Lendo Paulo Como um Acadêmico (#LPCA01)

Kurt Willems, gerenciador do PaulCast e fundador do TheologyCurator, escreveu uma série de textos sobre como ler Paulo de forma mais acadêmica. Eu achei interessante as introduções e resolvi tornar os textos disponíveis aqui no Pensamento Crítico. Vão ser sete textos que vão te ajudar a pensar sobre Paulo de maneira mais profunda e técnica. Nesta semana, vamos começar com uma introdução ao curso e a Paulo.


Paulo: Tem Perspectiva Demais Nisso!

Talvez você tenha ouvido que tem por aí uma “Nova Perspectiva em Paulo”. E se você não ouviu, não se preocupe: você vai entender ela daqui a pouco.

Assim que alguém começa a dizer que existe uma nova perspectiva, devemos nos perguntar: qual é a “antiga perspectiva?”

Bem, isso se torna ainda mais interessante porque ambas a nova e a antiga (e as outras perspectivas acadêmicas para entender Paulo) perspectiva dizem ser a “original” a respeito de Paulo. Já está confuso? Espero que sim.

Então a Perspectiva Antiga diz que ela é a mais antiga de todas.

A Nova Perspectiva diz que ela é nova somente no sentido de redescobrir um Paulo mais antigo que a Antiga Perspectiva.

Pra ficar ainda mais complicado: existe uma Nova Perspectiva Radical (também conhecida como “Paulo no Judaísmo”) que afirma que a perspectiva antiga é a pior de todas, e que a nova ainda não entendeu tudo.

Em outras palavras: a Nova Perspectiva Radical é radical somente no sentido em que ela radicalmente descobriu quem originalmente foi Paulo.

Então cada perspectiva (e sim, existem muitas outras por aí, mas estas são as mais fundamentais) diz que eles entenderam Paulo no seu contexto original.

Qual Paulo? Qual Perspectiva?

No que se refere a este curso introdutório, eu queo fazer um sumário das principais idéias e perspectivas dos que advogam estas posições.

Boa parte desta conversa se concentra em como Paulo relacionava e entendia sua identidade como Judeu após seu encontro com Jesus na estrada para Damascus.

É importante notar que nenhuma escola de pensamento (Católica, Ortodoxa, Luterana, Reformada, Apocalíptica, Nova Perspectiva, ou Paulo no Judaísmo) afirma que Paulo perdeu sua identidade étnica.

Claramente isso seria ridículo. Paulo até lista suas credenciais Judaicas em várias ocasiões (Gálatas 1, Filipenses 3, etc).

Obviamente alguém já deve ter criado algum tipo de teoria da cospiração neste sentido, mas nenhum acadêmico responsável jamais fez esta afirmação.

Como a etnia era definida no mundo antigo pode ser debatido, mas o que nós queremos dizer com isso é que Paulo permaneceu Judeu. Pelo menos isso.

No entanto, dependendo da sua escola de pensamento, sua prática e auto-identificação com a aplicação da vida Judaica se tornou diferente.

O Paulo “Tradicional”

Para o Paulo Tradicional (pense em Católicos e Reformados e como eles vêem Paulo. Sim, existem algumas diferenças mas nós não vamos entrar nesse assunto), Paulo experimentou uma “conversão” na estrada para Damascus. Portanto, quando Paulo começou a seguir a Cristo, ele pregava que a Lei não era mais importante como um meio para a justificação (righteousness).

Cristo é a perfeita justificação, e ele é imputado no status de cada cristão. Em outras palavras, nessa visão (em um sentido bem amplo), a Lei trata de salvação por “méritos”, mas a graça garante a salvação nos méritos de Jesus Cristo e sua justiça imputada. Portanto, o Cristianismo (salvação pela graça) substituiu o Judaísmo (salvação por obras).

Essa visão coloca a Lei contra a graça.

A Nova Perspectiva em Paulo

Para a NPP, que inclui acadêmicos como E. P. Sanders, N. T. Wright, e James D. G. Dunn, as práticas judaicas tais como a circuncisão e as dietas restritivas da lei nunca foram instituídas com o sentido de “merecer” a salvação.

Infelizmente, existe muita falta de compreensão das crenças do Judaismo e dos propósitos das práticas do Segundo Templo.

O Judaísmo antigo era uma religião de graça, nas quais as leis funcionavam como maneiras e de pertencer e permanecer nessa aliança (comunidade) como meios de confiança-não de “mérito próprio”.

A razão pela qual Paulo pregava contra a circuncisão era porque em Cristo, os limites que demarcavam a membresia desta nação específica (símbolos de membresia) haviam sido relativisados pelo bem da unidade entre Judeus e Gentios.

Logo, Judeus que seguiam Jesus tinham uma maior flexibilidade com a Torah (em continuação com o Judaismo) para tornar possível que gentios se unissem a eles sob Cristo.

Em outras palavras, ser um membro da família da aliança de Deus através da Lei sempre foi entendido como “graça” para os Judeus. Mas com a vinda do fiel Messias, todos os limites que demarcavam esta nação foram relativizados para abrir as portas para a graciosa entrada dos gentios. Logo, o Cristianismo é a continuação do Judaismo.

Nova Perspectiva “Radical” (Paulo no Judaísmo)

Uma terceira opção que está se mostrando bem representada é o que chamamos de Paulo no Judaísmo ou a NPR. Acadêmicos de peso que tem formado esta escola de pensamento incluem Lloyd Gaston, John Gager, Stanley Stowers, Neil Elliott, Mark Nanos e Pamela Eisenbaum.

Todos estes concordam que a Torah (Lei) foi um presente da graça de Deus. Eles também rejeitam que Paulo tinha a idéia de “justificação/salvação por méritos” quando falava do Judaísmo.

Essa visão é guiada pela expectativa escatológica de Paulo de que as nações estarão todas juntas ao Deus de Israel, distintamente como “as nações” (portanto, conversão para o Judaísmo é um grande problema para Paulo, etc)>

As cartas de Paulo são vistas como quase exclusivamente escritas com uma audiência gentílica em mente. Logo, toda a retórica negativa sobre a Lei é direcionada só aos gentios.

Isso é o que difere a NPR da NPP, que relativiza a Torah ao ponto de que parece que os Judeus não precisam mais guardar tanto assim da Lei.

No entanto, NPR nota que as aplicações positivas da Torah são tipicamente direcionada aos seguidores de Jesus que eram Judeus, como Paulo.

Então, pra fechar: Paulo afirmava os benefícios da Lei, e toda sua retórica negativa sobre as práticas Judaicas eram direcionadas a uma audiência gentia. Portanto, seguidores de Jesus que não fossem Judeus cumpriam as expectativas escatológicas de que as nações viriam adorar o Deus de Israel como um povo distinto (por exemplo, sem a necessidade da circuncisão, etc).

Qual É A Sua Perspectiva?

Eu entendo. Todos nós entramos na conversa com um monte de premissas escondidas. Também entendo que muitos de nós estão em níveis diferentes de estudo bíblico e teológico.

Se tudo isso é informação completamente nova: BOM! Espero que você aprenda mais com os próximos posts.

Se isso é apenas uma revisão do que você já sabe: BOM! Espero que você consiga achar maneiras de relembrar estas perspectivas e aplicar o que aprendeu em sua leitura do Novo Testamento.

No próximo artigo vamos explorar o mundo do Judaísmo a partir da perspectiva de Paulo. Se não entendermos isso, iremos errar em muito ao tentar entender, nas cartas de Paulo, o significado de Jesus de Nazaré estar disponível tanto para o Judeu quanto ao gentio.


Fonte: TheologyCurator.com

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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