Muros Sobre o Mesmo Chão

Untitled designRecentemente vi um vídeo cômico e trágico. Nele uma moça tentava salvar um rapaz prestes a cometer suicídio. Quando ela disse ser batista,  e ele também, eles começam a conversar animadamente. Quando viram que que suas denominações e seus desdobramentos eram iguais, mais ainda. Até que em um momento eles divergem, e a moça acaba por empurrá-lo da ponte. O que me chamou a atenção nesse vídeo exagerado é que o interesse inicial dela era apenas a vida dele, mas, a divergência de opinião acabou fazendo-a ignorar esse valor ao fim. Com isso, fiquei pensando no infinito de desdobramentos políticos, sociais, religiosos, e culturais que nosso país tem. Neste momento complicado que vivemos, por conta de tanta pluralidade, são comuns as divergências de  opinião. Infelizmente, nossa tendência, como a moça do vídeo, parece ser evidenciar as diferenças, e não o que temos de parecido. No entanto, é importante pensar que a soma de todas as nossas divergências é menor do que um único fato. O fato de que mais do que brancos, negros, do sul, do norte, protestantes, ateus, e diversas outras distinções que eu poderia elencar, nós somos, antes de tudo, humanos, e vivemos, como cantou Marcos Almeida, sobre o mesmo chão.

Neste aspecto, eu achei os muros de Brasília bastante icônicos. Embora seja uma situação bem séria, concordo, eles representam nossa tendência de nos apartar daqueles que pensam diferente. Não estou negando aqui a nossa necessidade de ter categorias. Elas são relevantes até para que se compreenda melhor o que se crê e o que se concorda. E para defender pontos de vista. No entanto, como na divisão das células de nosso corpo, nossas divergências deveriam trazer-nos crescimento, de pensamento, de ideias, etc. Mas, ao invés disso, elas nos separam. Fazem-nos esquecer de que o outro, mesmo com opiniões diferentes, é ainda tão homem ou mulher quanto eu.

“somos, antes de tudo, humanos”

Essa desumanização acaba se tornado uma pretexto para agressão, desrespeito, desvalorização. Afinal, se  eu não vejo o outro como um igual, com os mesmos direitos, eu posso agir com ele de uma maneira que eu não aceito que outros ajam comigo. Nossas divisões nos fazem pequenos, mesquinhos.  No âmbito da política, nossa incapacidade de olhar aquele que pensa diferente como um igual, é tanta, que o temor em relação aos possíveis confrontos transformou os muros de nossas opiniões em algo físico.

John Donne em seu poema “No man is an island” descreve a necessidade de vermos a humanidade como um todo. Assim, a despeito de nosso individualismo moderno, segundo ele, somos parte do “gênero humano”. Donne, em um de seus mais belos versos, disse que: “a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte do gênero humano”. E esse é um cálculo muito simples de se compreender.  Se somarmos o que nos une perceberemos que, independentemente das circunstâncias, é maior do que o que aquilo que nos separa.

Acredito ser interessante falar de cristianismo neste contexto, já que 86% da população brasileira se declara cristã. As diferenças eclesiásticas, de dogmas e doutrinas, e ritualísticas, do cristianismo brasileiro, são incontáveis. Mas, se olhamos para a raíz do culto ao Cristo, podemos ver um Deus, que, em amor, através da vida e morte sacrificial do seu filho, une aqueles que por seus pecados estão separados, fazendo-os também seus filhos. Irmãos e irmãs. Sendo assim, ao caminhar em direção ao todo poderoso, sempre iremos nos aproximar uns dos outros. Jamais nos afastar. Afinal, sob a perspectiva da cruz e da eternidade, nossas diferenças não passam de uma neblina passageira.

“Se somarmos o que nos une, perceberemos que, independentemente das circunstâncias, é maior do que o que aquilo que nos separa.”

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Mayara Lima é professora de inglês graduada em Letras Estrangeiras Modernas pela Universidade Estadual de Londrina e pós-graduanda em religiões e religiosidades pela mesma Universidade. Como estudante, tem interesse em estudos da linguagem focados na tradução de textos religiosos e em análise do discurso. Pessoalmente, gosta de literatura, especialmente poesia, e também teologia. Mora em Apucarana, no Paraná, e congrega e serve na Comunidade Nova Aliança nesta cidade.

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