Quando Não Temos Sede De Deus

tree-64311_1920 Em seu livro “O grande abismo”, C.S. Lewis descreve-nos e à nossa realidade como se ela fosse de fumaça, e à medida que nos aproximamos de Deus, nos tornamos mais concretos, e quando nos afastamos mais transparentes. Essa necessidade de concretude em um mundo que, como Zygmunt Bauman descreve, está cada vez mais “líquido”, onde as coisas são crescentemente mais fugazes, é bastante complexa. Neste aspecto, Tim Keller diz que somos a primeira geração ocidental onde grande parte não crê na eternidade, e, por conta disso, o hedonismo, o anseio por satisfação constante aqui e agora, é tão presente entre nós. Compreendendo que Deus colocou a eternidade no coração do homem (Ec. 3:11), e quem sem crer nela, essa inquietude e insatisfação só aumenta, podemos entender melhor a desordem do comportamento humano. Sobre este tópico, Lewis, em “Cristianismo puro e simples” diz que: “Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo”. Como cristãos, compreendemos desta forma que somos satisfeitos somente em Deus, e não na liquidez da era presente. No entanto, embora crendo na eternidade, diversas vezes vivemos como se não houvesse amanhã.

O atalho

Vamos tomar como exemplo Davi, que foi uma alma inquieta. Em seus salmos percebemos ora um coração cheio de júbilo, ora um coração partido em tristeza. Sua história revela uma busca sincera por fazer a vontade de Deus, e também eventos de busca por seus próprios desejos. É possível que muitos de nós nos identifiquemos com ele. Queremos encontrar nosso contentamento em Deus, porém, inúmeras vezes, nosso desassossego só desaparece depois de assistir em uma só noite uma temporada inteira de nossa série favorita, devorar vários chocolates e checar mil vezes o Facebook, Whatsapp, etc. Não pretendo aqui demonizar nossos prazeres. Quero, à exceção do caráter patológico da ansiedade, chamar nossa atenção para o traço sintomático da desordem deles. Segundo Pascal: “Esse abismo infinito só pode ser preenchido por um objeto infinito e imutável, isto é, pelo próprio Deus”. Mas a verdade é que, nossa corrupção causada pelo pecado compromete a capacidade de enxergarmos o valor do eterno e nos faz, ainda que crendo nele, buscar outro meio satisfazer-nos.

O problema

Garota Preocupada, Mulher, À EsperaNo livro de Jeremias, esta situação é descrita da seguinte forma: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água”. Se ao invés de conhecê-lo mais, nosso interesse voltar-se apenas para “cisternas” de nosso contentamento terreno, entraremos em um círculo vicioso que pouco a pouco nos afasta do Eterno e nos faz cada vez mais vazios. Pois, tendo nossa sede corrompida, nossa busca por Ele fica comprometida. Nesse aspecto, John Piper, em seu livro “Quando eu não desejo Deus”, diz que: “a verdadeira essência do pecado é preferir qualquer coisa no lugar de Cristo”.

O caminho

Contudo, é preciso dizer aqui que a solução talvez não seja abandonar o que gostamos. Mesmo aqueles que deixam família, trabalho, faculdade, para servir integralmente à igreja vivem crises de insatisfação. O livro de Eclesiastes diz que: “não há nada melhor para o homem do que comer, beber e fazer com que sua alma goze do bem do seu trabalho”. Mas, o autor prossegue dizendo: “No entanto, vi também que isso vem das mãos de Deus, pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?”. Assim sendo, as coisas que consideramos boas e prazerosas, e nosso desejo inato pela alegria vem Dele. No entanto, somente quando somos preenchidos por Deus, podemos apreciar a beleza das outras coisas integralmente. Como disse C.S. Lewis, tudo é bom, quando se aproxima Dele, e mau, quando se afasta. Davi, ao escrever o Salmo 51, revela ter compreendido essa necessidade básica quando pede: “restaura em mim a alegria da salvação”.

O primeiro passo

Conselho, Etapa, Um Ou Outro, Seguinte, Em Uma LinhaEnfim, você pode me dizer: “como afinal eu encontro satisfação em Deus antes de tudo mais?”. E eu não quero aqui falar de uma busca abstrata. Minha resposta é que existe um caminho. Precisamos, antes de tudo, parar de fazer o caminho inverso. O salmista diz “Agrada-te do Senhor e ele satisfará os desejos do seu coração”. Todavia, ao tentar nos agradar apenas nos nossos desejos perdemos a alegria da salvação. Deste modo, a sabedoria nos diz para retornar. Para sondar nossos corações e ver se aquilo que consideramos simples não está tomando o lugar de Deus em nós. Isso me lembra do diálogo de Jesus com a mulher Samaritana. Ela fala de uma sede natural, Ele, porém a recorda de sua sede mais profunda, que com seus relacionamentos ela parecia buscar preencher. Esse mesmo anseio profundo que temos, e que às vezes com tudo tentamos saciar. Jesus então fala de uma fonte de água viva da qual, se bebermos, nunca mais ficaremos sedentos. Esta fonte é Ele e o seu amor. Bebamos desta fonte. Todos os dias. É a compreensão que somos amados pelo Eterno que aquieta nosso coração aflito. Como Lewis, eu também acredito que nunca seremos completamente satisfeitos nessa terra. No entanto, saber onde buscar a verdadeira Água deve ser o primeiro passo de nosso caminho para a satisfação genuína. Mais adiante falaremos dos outros passos.

 

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Mayara Lima é professora de inglês graduada em Letras Estrangeiras Modernas pela Universidade Estadual de Londrina e pós-graduanda em religiões e religiosidades pela mesma Universidade. Como estudante, tem interesse em estudos da linguagem focados na tradução de textos religiosos e em análise do discurso. Pessoalmente, gosta de literatura, especialmente poesia, e também teologia. Mora em Apucarana, no Paraná, e congrega e serve na Comunidade Nova Aliança nesta cidade.

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