O Judaísmo de Paulo: Nomismo Aliancista (#LPCA02)

Deixe-me introduzir um termo para você: Nomismo Aliancista.

  • Aliança: O relacionamento especial entre Deus e Seu povo, e entre o povo de Deus para com os outros.
  • Nomismo: Uma maneira mais sofisticada de falar sobre a “Lei”. Baseado na palavra Grega “nomos”.

O Que é Nomismo Aliancista?

E. P. Sanders, em seu Paul and Palestinian Judaism: A Comparison of Patters of Religion, transformou a maneira como discutimos sobre Paulo. O Judaísmo de Paulo era radicalmente diferente das definições do mesmo. Este não era uma religião que buscava justificação por obras.

Lembre-se do nosso último texto, a visão “tradicional” sobre Paulo é que ele rejeitou os mandamentos da Torah porque eles são “legalistas”. Aquele Paulo via a Lei como uma maneira inadequade de ganhar o favor de Deus, portanto ele precisava ser rejeitado em favor da graça.

Mas se Sanders, e os acadêmicos que tem seguido suas idéias, está correto, o Judaísmo não tinha muito a ver com alguém tentando ganhar sua posição no céu após a morte. Ele tinha, porém, tudo a ver com a afirmação daquilo que era verdade desde seu nascimento: como um Judau, você pertence a família de Deus pela graça e pela graça somente.

Sim, isso é anterior a vinda de Jesus. Não, isso não destrói a importância de Jesus. Isso redireciona Jesus em uma maneira que o torna reconhecível a Paulo.

A NPP: A Lei é Graciosa

Ok, vamos para o lado técnico da coisa por um momento. Vamos falar sobre o que é conhecido como a Nova Perspectiva sobre Paulo. Você vai perceber que essa “nova” perspectiva sobre o antigo Judaismo é, na verdade, mais antiga que a visão tradicional que temos. Sanders nota que existe um padrão claro de adoração no Judaísmo.

Ele foca em como eles teriam experimentado estas práticas através da leitura de todos os maiores documentos dentro e fora da Bíblia (as Escrituras Hebraicas que conhecemos hoje e vários outros documentos Judaicos que eram aceitáveis religiosamente e estavam em circulação no tempo de Jesus).

Seu objetivo era tentar entender como a entrada na aliança e sua permanência eram entendidos [1] durante o primeiro século pelos Judeus que observavam a Torah.

Após “polir” cada texto relevante da Bíblia, Judaísmo do Segundo Templo, e Rabbis antigos, ele chegou a uma conclusão que chamamos de Nomismo Aliancista.

Aliança é a palavra que usamos para o relacionamento dinâmico entre Deus e seu povo, e como o povo se relaciona com outros em luz desta conexão. Nomismo se baseia no Grego “nomos”. Coloque ambos juntos e você tem Nomismo Aliancista, que significa:

De forma simples, Nomismo Aliancista é a visão de que seu espaço no plano de Deus é estabelecido com base na aliança, e esta aliança requer uma resposta apropriada como a obediência aos mandamentos, enquanto provê meios de expiação por trasngressões [2].

As idéis as dominantes flutuando o ar das discussões no assunto sempre apresentaram o Judaísmo como uma religião que buscava justificação pelas obras. Sanders propôs que o Judaísmo era uma religião de graça. Pense nisso. Um Judeu já nascia sendo parte da aliança e do povo de Deus.

A entrada na comunidade (tanto nesta vida quanto na próxima) nunca foi algo que tinha de ser conquistado. No oitavo dia os garotos eram circumcidados como um símbolo da graça de Deus. As garotas já estavam incluídas mesmo sem a cerimônia.

Estar “Dentro” é Graça, Segurança de “Bom Comportamento” é o Propósito

Estar “dentro” é graça. Ninguém conquistou nada. Entretanto, ter a confiança de que você estava “bem” em luz desta graça era o último propósito das várias regras da Lei.

Segurança é encontrada nas regras, mesmo em suas falhas. Elas não são meios de entrada.

De acordo com Sanders, os Judeus do tempo de Jesus e Paulo entendiam as várias leis como meios de “restauração de um relacionamento pré-existente, e este relacionamento é chamado aliança” [3].

Ninguém conquistava seu lugar na comunidade, mas os que observavam a Torah tinham meios de expiar seu comportamento errôneo. Como Sander coloca, “notamos que o  local de um indivíduo no plano de Deus era conquistado por sua membresia no grupo. Portanto, não encontramos nenhuma busca por salvação na literatura Rabínica. A questão era se você era ou não era um Israelita com bom comportamento” [4].

O propósito da Lei não era ganhar sua salvação para o Céu com um bom Judeu. A Torah ajudava os Judeus a saber se eles estavam agindo de forma aceitável perante a graça de Deus. Ela não servia como um método de “merecer” a salvação através de práticas ritualísticas.

Portanto, Paulo pode dizer “ninguém é justificado por Deus pelas obras da Lei” (Gálatas 3.11) porque nem mesmo os Judeus eram justificados por seguirem a Lei.

Eles eram justificados (declarados “justos” e portanto “parte” da comunidade) pela fidelida da aliança de Deus, pela graça de Deus para com eles, que era vivida através dos padrões prescritos na Torah. Isso não é legalismo. Não é justificação por obras. Isso é graça. Sola Graça. Nada mais. Nada menos.

Em breve

No próximo artigo iremos focar neste assunto com mais tenacidade. Por hora, pense sobre este conceito

  • Como o Nomismo Aliancista muda sua maneira de entender a mensagem do Apóstolo Paulo?
  • Mesmo que você descorde, como esta visão te convida a dialogar com cristãos e não cristãos que entendem Paulo de forma diferente de você?

No próximo texto iremos buscar entender se Paulo permaneceu “Judeu” ou se ele abandonou sua identidade porque ele agora era um “Cristão”.


[1] E. P. Sanders, Paul and Palestinian Judaism: A Comparison of the Patters of Religion (Philadelphia: Fortress Press, 1977), 18. Mais tarde iremos comparar textos relevantes, que incluem Gálatas 1.15-16, Jeremias 1.5, e Isaías 49.1-6.

[2] Ibid., 75.

[3] Ibid., 236.

[4] Ibid., 237.

Fonte: TheologyCurator.com

The following two tabs change content below.
Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

Latest posts by Natan de Carvalho (see all)

Tags: , , , , ,

%d blogueiros gostam disto: