Presciência Acarreta Necessidade?

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Se Deus sabe que você vai comer sucrilhos amanhã de manhã (chamemos isso de C), será que você tem a opção de não comer sucrilhos amanhã de manhã? Se você tem, parece que o conhecimento de Deus pode falhar. Se você não tem, você não tem livre-arbítrio. Como resolvemos essa questão tão complicada? Primeiramente gostaria de dizer que este texto vai ser meio técnico, então não sinta-se contrangido em ter de ler o mesmo texto várias vezes. Sem mais delongas, vamos lá!

Vamos elaborar o argumento como Clark H. Pinnock o fez:

  1. Necessariamente, se Deus conhece algum futuro contingente C, então C vai acontecer.
  2. Deus sabe C de antemão.
  3. Portanto, C vai necessariamente acontecer, o que contradiz a contingência de C [1].

Esse argumento parece estar dizendo que se Deus sabe que algo vai acontecer, então isso vai acontecer, o que prova que este algo não é livre. Bem, se você pensou isso você precisa ler alguns livros sobre linguagem modal, porque o argumento não diz apenas isso. Kirk R. MacGregor explica que este “argumento comete a óbvia falácia em lógica modal de distribuir o operador necessário que governa a afirmação condicional para o apodosis sem distribuí-lo para o protasis” [2]. O que vemos é simples, não é coerente mover o modo necessário de (1) que se relaciona ao conhecimento de Deus para o autor da ação em (3). A única coisa que podemos saber é que C vai acontecer, não que C vai necessariamente acontecer. C poderia não acontecer, e caso não acontecesse, Deus saberia A ou B. A certeza de C é uma propriedade da criatura, que não carrega nenhuma relação com a suposta necessidade da preposição; a necessidade é dizer que tal preposição não poderia ser falsa em nenhum mundo possível. Se tal preposição não possa ser falsa, então o próprio livre arbítrio de Deus é sabotado. Deus conhece todo o futuro com certeza, mas seu conhecimento não é necessário.

William Hasker, em God, Time, and Knowledge (1989, páginas 73-74), afirma que alguns teístas abertos mudam a premissa 2 para 2*. 2* seria: “Necessariamente, Deus sabe C de antemão”. Mas isso também é inconsistente. É incoerente porque rouba de Deus sua própria liberdade. Deus poderia saber D de antemão. Se “soberania” é aquilo que você quer levantar e não rebaixar, negue 2*. Se Deus tivesse criado um mundo em que A viesse a ser ao invés de C, Deus saberia C. Logo, o conhecimento de Deus é contingente. Obviamente, Deus sabe o valor de todas as preposições, sua omnisciência é necessária. Mas, visto que o mundo atual é apenas atual e factível dentro de outros mundos possíveis, o conhecimento de Deus do que viria a ser é contingente em sua soberana escolha de atualizar mundo P ou Q. O conhecimento de Deus é lógicamente anterior a existência do tempo, mas o conhecer contrafactuais e “se…então” preposições não as torna necessárias. O conhecimento do verdadeiro valor dos contrafactuais de preposições contingentes não pode torná-las necessárias, nem mesmo após o conhecimento livre de Deus, pois logicamente anterior à seu conhecimento livre temos seu conhecimento médio e natural, que dispõe o valor de todos os contrafactuais no ser de Deus.

In summa, se Deus sabe C, então C vai acontecer. Deus não sabe C necessáriamente, então C não é necessário. Se C não vier a ser instanciado, Deus, logicamente anterior a criação, saberia outro que não C; se C vier a ser instanciado, então Deus, logicamente anterior a criação, sabia C. É completamente verdade que se Deus sabe C, então C é verdade, mas não é verdade que se Deus sabe C, que C é necessariamente verdade. Mais fácil que isso? Eu sei que “meu amigo Kochela é solteiro”, então segue-se que “meu amigo Kochela é solteiro” é uma verdade necessária. Não segue, por outro lado, que se “meu amigo Kochela é solteiro” que Kochela é necessáriamente solteiro. A necessidade se refere a preposição, não ao ser [3]! A única coisa que segue-se desta premissa é que a preposição “meu amigo Kochela é casado e tem três filhos” é falsa, não que esta preposição é necessariamente falsa. Como disse Aristóteles, “o que é, necessariamente é, quando o é… mas nem tudo que é, necessariamente é” [4].

O que podemos ver é que dizer que porque Deus sabe C, C tem de acontecer, é apenas uma confusão filosófica. C só é necessário se C ocorre em todos os mundos possíveis, o que é incoerente. Faça um favor a si mesmo e leia as páginas 67-73 de God, Freedom, and Evil, de Alvin Plantiga (1974, Logos Edition). O argumento de Pike e a resposta de Platinga podem te ajudar e com certeza vão!

Neste breve texto espero ter respondido a questão, caso tenha alguma dúvida envie para inboxpensamentocritico@gmail.com


[1] Clark H. Pinnock, “God Limits His Knowledge”, em Predestination and Free Will: Four Views of Divine Sovereignty and Human Freedom (1986), 150.

[2] Kirk R. MacGregor, A Molinist-Anabaptist Systematic Theology (2007), 88.

[3] “Necessidade é uma propriedade de declarações ou preposições, indicando que não é possível que determinada preposição seja falsa. Nós podemos estar certos de sobre coisas que acabam sendo falsas. Em contraste, nós podemos estar incertos a respeito de preposições, tais como compléxicos teoremas matemáricos, que, mais tarde, acabamos por descobrir que tais eram necessariamente verdadeiros. Certeza é uma propriedade de pessoas. Necessidade é uma propriedade de afirmações ou preposições.” Kenneth Keathley, Salvation and Sovereignty: A Molinist Approach (2010), capítulo 1, nota de rodapé 12.

[4] Aristóteles, De Interpretatione, 19a 23ff.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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