A Primazia Contextual No Evangelismo

man-343674_1920

E se eu chegasse para você e falasse que o modelo carece de atualização, ou lhe contasse que de fato a potencialidade do futuro não implica na exclusão necessária da teoria do tempo B? Você ficaria perdido, correto? Isso porque você não faz a minima idéia do que eu estou falando, e também porque possivelmente (ok, vou admitir, provavelmente) você nem se interesse sobre as disciplinas que englobam minhas afirmações anteriores. Como você pode ver, contexto é tudo. De nada adianta eu te falar sobre as teorias do tempo se você tem se perguntado sobre a depressão do seu cunhado. Sua dúvida, seu problema, sua luta pode não ter nada a ver com o que tenho a te dizer.

Com o evangelismo o problema não é excluído. Muitos, por não compreenderem a verdade da soberania de Deus sobre a salvação, acabam por rejeitar qualquer esforço para tornar a Palavra de Deus compreensível ao leigo. São os vadios espirituais, que desprezam a labuta de descrever a conjuctura do evangelho de maneira acessível. Estes, utilizam-se de jargões como: “você só precisa ‘pregar’ (sem fazerem a mínima idéia de que isso envolve a contextualização), o resto é com Deus”, ou até “a Palavra é suficiente” (significando que o que vale não é o método apresentado, mas sim, repetir as palavras deste livro tão desconhecido a alguns).

O Contextualizar Cristológico

“Disse-lhe Jesus: dá-me de beber”
João 4:7

Nesta passagem encontramos o cerne do que me refiro, a substância de minha tese: a contextualização é tão importante quanto a mensagem. Jesus resolve passar por Samaria e se encontra com uma mulher; algo tão horrível quanto um cristão ir para o Oriente Médio para conversar com uma ativista feminazi. A conversa toma conta na cidade de Sicar, próximo ao atual vilarejo de Askar. O poço de Jacó, que se localiza em um vale ao meio de Ebal e Gerizim, tem grande significado para o povo. Abraão comprou esta terra, Jacó a deu a José, e o mesmo foi enterrado ali (Genesis 33:19, 48:22; Josué 24:32).

Jesus chega no local cansado e dá uma paradinha para descansar. Ele então pede um pouco de água para a moça que estava ali, isso porque os discípulos haviam saido para comprar alimento. Sua linguagem e vestimenta o condenam. “Como, sendo tu judeu me pedes de beber a mim que sou mulher samaritana?” (v. 9). Jesus vira o jogo e de necessidade física ele mergulha na necessidade espiritual da samaritana. Perceba o que aconteceu:

  1. Ele chegou cansado: Jesus não desprezou seu físico. Ele estava cansado, e usou isso como um gatilho evangelístico.
  2. Pediu água: Ele se apossou to contexto da mulher, ele usou os elementos acessíveis a ambos para lhe entregar uma mensagem específica.
  3. Os discípulos haviam se retirado: É possível que a presciência de Deus tenha sido de grande valia aqui. Ele, conhecendo a mulher, espera que ela fique sozinha para conversar com ela. Se conversar com um judeu já lhe causou espanto, imagine ter 30 judeus ao lado dela, imagine a pressão da situação! É pura especulação minha, porém merece consideração.
  4. Jesus fala da água viva: O mancial de águas vivas (Jeremias 2:13), como os que os servos de Isaque encontraram  (Genesis 26:19), fala de uma fonte literal. Jesus utiliza uma linguagem espiritual que é acessível a ela. Ao fazer a transição para o sentido mais profundo da mensagem, Jesus parece desejar que ela tenha uma imagem que já está desobstruida em sua mente. A mensagem do evangelho, em si, já é uma barreira gigante. Os planos de Jesus não eram de tornar a mensagem espiritualmente oculta, como no gnosticismo, mas sim mentalmente disponível e compreensívelmente penetrável.
  5. Ele diz que o poço foi dado por Jacó: Isto não se encontra nas escrituras, e provávelmente fazia parte da tradição dos samaritanos. Jesus, então, se isso for de fato o que ocorreu, se apossa da tradição que lhe era tangível para que sua mensagem estivesse fixada em solo conhecido.
  6. Jesus manda que o marido seja chamado: Após ela dizer que deseja a água que Jesus falava, podemos ver que, de fato, ela não havia compreendido muito bem o que ele estava lhe apresentando. Porém, como disse o reverendo A. Plummer, “ela ainda não havia entendido, mas também não ativamente e de boa vontade rejeita o ensino” (Cambridge Bible, ref. João 4:15). Por mais que ela não tenha compreendido a mensagem, até porque Jesus só explica o que é beber da água viva e nunca morrerm no verso 51, Jesus não corta a jovem samaritana pensando em 1 Coríntios 2:14 ou 2 Coríntios 4:4. Pelo contrário, ele vai ainda mais a fundo nela. Seu desejo não é que ela mentalmente compreenda um panorama, mas sim que suas feridas sejam curadas.

Eu posso continuar nessa passagem até o último versículo, e poderia pegar várias outras passagens de Jesus, Paulo, Pedro, Felipe, e outros, para lhe provar que sim, devemos contextualizar a mensagem que nos foi dada. Que Deus nos dê a mente de Cristo (1 Coríntios 2:16) e renove nossa mente (Romanos 12:2) para que possamos, como Cristo, ver o mundo ao nosso redor como um campo missionário, e os objetos a nossa volta como ferramentas evangelísticas que só existem pela permissão de Deus!

Contextualizar, Não Deformar

Existe uma diferença entre recontar a narrativa da salvação de maneira culturalmente acessível a seu público alvo, e deformar a mensagem em busca de ser aceito por todos. Não confunda seu trabalho com o trabalho de Deus, ele convence, você torna a mensagem acessível. Deus poderia ter escolhido se revelar através do vento, das pedras, ou até mesmo do nosso próprio sangue. Mas não, ele não quis isso. Ele escolheu se revelar através da verbalização de uma mensagem. Esta mensagem, porém, precisa passar por nossa mente. Imagine você chegar para um jovem de rua e falar que Jesus Cristo foi a perfeita expiação ao remir as transgressões de seu povo eleito! Quanto dessa mensagem ele entenderia? Você não precisa repetir as mesmas palavras ao evangelizar! Ao invés de repetir o sermão de Pedro (Atos 2:14-41), por que não usar da mesma técnica que ele utilizou (leia-se: contextualização)? Por que não poderíamos, como Paulo, usar filósofos pagãos para nos chegarmos aos mais estudados (Atos 17:28)? E por que não utilizarmo-nos do jornal de hoje, da novela de amanhã, do desenho animado da sua neta, do livro de colorir do menino na creche, e de tudo que existe que foi criado para tornármos a mensagem de Deus acessiva aos que queremos/devemos alcançar?

O que eu não advogo, e fujam de mim as más-linguas que copiam somente trechos que escrevo para me maldizer, é a deformação da mensagem. Qual a mensagem de Cristo? Lucas 4:18-19! Evangelizar os pobres, curar os quebrantados de coração, apregoar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos! Sua mensagem carece de tais elementos? Então você deformou a mensagem. Sua mensagem contém tais elementos? Glória a Deus! “O Diabo nunca criou nada neste mundo, nem sequer uma pedra”, já dizia meu pai. Por que então deveríamos ter medo de utilizar aquilo que pertence ao Senhor para sua glória?

Use sua Criatividade!

Dr. Reid, em seu livro, Evangelism Handbook, nos deixa duas regras que devemos ter em mente ao cumprirmos o mandamento de Deus a todo cristão de verbalmente comunicar o evangelho. Deixo aqui suas palavras para concluir meu pensamento a respeito disso. Muito mais poderia ser falado e será no devido tempo. No momento, 1381 palavras bastam:

“Primeiro, tudo, sim, tudo na cultura que não é intrínsicamente mal pode ser usado para o evangelho. Tendemos a pensar como gnósticos, que consideram coisas espirituais boas e o material mal. Tal mentalidade (que não é bíblica) nos leva a idéia de que somente o que é explícitamente espiritual (ou que tenha o nome “gospel”) pode ser usado para propósitos espirituais, e tudo que é “secular” (ou seja, “mundano”) não pode.

Uma segunda convicção sobre nossa criatividade em testemunhar é isso: não deixe que o evangelho se perca em seus esforços criativos. Alguns que usam teatro, por exemplo, amam a arte de tal forma que o evangelho se perde nisso. Seja intencional em trazer sua criatividade e Cristo juntos à mesa. Cristo deve ser exaltado em todas as coisas. E este é exatamente o motivo pelo qual, as vezes, devemos mudar nossos paradigmas para sermos efetivos em determinada cultura e época” (Alvin Reid, Evangelism Handbook, cap. 23).

 

The following two tabs change content below.
Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

Latest posts by Natan de Carvalho (see all)

Tags: , , , , , , ,

%d blogueiros gostam disto: