“Uma Coisa Peço Ao Senhor”: O Absurdo Do Fatalismo

Muitos “Calvinistas” não seguem a doutrina de Calvino, e nem de Jonathan Edwards, que na minha opinião é quem foi mais influente na questão da predestinação dentro do Calvinismo. Estes são chamados novos calvinistas. Calvinistas, por definição, são deterministas. O que é um determinista? Determinismo é a crença que acredita que cada momento de suas escolhas são predeterminadas por fatores psicológicos, ultimamente por fatores físicos, que podem ser reduzidos as leis da física e como objetos materiais se comportam. Deterministas, então, afirmam que escolhas são causadas por influências internas e externas. O determinismo em si não leva a impossibilidade de responsabilidade moral. Por outro lado, o fatalismo sim.

 

 

Fatalismo ou Determinismo?

Fatalismo afirma que independente do que eu fizer, eu não tenho poder para mudar o resultado da minha ação. Fatalistas afirmariam que se Brendon vai ser Doutor, não importa se ele estuda medicina ou filosofia. Suas escolhas não vão influenciar o seu destino, ele vai ser um doutor de qualquer maneira. Afinal, Deus assim decretou. O fatalismo não é apenas falho ou inútil em uma sala de aconselhamento, ele também é extremamente perigoso pois exclui qualquer responsabilidade moral.

Calvinistas são deterministas, mas não devem ser fatalistas. O problema é que, por falta de compreensão e estudo, fica muito fácil dizer que se é determinista quando de fato se vive como um fatalista. Quer ver uma imagem que é constantemente usada para definir o determinismo, mas na verdade é fatalista? Olhe abaixo:

A ilusão da liberdade de escolha

Aqui a vaquinha Lulú pode escolher entre esquerda ou direita, mas no fim, ambas levam para o mesmo local. Essa imagem tem tantos problemas morais que eu precisaria de um livro para poder explicar todos com precisão (e de fato, confesso que gostaria). Essa imagem ensina que independente da escolha, o fim será o mesmo. Mas isso não é determinismo, isso é fatalismo! O determinismo iria afirmar que a vaca escolha ir para a esquerda ou para a direita porque foi determinada por fatores internos e/ou externos, e sendo assim, o resultado de cada escolha será diferente.

Agora, o que a Palavra ensina? A Palavra ensina que independente de sua vida, se você for “eleito” você vai ser salvo? Nope, ela ensina que se você for eleito você vai ter uma mudança de vida. Isso é determinismo, não fatalismo. Pessoalmente, eu acredito que o determinismo também está errado, porém quero me deter nos limites de determinismo versus fatalismo, pelo bem do meu objetivo final.

Salmo 24:7 Como um “Defeater” do Fatalismo

Um fatalista não pode ler o Salmo 24:7 e compreender o que Davi fazia. “Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei” (JFAA). Davi pede uma coisa, e ele a busca. É como se Davi estivesse dizendo, “Deus, me ajude a atravessar a rua!” E Davi atravessa a rua. Deterministas iriam argumentar que Davi fez isso porque foi determinado, e isso eu até posso conceber (a crença de que Deus, através de seu conhecimento médio, decretou livremente um mundo possível me permite afirmar o que o determinista afirma neste ponto). O que o fatalista não pode fazer é entender esse versículo. Para o fatalista, independente de Davi buscar o que ele pediu ou não, se Deus quiser realmente (e aí entra todas as interpretações absurdas de “se Deus quer ele faz independente do homem), ele vai dar a Davi o que ele pede. Graças a Deus Davi era um homem reflexivo. Davi queria habitar na casa do Senhor todos os dias de sua vida. Se Davi tivesse ficado casa, afogado em passividade, ele teria habitado na casa do Senhor todos os dias de sua vida? Não! Se Davi tivesse ficado em casa, posso concluir algumas coisas:

  1. Davi não queria habitar na casa do Senhor tanto assim. Talvez ele quisesse querer habitar na casa do Senhor todos os dias de sua vida.
  2. Davi é retardado porque ele não entende que para ele ir à casa do Senhor ele precisa mover as pernas
  3. Davi não sabe mover as pernas.
  4. Davi não tem pernas.

Dessas quatro opções, eu sinceramente não sei qual é pior. Creio que 3 e 4 seriam eliminadas facilmente, pois se ele quisesse, teria pedido que alguém o levasse até seu destino. 1 e 2, por outro lado, não aconteceram. Eles são contrários a realidade. Davi pediu e buscou, pois ele sabia que, mesmo que fatores anteriores ao seu pedido o tivessem influenciado, se ele não se movesse seu destino seria afetado.

O Risco do Fatalismo Fora do Contexto Teológico

Você pode perceber que eu estou direcionando minha análise do absurdo do fatalismo a um grupo específico de calvinistas, não a todos. E isso não se enquadra somente nos novos calvinistas. Michael A. E. Dummett, filósofo de Oxford, conta que durante a Segunda Guerra Mundial, nos dias sombrios da batalha da Grã-Bretanha, quando mísseis Nazistas e bombas bombardeavam Londres durante a noite, muitas pessoas perderam suas vidas porque se recusaram a tomar refúgio em abrigos anti-bomba. A razão é que, “se eu for morrer, então eu vou morrer, independente de eu tomar ser precavido ou não. Se eu for viver, então eu vou viver, independente de eu tomar as devidas precauções ou não. Visto que vou morrer ou viver, por que devo me importar em tomar precauções?” [1]

Você consegue ver o risco do fatalismo quando traz as consquências para a vida cotidiana. Imagine se algum pai lhe diz que não vai levar a criança para a escola porque afinal, se Deus realmente quiser que ela vá a escola, Deus vai prover um caminho. Esse pai está desprezando como Deus age: através de pessoas. Esse pai está ignorando que Deus o colocou naquela ocasião para que ele pudesse levar o próprio filho a escola. Agora, um exemplomais absurdo que esse é alguem dizer: “não vou me limpar após fazer o número 2 porque afinal de contas, se Deus quiser me limpar, ele vai dar um jeito nisso sem que eu precise fazer algo”. Se você ouvir algum amigo seu falando isso você deveria rever sua amizade com tal pessoa. É possível que ela creia que conviver com você ou não é indiferente, visto que se Deus quiser, vocês serão amigos mesmo se nunca se falarem. Imaginem um viciado em drogas dizendo, “Se Deus quiser, ele vai tirar meu desejo pela droga, independente de eu fumar mais uma vez ou não”. Por mais que eu negue tal tolice, eu não nego que Deus pode fazer isso, eu nego que Deus vai ou que Deus deve fazer isso. Deus pode não mandar seu filho Jesus na segunda vinda (lógicamente falando), mas ele não vai fazer isso (físicamente falando).

Fatalismo e Apologética

A apologética com uma abordagem fatalista é extremamente letal. Imaginem um cristão explicando para um ateu tal ensino, e a única conclusão na qual o ateu chega é: “Então quer dizer que se for meu destino ser salvo, eu serei salvo, independente de eu tomar uma decisão com Cristo agora ou não?” Nessa hora começam as piruetas e cambalhotas para tentar explicar que não é bem assim mas é bem assim mesmo. Nesse ponto, o determinismo também tem um problema (não digo o mesmo do determinismo fraco), mas isso fica para um próximo bat-texto, nesse mesmo bat-site, nessa mesma bat-hora, nesse mesmo bat-canal. Sim, eu estou ansioso para o filme do Batman VS Superman.

Muito pode ser dito sobre o absurdo do fatalismo, mas prefiro me manter em volta dessas pouco mais de mil palavras. Pretendo escrever mais sobre o assunto conforme surgir necessidade, mas no momento gostaria de ouvir mais sobre você. O que você acha sobre o fatalismo? Você é fatalista? Se sim, me explique aonde errei. Se não, por que?


[1] William Lane Craig, The Only Wise God (Wipf and Stock Pub, Janeiro 2000), 14-15.

 

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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  • Sara

    Primeiramente, para eu poder opinar, preciso entender o que é esse “ser eleito”? É ser eleito para salvação? eleito para obra de Deus? eleito para que, especificamente?
    Eu particularmente concordo com seu ponto de vista “não-fatalista, não-100%-determinista” rsrs penso muito sobre Jesus ter dito que “ngm vem a mim se o pai não o trouxer” e “ninguém vem ao pai, senão por mim”. Eu entendo, portanto, que se dependesse de nós mesmos, nossas escolhas, ou influencias, não iriamos até Jesus, nós só conseguimos descobrí-lo, conhecê-lo se Deus nos levar até Ele. Se Deus colocar o evangelho na nossa cara kk no sentido de usar pessoas, ou usar circunstâncias, internet, enfim, se Ele nos levar até Jesus. E quando chegamos a Jesus, temos que escolher se negamos a nós mesmos e o seguimos, ou se não. Mas não podemos chegar a Deus pai, se não for através de Jesus. então há uma escolha a ser feita, mas tb há um “empurrãozinho”… rsrs
    bom, espero que não tenha ficado tão confuso quanto parece kk, e que tenha ficado claro que essa é minha opinião, mas que eu gostaria de ser corrigida caso esteja errada.

    Outra coisa que gostaria de comentar, aproveitando o momento hehe, é sobre Deus colocar ou tirar vontades, desejos de nós. Ainda faço muita confusão com isso, e não entendo muito bem, mas acredito que se em minhas orações eu pedir para que Deus coloque em mim mais vontade de adorar, ou de buscá-lo, ou tire de mim vontade de cometer pecados, ou como seu exemplo “tirar de mim a vontade de usar drogas” então ele o irá fazer, pois eu sei que é a vontade dEle tb. Embora eu não acredite que Ele faça isso sem minha “autorização”, vamos dizer assim, seu meu consentimento sabe!? enfim, ainda estou tentando formar uma opinião sobre isso, e espero que possa me ajudar, seja respondendo em email, ou falando sobre isso nos seus próximos textos/vídeos =) muito obrigada! ;*

    • Quando usei a palavra eleito (2 vezes no texto) usei com o sentido Calvinista de eleição incondicional. Acredito em eleição, mas não em eleição incondicional.

      Concordo com você e creio que tanto Calvinistas, Arminianos, ou Molinistas concordariam que Deus é quem inicia o processo salvífico. Sem revelação não há conhecimento do divino.

      Eu oro pedindo isso que você pede, que Deus me ajude a amá-lo. O conceito de liberdade de integridade deve nos levar a concluir que somos o que fazemos, e fazemos o que somos. Portanto, se você se empenhar nas atividades devocionais, consequencialmente vai amar mais a Deus, progressivamente.

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