamente nesta terra. Quando você morrer você não deixará de existir, você apenas deixará de existir na terra. O problema, creio eu, é juntar um conceito aniquilacionista de morte e conciliá-lo com a união hipostática de Cristo. Não sou adepto da heresia do Aniquilacionismo, e creio que a a consciência eterna é um fato muito bem fundamentado na Escritura.”

Natan de Carvalho, Quem Morreu na Cruz? Jesus ou Deus? – 21/04/2016

Morte não é o fim da existência em si, mas o fim da existência de determinada função em determinado ambiente. O ser humano deixa de viver no ambiente temporal mas não cessa de existir como alma sem corpo. Admito que esta crítica é aplicável apenas ao EC que advoga a aniquilação imediata, mas apresento um caso cumulativo, não apenas um argumento final contra qualquer forma de EC.

5. Imortalidade Condicional

Esse argumento é simplesmente errôneo. Cristãos ortodoxos sempre afirmaram que “somente Deus é essencialmente imortal” [26]. A questão não é essa, mas sim se Deus concedeu existência sem fim àqueles que não serão salvos. Este argumento foge do foco da questão e por conta disso não necessita mais explicações.

6. Eternidade

Fudge afirma que eternidade se refere ao tempo e não à qualidade do objeto. Mas em Mateus 25:31-46 a Palavra apresenta o destino de ambos o justo e o injusto em paralelo. Obviamente, isso concorda com Fudge em parte. Mas se o destino é qualificado “eternamente” e ele é aplicado a indivíduos então estes mesmos recebem a mesma função que modificou o tempo. Em outras palavras, se seu destino é eterno eles também o são.

Em Apocalipse 14:11 vemos que o tormento prossegue pelos séculos e séculos que virão. Essa expressão difere de 9:5, onde o tormento dura apenas alguns meses. Aqui o tormento é eterno [27]. Stott assumiu seu próprio significado da palavra “destruição” e aqui, como Keathley nos disse em sua aula, “novamente, o condicionalista parece ter assumido o que ele quer provar”.

7. Uso do AT no NT

Jesus não foi o unico a utilizar Isaias 66:24 com um sentido levemente diferente. Judite 16:17 fez o mesmo, e lá também o texto se refere a punição eterna. O texto de Marcos é quase idêntico a LXX e faz alusão a Sirach 7:17. Por mais que o fogo e as minhocas tenham uma relação próxima a estas outras fontes, não parece que este seja o foco em Marcos 9:48, mas sim que o fogo não pode ser apagado (οὐ σβέννυται) e que as minhocas nunca morrem (οὐ τελευτᾷ). Devemos interpretar os textos em suas interrelações com outros textos sim. Mas não podemos esquecer que cada texto tem sua audiência primária e seu foco individual. Marcos escreveu seu evangelho para gentios, então não devemos esperar que estes possíveis leitores romanos tenham em mente interpretações judaicas dos textos antigos.

8. Punição eterna e moralidade

Pinnock foi severo e imprudente em seu questionamento. Ele pode ser um grande teólogo e ter escrito vários livros, mas blasfêmia é blasfêmia e nenhum de nós está a salvo disso. Christopher Morgan responde: será que a punição eterna não serve nenhum propósito? “Pinnock está claramente procurando um propósito remedial ou redentor”, e fazendo isso ele falha em interagir com a visão histórica, e conclui que julgamento deve ser no máximo vingativo e inútil [28]. Pinnock faz a pergunta errada e por isso não encontra nenhuma resposta. Se sua pergunta fosse, ‘qual são os propósitos da punição eterna?’, ao invés de assumir que tal coisa não existe e abordar a questão de maneira sarcástica, ele teria chegado a uma conclusão diferente, e com Morgan poderia ter afirmado que “o julgamento de Deus não é malvado ou vigativo, mas justo, santo, reto, necessário, e glorioso (Romanos 9:19-23)” [29].

Antes de apresentar o argumento de J. P. Moreland sobre a imagem de Deus e punição eterna, eu gostaria de colocar a repreensão de Millard Erickson a Pinnock na esperança de que alguns leitores não venham a cometer o mesmo erro.

“Uma coisa é ser enfático sobre seu senso pessoal de injustiça e indignação moral sobre a idéia de Deus condenar pessoas ao inferno. Se, no entanto, alguém for descrever enviar pessoas à punição eterna como ‘cruel e vingativo’, e um Deus que faria isso como alguém ‘mais parecido com Satanás do que com Deus’ e ‘um monstro com sede de sangue que mantém um Auschwitz eterno’, é melhor que ele tenha certeza que ele está certo. Porque se ele estiver errado ele é culpado de blasfêmia. Uma abordagem mais sábia seria refrear tais afirmações porque talvez ele esteja errado” [30]

J. P. Moreland afirma que um “inferno eterno é moralmente superior ao aniquilacionismo” [31]. Moreland acredita que a questão moral está firmada no entendimento da dignidade da vida e da qualidade de vida. Aqueles que priorizam a qualidade de vida, uma vida sem sofrimento, estão mais prontos a aceitar EC. Por outro lado, aqueles que priorizam a dignidade inerente da vida se opõem a questões que denigrem tal dignidade, como eutanásia, aborto, etc. Moreland declara que “o unico fundamento que Deus teria para aniquilar alguma pessoa seria sua baixa qualidade de vida no inferno”. No entanto, entre baixa qualidade de vida e ausência de vida temos uma grande diferença. Viver é melhor que não viver; ser é melhor que não ser. Como Deus busca aquilo que mais glorifica seu ser, podemos entender que a vida de um ser feito à imagem e semelhança de Deus é superior a ausência de tal ser. Por este motivo Moreland pode apresentar um argumento coerente que mostra que a permissão de vida de baixa qualidade àqueles que rejeitaram a Cristo é moralmente superior a EC.

9. Pecados Temporais

Creio que Mark Talbot tenha acertado em sua resposta à esta questão [32]. Talbot conclui que este mundo seria extremamente perverso se os Hitlers que temos pudessem ser permitidos a simplesmente desaparecer em sua ausência de consciência. Mas será que a consequência para tais pecados cometidos de forma finita deve ser infinita? Aqui nos Estados Unidos (onde a justiça funciona) se você apertar o gatilho por um segundo e matar alguém você vai passar uma porção gigantesca de tempo preso ou talvez será sentenciado à morte [33]. É comum em nosso dia a dia vermos ações momentâneas que alteram o curso da vida da pessoa para todo seu tempo na terra. A justiça criminal leva em conta não somente a ação, mas contra quem o crime é cometido. Uma traição contra sua esposa pode resultar em um divórcio, mas traição ao seu país pode ser pena de morte. Um assassinato de um traficante armado é (ou deveria ser) considerada uma ofensa menor do que o assassinato de uma criança indefesa. Como podemos ver, o argumento EC de que a temporalidade dos pecados deve ser proporcional ao julgamento falha em parte.

Mas suponhamos que meu argumento não tenha lhe convencido. William Lane Craig apresenta um modelo que afirma que pecados temporais podem resultar em punição temporal e ao mesmo tempo afirma a eternidade do sofrimento do ímpio no inferno [34]. Adorar a Deus é uma obrigação do ser humano, e não adorá-lo é pecado. É possível que alguém continue a pecar na vida após a morte? Obviamente! Se os não-salvos continuam a não adorar a Deus após a morte eles continuam a trazer julgamento sobre si. Se este for o caso, e parece ser possível, então o aniquilacionismo não precisa ser verdade para termos “justiça finita”, mas apenas que os condenados sejam primeiramente condenados. Se você puder, leia o debate entre Craig e Ray Bradley, vai esclarecer muitas dúvidas sobre questões morais [35].

Por fim, Deus é conhecido por punir “pequenos pecados” severamente: a mulher de Ló (Genesis 19:26), Nadabe e Abiu (Numeros 3:4), Moises e a pedra (Numeros 20:11), Acã (Josué 7:25), Uzá (2 Samuel 6:6-7), Ananias e Safira (Atos 5:1-7), entre outros [36]. Me parece que seres humanos não estão em uma posição muito favorável para determinarem uma punição própria e justa para o pecado.

10. Dualismo Eterno

Este ultimo argumento parece igualar eternidade com destinos simétricamente idênticos. A Bíblia é clara no que diz: “comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras” (Apocalipse 22:12). Cada um será retribuído de acordo com aquilo que fez. Se colocarmos Satanás sendo obrigado a reconhecer o senhorio de Cristo (Filipenses 2:10-11) não é a mesma coisa que Deus habitando com seu povo (Apocalipse 21:3). Ambos terão existência por toda a eternidade, mas sua existência será qualitativamente e propositalmente diferente.

Conclusão

Neste breve artigo apresentei alguns argumentos a favor e contra o Aniquilacionismo. Obviamente existem outros argumentos por aí, e muitos deles fogem do meu controle porque eu não estou em grupos de Whatsapp e Facebook o dia todo comprando briga com garotos de 13 anos que têm argumentos que “destróem o cristianismo”. Um leitor da página sugeriu este tema ano passado e agora me sinto confortável para dar uma breve pincelada de forma rasa neste tópico tão debatido.

Aos que estão interessados em continuar se aprofundando no tema eu deixo uma lista com materiais disponíveis para estudo, além das fontes nas notas de rodapé:

  • Crockett, William. Four Views on Hell. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1992.
  • Peterson, Robert A. Hell on Trial: The Case for Eternal Punishment. Phillipsburg, New Jersey: P&R Publishing, 1995.
  • Souza, Gaspar de. A Realidade Bíblica Sobre o Inferno. Teologia Brasileira, Agosto de 2001.
  • Sprinkle, Preston. Counterpoints Series: Four Views on Hell. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2016.

[1] E. W. Fudge, The Fire that Consumes. A Biblical and Historical Study of Final Punishment (Houston [1982]; 2nd ed., revisado por P. Cousins, The Fire that Consumes. The Biblical Case for Conditional Immortality, Carlisle [1994]). H. W. Fulford in Encyclopedia of Religion and Ethics 3 (1901), pp. 822–5, s.v.; G. C. Joyce, ibid. 1 (1908), pp. 544–9, s.v. ‘Annihilation’; ambos com bibliografia.; B. J. Warfield em New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, 1 (1908), pp. 183–86, s.v. ‘Annihilationism’.

[2] F. L. Cross, and Elizabeth A. Livingstone, eds, The Oxford Dictionary of the Christian Church (Oxford, New York: Oxford University Press, 2005), 397.

[3] Notas de sua aula Cristian Theology II: Eschatology and the Eternal State.

[4] Agradeço ao professor Kenneth Keathley por suas notas nesta aula e lhe dou crédito pelas divisões dos pontos que seguem.

[5] David L. Edwards, John Stott, Essentials: A Liberal-Evangelical Dialogue (London: Hodder & Stoughton, 1988), 316. Disponível para leitura neste link.

[6] Ibid., 316-318.

[7] A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: University of Chicago Press, 2000), 442.

[8] Ibid., 443.

[9] Edward Fudge, The Biblical Case for Conditional Immortality (1994), 11-20.

[10] Clark Pinnock, “The Destruction of the Finnally Impenitent”, em Rethinking Hell: Readings in Evangelical Conditionalism (Cambridge: Lutterworth Press, 2014), 67.

[11] Ibid., citando Essentials, 314.

[12] Ibid., 68.

[13] Christian Theology II.

[14] Wayne Grudem, Systematic Theology: An Introduction to Biblical Doctrine (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1994), 1150 ff13.

[15] The Theological Dictionary of the New Testament, vol.1 (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1964), 397.

[16] Philo de Alexandria, Philo, IX. 20 e 74; Flavius Josephus, Antiquities of the Jews 15. 62; The Life of Flavius Josephus, 272; Testamento de Dan 4:5; e todos os outros listados em A Greek-English Lexicon, p. 126.

[17] “Common in the LXX in sense b. The concepts θάνατος, ᾅδης, ἀπώλεια etc. are all used together for it, being often personified as man’s worst enemy. Job 26:6: ᾅδης (שׁאוֹל) and ἀπώλεια (אֲבַדּוֹן); 28:22: ἡ ἀπώλεια καὶ ὁ θάνατος (אֲבַדּוֹן וָמָוֵת) cf, 31:12; ψ 87:12: τάφος (קֶבֶר) and ἀπώλεια (אֲבַרּוֹן) cf. ψ 15:10; Prv. 15:11: ᾅδνς καὶ ἀπώλεια; 1 C. 15:55; Rev. 20:14 → Ἀβαδδών; b. Shab., 89a: אֲבַדּוֹן וּמָוֶת; Qoh. r. 5:9: the soul of Titus escaped לַאֲבַדּוֹן לְדִרְאוֹן עוֹלָם. Similarly Lidz. Liturg., 67, 10. Preis. Zaub., IV, 1247 f.: παραδίδωμί σε (the demon) εἰς τὸ μέλαν χάος ἐν ταῖς ἀπωλείαις, betrays Jewish Christian influence.” Conforme TDNT, vol. 1, 396.

[18] Mateus 10:6 (pra Jesus encontrar as ovelhas perdidas elas teriam de estar na terra, correto?), 27:20; Marcos 1:24, 2:22 (lembrando àqueles que faltaram nas aulas de ciência mas o princípio de conservação de energia não permite que matéria seja literalmente extinta); João 12:25; Romanos 14:15 (que loucura seria se pudéssemos comer algo que faz nosso irmão pecar e isso fizesse ele ser extinto da face da terra), 1 Corintios 1:19 (a onisciência de Deus não permite que tal conhecimento seja literalmente extirpado), e por aí vai…

[19] Systematic Theology, ibid.

[20] Ethelbert W. Bullinger, A Critical Lexicon and Concordance to the English and Greek New Testament (London: Longmans, Green, & Co., 1908), 221.

[21] Low-Nida 14.71

[22] Robert A. Peterson, “A Traditionalist Response to John Stott’s Arguments for Annihilationism”, em Journal of Evangelical Theological Society 37 no.2 (1994): 555.

[23]Francis Brown, Samuel Rolles Driver, and Charles Augustus Briggs, Enhanced Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon (Oxford: Clarendon Press, 1977), 556.

[24] Hans Walter Wolff. A Continental Commentary: Obadiah and Jonah (Minneapolis, MN: Augsburg Publishing House, 1986), 65.

[25] David J. A. Clines, ed. The Dictionary of Classical Hebrew, vol.4 (Sheffield, England: Sheffield Academic Press; Sheffield Phoenix Press, 1993–2011), 347.

[26] Christian Theology II.

[27] John D. Barry, Douglas Mangum, Derek R. Brown, Michael S. Heiser, Miles Custis, Elliot Ritzema, Matthew M. Whitehead, Michael R. Grigoni, and David Bomar, Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Lexham Press, 2012, 2016), Revelation 14:11.

[28] Christopher W. Morgan, “Anihilationlism: Will the Unsaved be Punished Forever”, em Hell Under Fire: Modern Scholarship Reinvents Eternal Punishment (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2004), 207.

[29] Ibid., 208.

[30] Millard Erickson, The Evangelical Mind and Heart (Grand Rapids, Michigan: Baker Academic, 1993), 152.

[31] J. P. Moreland, The Soul: How we Know it’s Real and Why it Matters (Chicago, Illinois: Moody Publishers, 2014), 174.

[32] Mark Talbot, “The Morality of Everlasting Punishment”, em Reformation and Revival Journal 5 (1996): 117-134.

[33] Assista aqui meu breve vídeo sobre pena de morte: A Bíblia e a Pena de Morte.

[34] William Lane Craig, Do the Damned in Hell Accrue Further Punishment?

[35] __________., e Ray Bradley, Can a Loving God Send People to Hell? (Vancouver, British Columbia, Canada: Simon Frasier University, 1994).

[36] A Traditionalist Response, 561-562.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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