Quem Morreu na Cruz? Jesus ou Deus?

christ-898330_1920Investigando a história da igreja eu tenho dificuldade de apontar uma data em que a mente simplística começou a tomar conta do pensamento cristão. Seneca, Agostinho, Tomás de Aquino, e até mesmo Paulo de Tarso eram conhecidos por expressarem verdades Bíblicas com profundidade, resultando em alta complexidade (leia 2 Pedro 3:16). Se você quiser conhecer uma cadeira, um objeto de pouca complexidade, você precisa estudar um pouco. Obviamente, se você é apaixonado por cadeiras, dificilmente se contentará em distinguir o universal de Platão e o de Aristóteles na forma da cadeira, você irá além. Se você quiser entender uma galinha, um animal de maior complexidade, precisará dedicar muito tempo até que possas apresentar uma análise adequada; até que possas representar com clareza o que é uma galinha lhe levará muito tempo. Se você quiser explicar um ser humano então esqueça, vais demorar sua vida toda e não vai conseguir explicar tudo. Os casados que digam “amém!” pois após 40 anos de casado ambos ainda vivem se descobrindo um ao outro. O ser humano é de uma complexidade absurda! Mas quando estamos tratando da Mente sem corpo, da Última Causa de tudo, do Supremo Logos, de YHWH, de Deus, então apenas 10 minutos de devocional 3 vezes na semana vai te deixar mais que preparado. Como assim? Médicos gastam décadas estudando o corpo para descobrirem que não sabem quase nada, e cristãos devem se contentar com sua falta de preparo com a desculpa de serem “simples”? Quando a simplicidade domina sobre a especificidade de determinado assunto, temos não um resumo, mas um erro.

A pergunta é: Quem morreu na cruz? Jesus, o homem, ou Jesus, Deus? Em negação ao credo Niceno-Constantinopolitano, afirmo que Jesus Cristo é “o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da  substância do Pai, Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial do Pai” (Credo Niceno, 325dC). A Declaração do Ministério Ligonier sobre Cristologia afirma que Cristo é o “Verdadeiro Deus, [que] tornou-se verdadeiro homem, duas naturezas em uma pessoa”. Conheço muitos que discordam dessa declaração, mas nós podemos discutir semântica em outro momento.

Em medida de 0% a 100% Jesus era 100% ambos. Ele era completamente homem, e completamente Deus. O termo teológico para tal união hipostática é a interpenetração de Deus, que também se extende a todos os seres da Trindade. O concílio de Alexandria definiu que o Logos assumiu uma natureza humana, enquanto o concílio de Antioquia afirmou que o Logos assumiu uma natureza humana específica. Teodóro de Mopsuéstia, no entanto, estava errado (concílio de Antioquia). Na sua visão, duas naturezas existiam dentro do logos sem interpenetração. Os escritores do concílio de Antioquia, no entando, não tiveram estas intenções, argumenta Alister E. McGrath (Historical Theology, 2nd ed., p. 50). A frase Latina “communicatio idiomatum” expressa o ponto que eu pressuponho em cada frase neste artigo. Jesus é completamente humano e completamente divino.

Jesus é Completamente Humano e Completamente Divino.

Se afirmarmos que Jesus era completamente Deus, e que Jesus morreu estaremos afirmando que Deus morreu, e aparentemente isso é uma má representação da fé cristã. A pergunta em si é equivocada. Com essa pergunta a resposta mais comum é “não!” Porém creio que o buraco seja mais em baixo e o problema não seja tão simples.

Na pessoa de Jesus Cristo, Deus morreu uma morte humana.

Esta é minha posição. Jesus Cristo, sendo completamente Deus, morreu. Deus morreu. A distinção que eu faço é na palavra morte, não na natureza de Cristo. A natureza de Cristo já está resolvida faz tempo, não quero me delongar neste ponto. O ponto aqui é “qual morte Cristo morreu?” As pessoas que argumentam contra este ponto que escrevi normalmente definem morte como o cessamento da existência. Porém tal definição é absurda. Quem morre não deixa de existir, quem morre deixa de existir fisicamente nesta terra. Quando você morrer você não deixará de existir, você apenas deixará de existir na terra. O problema, creio eu, é juntar um conceito aniquilacionista de morte e conciliá-lo com a união hipostática de Cristo. Não sou adepto da heresia do Aniquilacionismo, e creio que a a consciência eterna é um fato muito bem fundamentado na Escritura.

Millard J. Erickson, em seu livro The Word Became Flesh afirma que “morte, morte física, é o cessamento da vida em condição corporal” (p. 564). “Ter um corpo físico é um prerequisito para morrer uma morte humana”, afirma Erickson. João 4:24 afirma que “Deus é espríto” (JFA-RA). Segue-se logicamente que Deus em espírito não pode ser afetado por uma morte humana. “Coincidentemente”, a única forma de morte que a Bíblia afirma a respeito de Cristo é a morte humana. Afirmar mais do que isso por algum conceito filosófico seria ler algo nas entrelinhas que nunca foi intendido pelos autores do Novo Testamento.

O dualismo aqui é proveitoso, pois a morte significaria apenas a separação do corpo e da alma. Muitos afirmam que nós somos pássaros vivendo em uma gaiola, e quando a gaiola apodrece, o pássaro é livre. Nisto os dualistas afirmam que quando o corpo padece, a alma vive. Outro autor que tem uma idéia semelhante é C. S. Lewis em seu livro O Grande Divórcio. Lewis afirma que o céu é pura realidade, um conceito ontológico que foi defendido por Anselmo em sua visão do Maior Ser concebível. Minha opinião diverge dos dualistas, pois acredito que o dualismo apresenta problemas grotescos quando aplicamos seu conceito para problemas como aborto. Afirmo a existência imaterial do homem após a morte, mas não afirmo que você é apenas seu interior, sua carcaça também é você, entendeu?

Um modelo monista pode apresentar-nos outra solução: o homem passa de forma material para o estado intermediário, significando que a vida física passa a ser um estado imaterial até a ressurreição do corpo, algo que é essencial na teologia Paulina da ressurreição (1 Coríntios 15). “‘Morte’ é a palavra para a primeira transição, ‘ressurreição’ para a segunda”, afirma Erickson (p. 565).

Jesus Cristo viveu sua vida toda sendo Deus em Deus, porém viveu em submissão ao Pai através do Espírito no homem. Isso implica em uma simples resolução para explicar passagens em que o Filho se submete ao Pai. Ele não viveu em divina submissão, mas em humana submissão ao Pai. Outro benefício desse entendimento é que podemos entender que quando Jesus Cristo morreu uma morte humana, o Pai não morreu, nem o Espírito Santo. Jesus Cristo, sendo completamente Deus, morreu uma morte humana; o Pai não participou de sua morte na mesma ação, nem o Espírito Santo. Seria errôneo dizer que o Pai e o Espírito não participaram da morte de Cristo, eu admito isso. O que afirmo é que todos os três participaram do mesmo plano, em ações diferentes, sendo livremente tomadas por diferentes agentes. O que unifica as três pessoas da Trindade não é a mesma substância, mas a vontade comum entre eles. O Tri-Teísmo afirma que as três pessoas da trindade são seres distintos, como eu afirmo, porém afirmam que suas vontades são diferentes. O Cristianismo afirma que as três pessoas da Trindade, embora distintas, compartilham da mesma vontade. Não pense em compartilhar como um marido apaixonado e sua esposa. Ele convida a esposa para ir para seu restaurante favorito e ela aceita, logo, eles compartilharam a mesma vontade. Isso é mais uma idéia simplista, na qual eu não tenho simpatia. Eles estão eternamente compartilhando a mesma vontade, não ocasionalmente. A idéia grega de divinidade não vai lhe fazer bem na compreensão do compartilhamento da mesma vontade na Trindade. Isto também faz parte do conceito de interpenetração. A vontade divina de Cristo sempre foi comum entre as pessoas da Trindade; sua vontade humana é que se submete ao Pai. Kenosis, a doutrina do “esvaziamento” proposta por teólogos Alemães em meados de 1900, é errônea pois trata Cristo como essa idéia disléxica apresentada por Teodoro. Cristo não se esvaziou de sua natureza humana, e muito menos adotou a natureza divina após seu nascimento, para aqueles que usam o adopcionismo como rota de escape para o título Theotokos para Maria, mãe de Cristo. Cristo limitou sua natureza divina, e isso é até aonde podemos chegar para explicar o texto sem acrescentar nada a doutrina reconhecida no Credo Niceno.

Jesus Cristo, sendo da mesma Ousia que o Pai e o Espírito Santo, difere na hypostasis e adota uma nova physis. O Pai, o Filho, e o Espírito Santo são um no que se trata da Ousia (tipo de ser), porém são distintos no que se trata do número de indivíduos (hypostasis). Jesus Cristo adota a natureza humana, a phisiquê humana. Logo, quando afirmamos que Deus é três estamos falando de hypostasis; quando afirmamos que Deus é um estamos falando de ousia. Tratar ousia e hipostasis como a mesma coisa será uma pedra de tropeço que pode te levar a cair diretamente no inferno. Ser simplista nem sempre é favorável. Deus é um (Ousia) e Deus é três (Hypostasis). Da mesma forma que a humanidade não é entendida apenas numéricamente, mas em tipos de ser, Deus também deve ser compreendido de tal forma: numericamente complexo, mas unico em tipo de existência.

Abaixo eu deixo uma lista de livros que você pode ler para introduzirem este assunto a você. Este artigo foi curto e longe de ser explicativo em tudo que necessita, seu objetivo não foi de ser exaustivo. No entando, caso queira aprender mais sobre isso, recomendo a leitura dos livros abaixo (1, 2, e 3, se referem ao grau de dificuldade da leitura):

  • (2) Jesus in Trinitarian Perspective (Fred Sanders & Klaus Issler)
  • (2) On The Trinity (Agostinho)
  • (3) Theology for the Community of God (Stanley J. Grenz)
  • (1) Who is Jesus (R. C. Sproul)
  • (2) The Word Became Flesh (Millard J. Erickson)

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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  • Adek Santos

    E quanto a soteriologia??? Calvinista, Luterano, Arminiano, Molinista???

    • Não consigo ver como esse assunto pode ser relevante ao tópico do texto, amigo.

  • Hartur Reis

    Vou esperar um artigo demostrando que aniquilacionismo é uma heresia. Sobre seu artigo eu penso que para Deus é impossível a inexistência, mas Deus pode privar-se de suas capacidades(nesses caso da sua consciência). Ele mesmo fez uma analogia com o sono.flw

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