Jesus Foi Casado?

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Todo mundo ama uma boa conspiração.  Se você já enviou alguma para eu analisar, você deve saber que eu não dou a mínima para conspirações. Conspirações (normalmente) não tem valor em discursos acadêmicos visto que sua credibilidade beira o nihil. De baboseiras como “o homem nunca pisou na lua” a ofensas como “o holocausto nunca existiu”, vemos que conspirações se igualam a estupidez humana: não tem limites.

Uma conspiração que, creio eu, deve ser analisada, é a afirmação de que Jesus foi casado. Muitos que assistiram e/ou leram o Código da Vinci crêem que o filme tem valor acadêmico. Outros, confusos por afirmarem que Jesus nunca existiu, as vezes afirmam que ele teve Maria Magdalena como esposa e até filhos (reza a lenda que a variação de argumentos varia de acordo com a posição da lua). Neste breve texto pretendo demonstrar que a segunda afirmação não tem validade nem correção.

O Evangelho de Felipe

Evangelho de Felipe foi encontrado em Nag Hammadi em 1945. Bart Ehrman data o livro entre 150-350DC, e reconhece que a maior parte dos historiadores data o livro após o terceiro século [1]. Em Felipe 63:34, Maria é chamada de koinónos (κοινωνός). Muitos afirmam que a palavra significa “parceiro”, assim indicando que Maria seria esposa de Jesus [2]. Creio que quem advoga tal interpretação tenha reprovado em Grego 1 (ou talvez nunca tenha estudado Grego), visto que tal lógica te levaria a dizer que Paulo era casado com Tito (c.f. 2 Co. 8:23) e que Paulo queria que Filemon o considerasse como seu esposo também (Fil. 1:17). Já que estamos avacalhando com a língua Grega, então que também afirmemos que Tiago e João eram ambos casados com Simão (Lc. 5:10).

Bem, visto que tal interpretação chega a me dar arrepios na coluna, vamos para a próxima. Em 63:33-36, temos outra afirmação complicada:

“O S[alvador am]ou [Ma]ria Mag[da]lena mais do que [todos] os outros discípulos, e a beijava [na boca] frequentemente.”

O texto se encontra em parênteses porque o manuscrito original está danificado. O que transcrevi foi a interpretação mais comum do texto. Porém se não tivermos o texto interpretado, o máximo que temos é isso:

“E a companheira de […], Maria Magdalena. […] ela mais que […] discípulos […] beijou ela […] na […].”

É debatido se podemos ou utilizar “beijava na boca” como uma inserção possível. Karen L. King, professora de história da igreja em Harvard, afirma que dado Felipe 58:34-59:4, devemos sim dizer que os beijos eram na boca [3]. Darrel L. Bock, PhD pela Scotland’s University of Aberdeen, faz questão de destruir o argumento dela:

“Se o beijo de Felipe 63 é similar ao beijo de Felipe 58-59, então a referência mais provável é de um beijo de comunhão. Se este for o caso, então o beijo é na bochecha, e não na boca. King sugere (e corretamente, eu diria) que a imagem é sobre Maria sendo associada com Sabedoria e que esta conexão espiritual é o plano de fundo da referência (p. 145)” [4].

Se o texto tem este sentido espiritual, então precisamos de algo mais forte que do que as palavras de Karen para defender um sentido sexual. O leitor deve manter em mente que a interpretação é completamente subjetiva, visto que só temos parte do texto. Na passagem, não sabemos nem aonde foi o beijo, nem quem beijava Maria. Se isso for uma “forte evidência” a respeito do casamento de Jesus, eu não sei é uma evidência ruim então. Através destes textos vemos que pode ter existido um favoritismo de Maria em relação aos outros discípulos, mas apenas em inferência a gnosis. A crença Gnóstica mostra o casamento (e tudo, na verdade) em segundo plano quando comparado com o espiritual. Se Maria e Jesus compartilharam algo, este algo foi gnosis, e nada mais.

Maria, Esposa de Jesus

A primeira pessoa a sugerir que Maria Magdalena era prostituta foi o papa Gregório em sua homilia em 591DC, então espero que você vá tirando essa idéia da sua cabeça desde já. O que sabemos sobre ela é que ela era possuída por sete demônios (Lc. 8:2), e após isso temos apenas fábulas. Gregório é quem identifica Maria com o texto de Lucas 36:50 por alguns motivos: A história da mulher sem nome de Lucas 7 precede quando Maria é introduzida na narrativa no capítulo 8, e a cidade de Maria, Magdala, tinha uma péssima reputação quando se tratava de imoralidade sexual [5]. O segundo motivo mais me parece a falácia de culpa por associação do que uma análise histórico-geográfica. Vale a pena notar que, por mais que o Ocidente tenha adotado tal interpretação, o Oriente ainda não aceitou essa análise. Lembre-se que teologia ortodoxa ocorre em conversação com os pais da igreja do Oriente e do Ocidente. Vale a pena notar que a ICR, em 1969, decidiu parar de usar o texto de Lucas 7 no festival de Maria Madalena, pondo em cheque a interpretação do papa Gregório.

Os textos do Evangelho de Maria não valem meu tempo, ao que me parece. Todos os textos que analisei do papiro Berolinensis 8520 (textos como 17.7-22 e 1-21), não contém algo que me faça perder o sono. Os textos basicamente mostram a mulher como um ser inferior (assim como o Evangelho de Tomas), e este ensino já havia sido corrigido por Irineus (130-200), Hipólito (170-236), e Tertuliano (160-220), muito antes da data que temos do Evangelho de Maria (5º século).

Nos manuscritos do Novo Testamento, vemos Maria com Jesus em 5 ocasiões (Lucas 8:2; Marcos 14:40-41; Marcos 15:47; João 20:10-18; e Lucas 24:10). Em apenas uma dela, João 20:18, ela estava sozinha (observe o texto e você verá que isso não nos preocupa muito). Seguindo os conselhos de Billy Graham e minha mãe, sempre que Jesus estava com ela ele estava em público com mais pessoas. Se você for um bom observador, você vai perceber que todas as vezes que Maria é mencionada com outras mulheres, as outras mulheres sempre tem um homem consigo, enquanto Maria não tinha. Caso você não tenha entendido, isso sugere que Maria não tinha homem nenhum, muito menos Jesus. Sim, Gênesis 1:26-28 era via de regra para homens Judeus. Porém Samuel, Oséias (antes de Gomer), e Essenes (provável autor dos manuscritos do Mar Morto), e João Batista eram solteiros. Todos eles viveram 1 Coríntios 7 na carne. Lembremo-nos também que quem disse Mateus 19:10-12 foi Jesus, nos mostrando que (possívelmente) esta era sua justificativa para não casar.

Concluíndo

Na cruz, no momento em que vemos a família e amigos de Jesus reunídos, não temos menção de nenhuma esposa. Na celebração do Pessach Maria Magdalena não estava presente com a mãe de Jesus. Enfim, como toda teoria de conspiração, a história de que Jesus foi casado com a prostituta de Magdala é vazia e fraca. Não nego que o assunto é complexo e que deva ser analisado mais profundamente. O que nego é que eu serei a pessoa a fazer tal análise. Meu foco é filosofia analítica, não historicidade de personagens do Novo Testamento. No entanto, achei necessário esclarecer alguns pontos. Espero ter ajudado.


[1] Bart Ehrman, Lost Christianities (New York, N.Y.: Oxford University Press, 2003), xi-xii.

[2] Vale a pena notar que o texto é primeiramente Cóptico (Grego e Egípcio), e a palavra analisada é inteiramente Grega. É o que chamamos de “loan word”.

[3] Karen L. King, The Gospel of Mary of Magdala (California, Santa Rosa: Polebridge Press, 2003), 204.

[4] Darrell L. Bock, Breaking the Da Vinci Code (Nashville, Tennessee: Thomas Nelson Inc., 2004), 23.

[5] Deixo claro aqui que tal afirmação não coloca em cheque a doutrina católica da infalibilidade papal, visto que Gregório afirmou tal coisa em uma igreja em Roma, não em um ensino autoritativo papal. “Seu foco principal não era de fazer uma análise histórico-acadêmica sobre a identidade de Maria Magdalena, mas de espiritualmente e alegoricamente interpretar a mulher sem nome de Lucas 7 e Lucas 8 para inspirar cristãos a seguirem um exemplo de arrependimento, amor, devoção, e virtude” (c.f. Mark Shea, The DaVinci Deception (West Chester, PA.: Ascension Press, 2006), 90).

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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