Uma Exegese de Marcos 8:22-38 – Parte II

mark_series_graphic2Continuando nossos estudos em Marcos 8:22-38, vamos agora analizar o texto e apresentar algumas aplicações que este relato pode nos trazer. Caso você não tenha lido a primeira parte, leia-a aqui. Eu recomendo que você faça a leitura da primeira parte, caso contrário ficará perdido na segunda parte.

Que Deus abra seus olhos e que o Espirito Santo te revele Jesus Cristo, aquele por quem vale a pena entregar nossas vidas e tudo que somos!

Contexto Literário

A passagem inicia quando Jesus e seus discípulos vem a Betsaida, especificamente Betsaida Julius, localizada a muitos kilômetros ao norte do Mar da Galiléia e ao leste do Rio Jordão. Antes disso, Jesus expulsou um espírito imundo da filha da mulher Siro-Fenícia (7:24-30), nas regiões de Tiro e Sidon, que são a margem do Mar Mediterrâneo. Após este ato, Jesus “se retirou das terras de Tiro e foi por Sidom até o mar da Galeia, através do território de Decápolis” (v. 31-37). Neste local, Jesus cura um homem surdo. Na mesma região Jesus alimenta quatro mil pessoas antes de partir ao distrito de Dalmanuta (ou Magdala). Na costa sudoeste do Mar da Galiléia, em Dalmanuta, Jesus usou seu último evento milagroso como gancho em seu próximo ensino (8:14-21). Além disso, antes de curar o homem em Betsaida, os discípulos já haviam esquecido o que Jesus havia feito na última multiplicação de pães (8:17-21).

Betsaida era uma cidade pesqueira na costa nordeste do Mar da Galileia. Felipe, Pedro, e André costumavam a viver nesta região (1). Cesaréia de Filipe, por outro lado, era localizada nos pés do Monte Hermom, aonde possivelmente ocorreu o evento da transfiguração encontrado no capítulo 9. O leitor pode concluir que Jesus estava contendo seu ministério em território gentil. Cesaréia era a capital do tetrarca de Herodes; o local aonde “Herodes o Grande construiu um grandioso templo de mármore para honrar o imperador”, observa Arnold (2). Lane conclui dizendo que “a área era dominada por fortes associações romanas, e é de significância teológica que a dignidade de Jesus foi reconhecida em uma região devota a afirmar que Caesar é o Senhor” (3).

James A. Brooks, comentarista do The New American Commentary, fornece informações plausíveis a respeito do formato dos eventos no capítulo 8, onde ele relata a cura em duas partes e a repreensão de Pedro (4). Obviamente, o escritor não escreveu sobre tais eventos de maneira esporádica. O leitor também pode notar que os discípulos não entenderam o que Jesus estava querendo comunicar em 8:14-21, mas entenderam o aspecto Cristológico da vida de Jesus alguns versos adiante. Após a confissão Cristológica de Pedro, Jesus prediz, pela primeira vez no livro de Marcos, seu plano redentor, indicando aspectos messiânicos na pessoa de Cristo.

Desde o primeiro verso em que o Evangelho de Marcos se refere a Jesus como o Filho de Deus, o leitor pode concluir que todas as passagens neste livro estão refletindo como o Filho de Deus é. Sua identidade é expressada em suas ações. DeSilva, por outro lado, acredita que “a presentação obscura, vigorosa, e exigente da messianidade e discipulado dão ao Evangelho uma trágica dimensão, no sentido mais literal da palavra—uma tragédia que se torna boa nova” (5). É claro! As boas novas não estão contidas no fato de que o povo falhou em reconhecer Jesus como o Messias, mas nos “propósitos redentores de Deus para um novo povo através da morte de Jesus e na final e vicária palavra de Deus, ambas em favor de Jesus em sua ressurreição e em favor de seus discípulos na vinda do Filho do Homem nas nuvens no céu” (6).

Boring explica que nesta sessão “os discípulos supostamente foram iniciados no segredo dos ensinos de Jesus a respeito do Reino de Deus” (7). Parece que mesmo que os discípulos tenham entendido a natureza messiânica de Jesus eles deveriam mantê-la em segredo, assim como o homem curado não deveriam voltar ao vilarejo, mas deveria manter a informação em segredo.

Também é importante notar que a cura do homem cego ocorre somente no Evangelho de Marcos. A cura do surdo em 7:31-37 também é exclusiva desta obra. A maneira como Marcos organizou essa passagem não deve ser desprezada. A cura do cego e a cura do surdo são ambas formas incomuns de cura, e estão certamente conectadas entre si.

Ecos literários estão presentes nesta narrativa e podem ser identificados facilmente. Em 8:19-20 Jesus lembra quando ele alimentou 5.000 e 4.000 (6:30-44, 8:1-10); a confissão de Pedro ilumina o texto de 6:14-17 a respeito da identidade de Jesus; a paixão futura de Jesus também é predita trêz vezes ao decorrer da leitura (8:31, 9:31, e 10:32-33; e a frase “não compreendeis?” também é repetida de forma próxima no contexto literário (8:17 e 21).

Análise Interpretativa (Exegese)

  • Jesus Cura o Homem Cego em Betsaida e Ordena Que Ele Não Entre no Vilarejo (8:22-26)

A cura do cego inicia uma mudança no ministério de Jesus. Até agora ele estava focando seu ensino nas multidões, mas agora Jesus compartilha suas idéias e filosofias com seus discípulos. O shift não é apenas na parte dos recipientes, mas os próprios ensinos de Cristo começam a focar mais em sua identidade e em seu plano redentor. Brooks coloca de maneira perfeita quando diz que na “primeira divisão apenas os demônios reconheceram a verdadeira identidade de Jesus; na segunda os discípulos começam a compreender, mesmo que de maneira inadequada” (8).

Quando Jesus vem a Betsaida algumas pessoas trazem a ele um cego implorando que Jesus o tocasse (8:22). Jesus remove o cego do vilarejo, provávelmente para evitar a multidão, como ele já havia feito anteriormente (9). Marcos descreve a cura de Cristo com detalhes exóticos. Jesus cospe nos olhos do cego para curá-lo. Quando Jesus curou o surdo, na região de Tiro, ele também utilizou métodos alternativos (7:33). É importante notar que estes atos físicos não são a causa do milagre, visto que Jesus já havia curado anteriormente sem a necessidade de material (Lc. 4:38-40 e 14:4). O porquê de Jesus ter cuspido é aberto a debate e especulação. O Dr. H. Van der Loos argumenta que o curso era reconhecido como algo com força remedial em culturas judaicas e helenísticas (10). Se Jesus estava tentando estabelecer uma relação com o cego ou se ele estava utilizando elementos mitológicos para afirmar sua autoridade perante os Judeus é algo que os leitores nunca saberão com certeza. Como Micklem comenta, “Jesus não era uma máquina terapêutica milagrosa: ele lidava com indivíduos de maneira individual e pessoal, não de uma forma mecânica” (11). Essa cura ocorre em duas partes. Primeiro, o homem volta a ver parcialmente. Segundo, ele volta a ver de maneira perfeita. O fato de ele ter reconhecido a forma de uma árvore indica que ele não foi cego desde seu nascimento. Como disse anteriormente, este processo não foi devido a falta de onipotência de Jesus, mas Jesus estava ilustrando a condição dos discípulos que já haviam sido tocados por Cristo mas ainda viviam com uma visão turva (v. 21).

“Como disse anteriormente, este processo não foi devido a falta de onipotência de Jesus, mas Jesus estava ilustrando a condição dos discípulos que já haviam sido tocados por Cristo mas ainda viviam com uma visão turva”

A história de Jesus não é meramente histórica, mas também teológica. Quando Jesus curou o cego pela sua própria autoridade ele estava corroborando sua deidade, visto que somente “o SENHOR abre os olhos aos cegos” (Sl. 146:8). De maneira miraglosa, Jesus exemplificou a condição espiritual dos discípulos, utilizou-se de elementos judaicos para restaurar sua autoridade, e advocou sua própria deidade. Somente um escrito inspirado por Deus poderia capturar tanto em tão pouco.

 

  • No Caminho de Cesaréia de Felipe, Jesus Questiona Seus Discípulos a Respeito de Sua Identidade e Pedro Confessa Jesus como o Cristo (8:27-30)

No centro de sua obra, Marcos narra o momento em que Pedro reconhece a Cristologia contida em Jesus. Lane comenta que “a importância fundamental deste momento está indicada pelo fato de que já na primeira linha do Evangelho o Evangelista designa Jesus como o Messias” (12).

Jesus questiona seus discípulos a seu respeito. Respostas são dadas de acordo com o que outras pessoas haviam dito sobre Jesus. Ele não aceitou tais respostas, pois Jesus é interessado em indivíduos. “Tu és o Cristo”, responde Pedro. Agora tudo mudou. Na cura do cego, a identidade de Jesus foi demonstrada; na resposta de Pedro a identidade de Jesus é reconhecida. No Mar da Galiléia, os discípulos perguntaram quem era Jesus, mas nenhuma resposta foi dada (4:41). Ao invés de responder verbalmente, Jesus trabalhou sua identidade em sua vida até o ponto em que os discípulos podem responder a própria pergunta. Em 8:17-21 Jesus estava incitando a resposta, mas somente após a ilustração da cura do cego eles puderam penetrar o véu que os mantia em sua ignorância. Antes disso, Jesus estava preocupado com as multidões, mas através da confissão de Pedro o foco se torna os discípulos. Agora, eles estão prontos para a verdade da missão de Cristo.

 

  • Jesus Prediz Seu Sofrimento e Plano Redentor a Seus Discípulos (8:31-38)

Visto que os discípulos agora estavam convictos do caráter messiânico de Jesus, ele prediz, pela primeira vez, seu plano de redenção. É como se as mentes dos discípulos estivessem agora abertas e prontas para receber este novo âmago de informação. A remoção do véu característico capacitou os discípulos a tomarem posse da totalidade do plano de redenção do Filho de Deus. Uma multidão de verdades espirituais podem agora ser digeridas por aquelas pequenas mentes, e Jesus finalmente pode demandar deles responsabilidades maiores.

Imediatamente após a confissão de Pedro, Jesus começa a pressagiar seu sofrimento e morte. Deve ter sido chocante aos discípulos! A pouco eles reconheceram quem de fato Ele era, e agora eles estão ouvindo que os anciãos e sacerdotes e os escribas iriam rejeitá-lo! E não para por aí não, após isso eles matariam Jesus! Entretanto, Jesus foi explícito em dizer que após três dias ele voltaria dos mortos. Pedro, por outro lado, leva Jesus de canto e o repreende. Evidentemente, Pedro não havia compreendido tudo a respeito do plano de Jesus, só sua identidade (mesmo sem saber que a descrição de Cristo era a descrição do que significa ser o Cristo!). É como se Pedro não tivesse escutado a última parte do discurso de Jesus quando ele afirma que a ressurreição é certa. Será que Pedro confiava na predição de sua morte mas não na de sua ressurreição (e agora todos aqueles pregadores que amam pegar no pé de Pedro digam “amém!”)? Como Paulo alertou os de Corinto, para muitos “a palavra da cruz é loucura” (1 Co. 1:18). Eu não creio que faltou fé em Pedro, mas sim que ele se lembrou dos requerimentos da lei a respeito de corpos crucificados: admitir que Cristo morreria em uma cruz significaria que o Cristo seria amaldiçoado pelo próprio Deus, o que não faria o menor sentido na mente dos discípulos naquele momento (Deuteronômio 21:23). A idéia de tormento e do Messias eram exclusivas na mente dos judeus, elas não podem se cruzar. Isso é tão verdade que o Targum de Isaias 53 aplica as bençãos do texto ao Messias Rei mas não seu sofrimento; todo o sofrimento previsto no texto é aplicado ao povo (13)!

Jesus fortemente censura as palavras de Pedro (8:33). Não porque ele estaria possesso ou porque ele tinha incorporado um demônio, mas porque sua resposta a respeito da expiação vicária de Cristo corresponde a resposta do próprio Satanás! Se Pedro tivesse sido bem sucedido em sua tentativa de parar Jesus, o objetivo de Satanás teria sido conquistado, não o de Deus. A ação de Pedro foi, em grande parte, emocional; no entanto, Jesus distingue o desejo temporal de Pedro de estar com ele do plano eterno que Deus Pai tinha para ele.

“Na cura do cego, a identidade de Jesus foi demonstrada; na resposta de Pedro a identidade de Jesus é reconhecida. No Mar da Galiléia, os discípulos perguntaram quem era Jesus, mas nenhuma resposta foi dada (4:41). Ao invés de responder verbalmente, Jesus trabalhou sua identidade em sua vida até o ponto em que os discípulos podem responder a própria pergunta”

Cristo chama todos a sua volta para ouvir a grande revelação: “Se alguém quiser vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (v. 34). É possível que as palavras de Jesus não tenham sido compreendidas no exato momento, mas quando Simão de Cirene tomou a gloriosa cruz de Cristo e o seguiu, a idéia provavelmente ganhou vida na mente dos discípulos (15:21). As condições para seguir a Cristo foram dadas, e o custo é alto. Jesus fala paradoxialmente à mente de seus seguidores; perder a vida é ganhar a vida, e ganhar a vida é perder a vida. Jesus explica a aparente contradição desprendendo corpo de alma. Ganhar a sua vida resultará em perder sua vida, é perder a alma; perder sua vida por Cristo e pelo Evangelho é salvar sua própria alma.

Jesus também demanda que seus seguidores sejam destemidos e não tenham vergonha de sua morte. Mas veja que Jesus está pedindo que eles não tenham vergonha de um homem que será públicamente amaldiçoado pelo Deus de sua nação! Seu discurso alicia um senso de revolução em seus discípulos! A lei antiga já não é mais importante! Jesus, Deus em carne, desceu dos céus e está descrevendo o caráter de Deus diretamente da boca de Deus! Nenhum profeta foi capaz de trazer essa mensagem, somente Deus. Somente Jesus Cristo.

“Somente um escrito inspirado por Deus poderia capturar tanto em tão pouco”

Lane defende que o “verso 38 é um paralelo estrutural ao verso 35 e complementário em intenção” (14). Jesus realmente faz uma declaração inequívoca; aqueles que estão envergonhados dele em um mundo perverso, por causa de pessoas malignas, nunca irão provar a glória santa e desavergonhada dos Céus, dada pelo supremo Deus que é santo, santo, santo! Considerando esse requerimento, Paulo corajosamente declara: “Pois não me envergonho do evangelho” (Rom. 1:16)

Aplicações

O primeiro parágrafo desta passagem indica que mesmo pessoas que conhecem a Jesus podem ter dificuldades em ver as coisas de maneira clara. Aqueles que afirmam serem seguidores de YHWH precisam implorar a Cristo que ele toque os seus olhos para que eles vejam a glória de Deus com clareza! Uma visão embassada não agradou a Cristo, e seus seguidores devem sempre se lembrar que falta de clareza teológica não gratifica ou agrada a Deus. Um desejo para limpar a neblina em nosso entendimento deve brotar em nossos corações quando esta passagem for lida.

Jesus demonstrou interesse específico nas palavras de Pedro. Uma multitude de pessoas tinham diferentes opiniões a respeito de quem era Jesus, mas Jesus era cativado pelo que seus verdadeiros seguidores tinham a dizer. O reconhecimento do Messias é uma tarefa individual, e todo seguidor de Cristo deve se perguntar, “quem é Jesus?”. A confissão de Pedro resultou em um relacionamento mais profundo com Jesus. Quem dizemos que Jesus é tem grande influência em nosso relacionamento com ele. Quanto mais precisa for a confissão, mas de Deus nos será dado.

Assumir que Jesus é o Cristo traz grandes responsabilidades. Reconhecer Jesus como Cristo no meio de uma geração adúltera e pecadora é estar disposto a desistir de sua própria vida. Da mesma forma, ter vergonha da dura clareza da mensage de Cristo é decretar falência a sua própria alma. Aqueles que estão ansiosos para confessar Jesus como o Cristo, tal como fez Pedro, não devem estar menos entusiasmados para professar tal afirmação pela negação de afazeres terrenos! A ambição física é a cruz; o objetivo metafísico é o Céu. Que confessemos, como Paulo, que não nos envergonhamos do evangelho da cruz, e que como Cristo, substanciemos essa afirmação imaterial através dos sofrimentos e aflições por Jesus e pelo seu Evangelho.


(1) Thomas V. Brisco, Holman Bible Atlas (Nashville, Tenn.: Broadman & Holman, 1998), 220-221.

(2) Clinton A. Arnold, Zondervan llustrated Bible Background Commentary, 254.

(3) Lane, The Gospel According to Mark, 289.

(4) James A. Brooks, The New American Commentary, vol. 23, Mark (Nashville, TN: Broadman Press,

1991), 132-133.

(5) DeSilva, Introduction to The New Testament, 201.

(6) Ibid.

(7) Eugene Boring, Introduction to The New Testament, 518.

(8) Brooks, The New American Commentary, 131.

(9) Conforme Mc. 5:40 e 7:33. Em luz de 1:23-28, 3:1-5, e 9:14-17, fica difícil identificar o modus operandis de Cristo a respeito de manifestações públicas e isoladas.

(10) H. van der Loon, The Miracles of Jesus, (Netherlands: Leiden, EJB, Tuta Sub Aegide Pallas, 1965), 307- 310.

(11) E. R. Micklem, Miracles & The New Psychology: A Study in the Healing Miracles of the New Testament (London: Humphrey Milford, Oxford University Press), 102.

(12) Lane, The Gospel According to Mark, 288.

(13) J. F. Stenning, The Targum of Isaiah (London: Oxford University Press, Amen House), 178-181.

(14) Lane, The Gospel According to Mark, 310.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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