Traficante ou Policial? – Uma Análise do Ser e do Cidadão em Comunidade

87h

A poucos dias atrás, brasileiros foram confrontados com a seguinte pergunta: devemos salvar um policial que não corre risco de morte, ou um traficante que corre risco de morte? A pergunta mal formulada não gerou nada além de respostas patéticas e irreflexivas da população (quem não corre risco de morte não precisa ser salvo). O povo que, justamente, está cansado de ter homens que vivem como animais defendidos por um governo corrupto, demonstrou seu repúdio ao traficante e apresentou o florescer de um movimento que apóia as forças que garantem a segurança da sociedade, e a correta atualização das leis entre seres que vivem em comum acordo.

A pergunta é disléxica, pois apresenta um jugo desigual com o objetivo de arrancar a resposta que deseja. Dadas as condições da pergunta em sua formulação, eu salvaria o traficante. Seria injusto condenar a pena de morte um cidadão ruim, visto que um cidadão bom tem um arranhão no joelho. Dadas condições mais complexas a resposta permanece inabalada: “salvar” um bom cidadão com um braço quebrado, neste caso, significa condenar, sem um jurí legal, um outro cidadão à pena de morte. Os absurdos morais parecem aumentar se considerarmos fatores que são possíveis e atuais, apesar dos “de direita” da internet ignorarem. Seria logicamente impossível que tal traficante tenha começado a traficar mês passado devido a dificuldades causadas por uma má administração do governo? Seria isso tão modalmente impossível quanto um graveto de apenas uma ponta? Não. Por conta disso, não me parece incoerente aceitar a possibilidade nomológica dada a coerência lógica e possibilidade metafísica do caso. Se isso for aceito, então cidadãos podem estar deliberadamente condenando um “homem bom” que, possivelmente e  momentâneamente, é um mal cidadão [1].

Privar um cidadão de um julgamento justo não é justiça, é o oposto [2]. É uma espécie de anarquismo de Hollywood que não se aplica a uma sociedade com mais de 120 minutos de realidade. Aqui, aquele que escolheu o policial decidiu estabelecer os parâmetros para a vida: um bom cidadão vale mais que um mal cidadão. No entanto, tal distinção parece deontologizar o ser humano de sua característica mais humana; ela glorifica o ser tal como aplaudimos animais em circos: faça o certo e ganhe um trato, faça o errado e serás fisicamente punido. Vemos que o homem não difere do animal, e sabendo que a maioria dos evangélicos e procto-cristãos [3] do brasil não são evolucionistas e afirmam a literalidade desassociada da ciência de Genesis 1 e 2, temos uma contradição interna na mentalidade popular. Seja tricotomista ou dicotomista, sendo moral, você irá afirmar a alma humana e sua superioridade da alma animal. A imago Dei é o que difere seres humanos de animais, e quão mais valiosa o é do que uma cidadania publicamente louvável? Aqui se encontra a questão: os brasileiros estão tão revoltados com a desumanização das leis nacionais que se tornaram desumanos em seus julgamentos.

Julgamentos desumanos e desequilibrados são aqueles que buscam exaltar civilidade à atributos divinos no ser humano. Justamente aquilo que concede faculdades racionais para tais julgamentos, a imagem de Deus no ser humano,  é desmoralizada e privada de suas condições mais puras para louvar a civilidade. Tal ato de louvor louva a sociedade através de um insulto à Deus. Esta sociedade não glorifica a Deus e insulta sua natureza; é um insulto àquilo que é mais Deus em Deus: seu próprio ser.

Aqui reside outro problema interno com tal julgamento: como planejaremos conquistar uma sociedade liberal e estabelecer princípios morais através de meios imorais? Como construir uma sociedade que agrada a Deus através de insultos a sua natureza? Identifico aqui uma espécie de libertação Messiânica aguardada pelos brasileiros: através de atos imorais (tal como assassinar a Deus) planejam estabelecer a salvação da sociedade. Esse espelho expiatório é nublado e destruído; seus cacos estão separados e cada um aponta para um lado. Em uma sociedade em que o anarquismo moral é verdade não temos união. Tais cidadãos, que estão longe de serem bons, aceitam sentar no banco dos réus por uma idéia utilitária. Buscam o bem da comunidade através de um desprezo do ser e exaltação do cumprir. Uma sociedade que glorifica aquele que faz boas obras enquanto não se considera “boa obra” a celebração da natureza humana. Tal sociedade é guiada por uma lei severa, enquanto ao mesmo tempo maleável. Severa com os outros, maleável comigo. É uma sociedade intrínsicamente contraditória. Desde que um traficante morra a ação é justificável. Logo, um crime de venda de produtos proíbidos é considerado nocivo a sociedade, portanto merece pena de morte. Se em Gênesis 9:6 a pena de morte foi instituída por louvar a divindade no homem, em 2016 temos ela advogada por louvar a sociedade e desprezar o divinal. Temo que em breve, por decisão mútua, a sociedade deseje levantar alguém que despreza a vida e louva a sociedade para governar a nação. Tal homem estaria apenas atendendo os desejos dos indivíduos; o governo viveria para atender o desejo do povo. Esse Leviatã, porém, é o que atraiu regimes comunistas no decorrer da história. Não seria irônico a sociedade atrair para sí aquilo que tanto deseja evitar por desprezar a Deus? Tal como foi na torre de Babel, em que tudo que temiam, lhes foi “concedido”.  Deixo aqui apenas este pensamento registrado.

“Os brasileiros estão tão revoltados com a desumanização das leis nacionais que se tornaram desumanos em seus julgamentos.”

Se o caso, porém, fosse diferente, e ambos indivíduos estivessem correndo risco de morte, então a salvação daquele que preserva a vida deve ser priorizada àquele que contribui para a destruição da vida. Neste caso, o julgamento justo acontece, porque mesmo sem jurí, temos dois indivíduos: um que contribui para exaltação e preseravação da imago Dei, e outro que advoga princípios que satanizam a imagem divina. O julgamento é óbvio, e não temos de cometer nenhum ato imoral para conseguirmos um fim moral. Nenhuma (falsa) figura Messiânica (imoral) é necessária visto que a figura do Pai é exaltada. Porém a sociedade parece estar respondendo esta pergunta, ao invés da pergunta original.

Aceito a voz que diz que a sociedade está respondendo a pergunta subjetiva e real por trás da máscara da pergunta proposta. Porém aqui devo afirmar que não fui apresentado com argumentos de filosofia de linguagem e persuasão retórica em resposta a tentativa imoral da televisão. Se este tivesse sido o caso, este texto seria desnecessário. Como este mundo não foi atualizado, considerei válido o momento para propôr minha análise que mostra que nos desviamos da verdadeira humanidade para preservar a sociedade. Elevamos o fazer e menosprezamos o ser. O que, irônicamente, é exatamente o oposto do Evangelho.

“Se em Gênesis 9:6 a pena de morte foi instituída por louvar a divindade no homem, em 2016 temos ela advogada por louvar a sociedade e desprezar o divinal.”

Enfim, sem mais delongas sugiro que minha análise seja levada a sério e considerada como uma reflexão de uma camada não tanto analisada e explorada da comunidade brasileira. Tenho confiança de que uma sociedade que valoriza a Deus e sua imagem terá por foco Deus e sua imagem, e não apenas a imagem de uma sociedade desprovida de intervenção moral divina.

Deus abençoe a todos portadores de Sua imagem!

Obs:


[1] Aos analfabetos de plantão deixo aqui uma tradução: Se você condena um homem a pena de morte sem avaliar o caso justamente você se torna culpado de assassinato e de uma espécie de perjúrio. Você passa por cima do estado, ignora as leis, e condena um cidadão ruim por ser um cidadão ruim. Mas ignorar as leis que foram estabelecidas por comum acordo não é crime? Não seria, então, você um criminoso? Me parece que devemos deixar alguém passar na sua frente na fila do hospital…

[2] De forma alguma afirmo que as leis no Brasil tem sido efetivamente cumpridas. Afirmo um governo corrupto que precisa de reforma, e as vezes a reforma vem de formas ilegais, o que não implica ser imoral. Visto que leis, quando estabelecidas de forma imoral e regulamentadas, se tornam legais, porém não se tornam morais. A moralidade, então, é o que deve ser preservada, não a legalidade. Por conta disso, por vezes teremos de agir de maneira ilegal para agirmos moralmente. No entanto, dada que a lei pede um julgamento justo, e visto que tal pedido é também moral, não permitir tal ação não é apenas um cuspe na cara da lei, mas uma ação imoral, que também deve ser punida. Punida ainda com severidade, dada que não é apenas imoral como também é ilegal.

[3] Procto-cristãos são pessoas que, modernamente, são “conservadoras” no que se refere a vida (embora liberais no que se refere ao meio ambiente e a moralidade individual) e por conta disso, afirmam as crenças mais populares do cristianismo. Por conta disso, são considerados por muitos como cristãos, mas visto que não parecem viver para Cristo, os defino como quasi cristãos porque passam apenas no teste “cristão ou não?” da população (parecem reprovar se temos a definição bíblica de um escravo de Cristo).

Imagem: The Silent Hospitalpor Ryan McGuire.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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