Lutero, Vontade Não Revelada, e Nominalismo

williamofockhamtPretendo ser breve devido a quantidade de dissertações pendentes na minha agenda. Neste texto, quase um post de blog, desejo apenas aguçar seu pensamento para uma possível correlação entre a doutrina das vontades de Deus de Lutero e o Nominalismo de Ockham.

O Secular Como Criação Humana

Cristãos, em grande parte, são conhecidos por guerrearem contra a cultura (mesmo que nunca definam cultura) e até mesmo se escondem de tal (alergia, talvez?). Ken Myers, host do Mars Hill Audio Journal, aponta que o “secular”, como uma esfera pública, é uma criação, muito bem sucedida por sinal, da modernidade [1]. A liberdade pública, desejada por todos, parece não ter limites. E cristãos não são os primeiros a argumentarem que liberdade sem limites é escravidão. Aristóteles, no livro I de Política, argumenta que tudo que não tem limite gera escravidão [2]. Se Jesus Cristo é o Senhor de tudo que há, como Hebreus 2:8 afirma, então não existe um só lugar nesta terra aonde Cristo não reine. Seja no Iraque ou no Congresso Nacional, Cristo reina! Lembremo-nos, então, que a ordem para não comer do fruto incluía a liberdade de comer todos os outros frutos do Éden (Genesis 2:16), tendo em mente que, a promessa de deificação da Serpente resultou na perda da liberdade (capítulo 3). Todos, então, devem ter em mente que, ao desejarmos ser como os deuses, ao querer delimitar como o mundo funciona e descrever aspectos ontológicos com funcionalidade instrumental, perdemos nossa liberdade pelo desejo da liberdade. O Platonismo no evangelicalismo brasileiro tem muita culpa nisso, mas isso serve a um próximo texto. Cabe aqui afirmar que ao negarmos que a esfera física é boa, só nos resta rejeitar o material em busca do transcendente. Mas tendo em vista que a realidade está direcionalmente afetada pela queda, buscamos o transcendente dentro de nós mesmos.

Nominalismo

Lutero afirmou que Deus tem duas vontades, ou seja, dois modos de relacionar-se com a realidade: Deus revelatusDeus absconditus. Como descreve Keathley, “a vontade revelada de Deus, ou seja, Jesus Cristo, proclama as boas novas de que Deus é por nós. A vontade escondida de Deus, com sua soberania e vontade secreta a respeito da eleição e da reprovação, permanece terrívelmente inacessível” [3]. Por hora prometo não me delongar nos problemas teológicos da posição de Lutero, mas apenas propor um link de possível contribuição para o crescimento do Nominalismo na sociedade moderna. Lembremo-nos que anteriormente chegamos a conclusão de que homens desejam ser Deus quando desejam delimitar seus próprios limites e ir além da liberdade.

Richard Weaver, em seu livro Ideas have Consequences, argumenta que o Nominalismo funcionou como uma porta de entrada para a negação do transcendente. Eu, ao contrário de grandes nomes como William Lane Craig e Peter Van Inwagen, sou realista no quesito de abstracta. Afirmo a existência de uma realidade, como que uma das “formas” do Céu Platônico, além do material. Não afirmo que o material é ruim, mas apenas que a última natureza das coisas não reside nas coisas. Ockham é conhecido por ser um dos pontos de nascimento do nominalismo. A Navalha de Occam chega a conclusão que a multiplicação de entidades além de sua necessidade é desnecessária. O que fica difícil de definir é a sua necessidade e até onde ela se estende.

Ockham e Lutero

O que Lutero e Ockham tem em comum? Lutero e Ockham buscavam exaltar a soberania de Deus. Ockham e Lutero buscavam afirmar que Deus era completamente livre, o que deu nascimento ao volunterísmo de Ockham. Deus não está sujeito a nada exterior, e, por incrível que pareça, também não está sujeito, como conceito de necessidade, a sua própria natureza [4]. Na soma, Ockham negou objetos abstratos e universais e até mesmo o conceptualismo divino de Plotinus. O Nominalismo chega tentando responder o Euthyphro dilemma [5], e mais parece fugir dele do que enfrentá-lo. Na minha humilde opinião, nem Astere, nem metalinguística, nem tropes, e nem semelhança respondem a questão levantada por Tales [6].

Lutero, foi sim influenciado por Ockham. Mas me parece que Lutero usa propriedades realistas para se referir a vontade escondida de Deus. No entanto, este não é o propósito desta reflexão. Vamos direto ao ponto: se a vontade revelada de Deus é, por vezes, “subjulgada” pela vontade escondida de Deus, como podemos saber algo sobre ela? Se não podemos conhecê-la, como delinear fundamentos teológicos de tal vontade? Visto que a vontade escondida por vezes triunfa sobre a vontade revelada, ou seja, a Palavra de Deus, que culpa tem os Neo-Pentecostais de utilizarem-se do Quam Scriptura para afirmarem idéias contrárias ao revelatus de Deus? E vou além, como pode a cultura de hoje ser culpada por rejeitar a autoridade das Escrituras se Lutero e Ockham estavam certos?

Portanto, Nominalismo

Explico, se a vontade escondida de Deus pode, por vezes, ser anular a vontade revelada de Deus, como podemos saber a vontade de Deus? Cristo agora não é a perfeita reflexão do Pai, mas o desconhecido, pois nem sempre Cristo revela a vontade do Pai [7]. Se o que é revelado nem sempre é o que é fundamental ou último, o que será o último? Se nem sempre o que nos foi revelado é o que explica a realidade, como podemos confiar na Palavra para questões éticas? Se no nominalismo proposto por Ockham não temos uma realidade transcedental, e no sistema das vontades de Deus de Lutero a autoridade final é a vontade escondida, ou seja, a transcedental, como podemos pedir que a esfera pública confie na vontade revelada para guiar nossa sociedade?

Nisso concluo que, se ambos o nominalismo e o sistema de Lutero estão corretos, então o cristianismo não merece ouvidos na praça pública. Onde Cristo não reina, Cristo não merece ouvidos. Visto que Cristo, então, não reina no “secular”, Cristo não reina. Ou Ele é rei de tudo, ou não é rei de nada. Se não podemos acessar a vontade de Deus que, por vezes, triunfa sobre a vontade revelada, não podemos discutir questões morais ou políticas. Cristo não reina fora do templo, e “toda autoridade” (Mateus 28) não foi dada ao Filho, mas permanece com o Pai, visto que o Filho nem sempre revela quem o Pai é com perfeição.

Observações:

Veja que este texto é de caráter especulativo e propõe uma reflexão, não a pregação de tal idéia como doutrina inerrante. Apenas proponho que pensemos sobre o mal do nominalismo e como Lutero pode ter influenciado a esfera pública com suas idéias a respeito da vontade de Deus.

Literatura Recomendada:

 

 


[1] Ken Myers apresentou sua posição (Metaphysical Eschatological Trinitarianism) em uma palestra no Center for Theology of Faith and Culture na Southeastern Baptist Theological Seminary em Outubro de 2016.

[2] Aristóteles vai até mais longe, afirmando que até mesmo riqueza, quando não possui delimitações, é prejudicial. Limites, para Aristóteles, fazem parte da natureza humana. Cristãos que lêem Gênesis 1-2 devem reconhecer que limites foram instituidos por Deus como uma coisa boa (árvore do conhecimento do bem e do mal e a ordem de obediência, por exemplo).

[3] Kenneth Keathley, Salvation and Sovereignty: A Molinist Approach (Nashville, Tennessee: B&H Academics, 2010), capítulo 2, sob “Option Three: The Hidden/Revealed Wills Paradigm.”

[4] Sou obrigado a apontar que Lutero, em The Bondage of the Will, parece chegar a conclusões diferentes: de que Deus age necessariamente.

[5] “O que é piedoso é piedoso por que os deuses o amam, ou os deuses amam a piedade porque a piedade é piedosa?” [Conforme o Penguim Dictionary of Philosophy].

[6] Sendo: O que é real?

[7] Karl Barth chegou a mesma conclusão em Church Dogmatics II/2, 105.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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