A Incoerência Do Relativismo Cultural

Relativismo é a base de qualquer conversa entre duas pessoas que adoptam a filosofia pós-moderna. Da mesma forma que Christopher Hitchens, em seu debate contra William Lane Craig (Debate legendado), diz que a dúvida é o combustível das descobertas, e por consequência, do avanço, adeptos do sistema pós-moderno argumentam que moralidade é relativa. De maneira breve e clara, eu gostaria de argumentar que tal idéia é incoerente pois (1) o relativismo moral nos impede de criticar/questionar outras culturas, (2) porque ele impossibilita qualquer tipo de reforma (inclusive a dos pós-modernos), e porque (3) ele impossibilita a própria definição de cultura. Creio que destes três pontos surja um quarto ponto: o relativismo moral leva ao anarquismo. Este quarto ponto, porém, merece um cuidado especial e será tratado mais adiante. Por agora, foque-se em compreender o argumento apresentado. Veja que eu não escrevo aqui a respeito de relativismo moral em si, mas a respeito do relativismo moral em relação a cultura. Qualquer tentativa de desestruturar o argumento com um cntrl C+cntrl V quando se pesquisa “respostas aos fundamentalistas” vai ser em vão. Influenciado pelo livro Doing Philosophy as a Christian, escrevi estes três pontos de argumentação. Aguardo alguma resposta coerente de filósofos pós-modernos.

Relativismo Cultural Impossibilita A Crítica Cultural

Se cultura A acredita que B é moralmente aceitável, é irrelevante que cultura C creia que B é imoral. Não é raro que alguém encontre alguma pessoa que argumente que o massacre Nazista não foi imoral em si. Tais pessoas argumentam que o ato seria imoral para nós, mas não segue-se logicamente que seria imoral para eles. Este argumento pode lhe soar estranho. No entanto, sua base se encontra no relativismo moral (RM). Quando relativismo moral é levado em conta, a impossibilidade de se julgar outras culturas por um cânon se torna impossível. Tais pessoas iriam argumentar que canibalismo, estupro, homossexualidade, terrorismo, mutilação genital, e outras aberrações, não são imorais em si, mas imorais em nossa cultura, não em todas. Talvez você não conheça algum filósofo que argumentaria isso, mas provavelmente conhece algum amigo que argumenta que é errado para a mulher trair o homem, mas o homem trair a mulher não é tão errado assim. A base é a mesma, e no próximo parágrafo pretendo chacoalhar os pilares de tal crença.

O relativismo cultural (RC) diz que algo só é errado se a cultura define que é errado. Este ponto será melhor debatido no ponto 3, cabe agora demonstrar outro fato. Todos nós julgamos outras culturas, não porque é certo ou errado, mas porque é possível. Se RM é verdade, segue-se que RC é verdadeiro. No entanto, não temos nenhum motivo para crer que RM é verdadeiro. RC, quando levado a suas últimas consequências, conclui que qualquer forma de análise cultural é impossível, pois isso iria sugerir uma espécie canônica de moralismo, coisa que eles não podem conceber. Intelectualmente é uma idéia tentadora, porém atualmente qualquer pessoa pode dizer que é capaz de fazer tais julgamentos. A mera possibilidade e atualidade de seus julgamentos a outras culturas abala as estruturas de RC, e por consequência RM.

Outro ponto pode ser levantado facilmente quando se leva em conta o posicionamento histórico de tal evento. Quando Hitler foi eleito, antes do massacre começar, era totalmente imoral matar judeus e padres ou até mesmo fazer experimentos com humanos. O argumento do relativista cai por terra, pois ele assume que a Alemanha já adotava o conceito de ódio aos judeus e padres antes de Hitler se estabelecer. Fato que certamente não segue de nossos livros de história. Carregando tal evidência mais além, mesmo que os alemães odiassem judeus e padres, chegar a conclusão que todos os judeus criam que uma extinção de outras raças era necessária e moralmente correta é um pulo que o relativista não pode dar. Isso nos leva a concluir que o próximo ponto mostra mais uma auto-contradição do RC.

Relativismo Cultural Impossibilita Reformas Morais

De acordo com o relativismo moral, a cultura dita as regras da moralidade. Vimos anteriormente que Hitler, no entando, fez uma reforma cultural, pois a priore, não era permitido ou sequer concebível a idéia de que a raça Ariana deveria prevalecer como a única raça existente na Alemanha. Hitler mudou o conceito de moralidade da época. Se a cultura dita a moralidade, Hitler foi uma personificação da cultura na Alemanha? Certamente não. Hitler mudou a cultura porque reformas morais são sim possíveis.

Afirmar RC é afirmar que qualquer pessoa que tente ir contra a cultura é imoral. Tal conclusão nos leva a entender que Jesus Cristo foi altamente imoral, pois reformou a cultura. Lado a lado com Cristo, temos outros demônios fundamentalistas como Gandhi, Lutero, e até mesmo Martin Luther King. Todos estes, de acordo com RC, foram imorais pois foram contra a cultura. Obviamente você nunca vai ouvir um relativista admitir isso, mas isso se dá apenas pelo fato de que eles ainda não conseguiram estruturar sua própria crença.

Relativismo Cultural Impossibilita A Definição De Cultura

Bem, se Hitler era a definição de cultura, mas ao mesmo tempo ele mudou a cultura, o que é a cultura? Essa é uma pergunta impossível pois ela pressupões que os dois pontos anteriores foram claramente compreendidos pelo leitor relativista, algo que é difícil conceber. Entretanto, visto que RC e RM dependem tanto da moralidade que emana da cultura, o que é cultura? Esta pergunta é muito mais difícil para o relativista do que as anteriores. De acordo com os relativistas, cultura é o que define a moralidade. Conclui-se que moralidade então é definida. Mas, quem define isso? “A cultura, Natan!” Disse o relativista. Infelizmente, essa resposta não é satisfatória. Alguns podem argumentar que os políticos definem a cultura. Pessoas que recebem salários de 30 mil reais por mês decidem o que é melhor para o país e o povo engole. Acho isso incoerente, visto que não conheço nenhum brasileiro com capacidades cognitivas que operam no nível acadêmico que apoiaria o estupro coletivo de nosso governo a mais de uma década. Seria incoerente, também, afirmar que a maioria dita o que é moralmente aceito. Se este fosse o caso, deveríamos aceitar que crucificar a Cristo é moralmente correto, visto que a maioria pediu a sua condenação. Seriam estados separados que ditam o que é moral? Uma república federalista se baseia em uma constituição. Por mais que ela seja livre para operar dentro dos limites da constituição, alguns erros ainda ocorrem. Alguns estados aceitam prostituição como um ato legal, mas legalidade implica em moralidade? Se 40 estados são a favor da prostituição, e 10 são contra, qual é a posição do país? Um anarquismo moral é o que deve ser estabelecido, visto que de fato, cada indivíduo dita suas próprias leis.

O que é cultura, então, se não um aglomerado de indivíduos com a mesma opinião? Basicamente, cultura é o conglomerado daqueles que concordam entre sí. Se algo é imoral para a minoria, então ética é reduzida ao terreno movediço da opinião pessoal, levando assim a um anarquismo moral. Visto que no desenvolvimento do ponto 1 eu demonstro que Hitler não era a opinião da maioria, seu ato foi imoral em relação a cultura. O ponto 2 destrói a idéia de que Hitler seria moralmente certo, visto que ele reformou a cultura de seu tempo. O ponto 3 conclui afirmando que Hitler, e qualquer pessoa que afirme RC, é auto-contraditória, é pois assume que a cultura estabelece a moralidade, quando de fato, cultura é formada por um aglomerado de indivíduos.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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