Uma Exegese de Marcos 8:22-38 – Parte I

mark_series_graphic2A passagem de Marcos 8:22-38 é absurdamente rica e proveitosa ao cristão. Tendo em vista o crescimento da igreja e a aprimoração do seu conhecimento exegético da passagem, decidi escrever, em duas partes, estes artigos que buscam trazer o texto a vida para você. Aqui estaremos vendo uma introdução ao livro, descobrindo seu autor e data, leitores principais, e trazendo os propósitos do autor com esta obra a luz. Se você deseja crescer e aprender esta passagem, sugiro que estude estes dois artigos com paciência e com um bloco de notas. Visando a honestidade intelectual, busquei dar crédito a todos que contribuíram em minha exegese nas notas de rodapé no fim de cada artigo. Fique a vontade para adquirir tais obras e/ou usá-las em seus estudos.

Que o Espírito Santo de Deus abra teus olhos para as riquezas da Sua Palavra santa, viva, e eficaz!

Introdução

O livro de Marcos, segundo livro do Novo Testamento, é um documento que foca na proclamação do Evangelho. Por causa deste verso, R. C. Sproul sugere que “Marcos pode ter sido o primeiro documento escrito com o título “evangelho” (1).

Todos os Evangelhos do Novo Testamento são anônimos, incluindo Marcos. Boring e Craddock explicam que “nem o autor nem o leitor experimentaram pessoalmente os eventos relatados” (2). Os eventos foram transmitidos via tradição oral, uma variedade de um efeito corrente em que a história é “mediada pelo autor, aos leitores originais, e a nós pela comunidade cristã, a igreja. Não é uma corrente de indivíduos, mas uma comunidade de fé que media o Evangelho a seus consequente fiéis e investigadores” (3). Parte da tradição oral era escrita, conforme Lucas admite quando declara que “muitos que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (Lucas 1:1). Por mais que João Marcos não fosse um apóstolo, a Palavra o apresenta como alguém que constantemente se encontrava com os apóstolos e cristãos mais antigos (At. 12:12, 25; Col. 4:10; 2 Tm. 4:11; 1 Pd. 5:13). A Palavra provê várias referências a figura de Marcos, e ignorar tais referências como uma possível conexão com o autor desta obra seria no mínimo um descuido. Eusébio também apresenta informações confiáveis a respeito da autoria de Marcos (4).

A respeito da data deste livro, é comumente aceito que foi escrito antes de 70DC. David DeSilva, autor de mais de 25 livros, clarifica o argumento daqueles que se opõe a esta data: “a razão principal pela qual muitos acadêmicos tendem a datar marcos após 70DC é a pressuposição de que Jesus não poderia ter previsto a destruição de Jerusalém—uma convicção que claramente não é compartilhada por todos” (5). Craig S. Keene se posiciona afirmando que “Marcos escreveu seu Evangelho aos cristãos romanos durante o período da grande perseguição de Roma, em meados de 64DC” (6). Um espectador anônimo também apresenta suporte para uma datação antiga: “Marcos, que era chamado de Colobodactylus, escreveu porque seus dedos eram pequenos demais comparados a estatura do resto de seu corpo. Ele mesmo foi o intérprete de Pedro. Após a morte de Pedro, o mesmo homem escreveu o evangelho em partes da Itália”. Irineu também confirma o prólogo anti-Marciano atestando que “após a morte destes [Pedro e Paulo], Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, também transmitiu a nós em seus escritos as coisas proclamadas por Pedro” (7). Por outro lado, Eusébio relata que Marcos escreveu seu Evangelho enquanto Pedro ainda estava vivo (8). Alguns tentaram resolver este problema, mas o que é relevante aqui é que o livro foi escrito pouco antes ou após a morte de Pedro. O problema de datação é que não se sabe se 13:5-23 se refere a perseguição de Nero em 64DC ou não. O livro de Marcos foi usado por Mateus e Lucas, então a data de 60-70DC é potencialmente favorável.

Passagens como 7:2-4 provêem suporte para a idéia de que os leitores de Marcos fossem ignorantes a respeito das tradições judaicas, o que pode atestar que Marcos não escreveu seu Evangelho na Palestina (9). Suas referências aos mebros da igreja romana também sugerem que isso foi escrito quando Marcos esteve presente em Roma com Pedro (1 Pd. 5:13, conforme Marcos 15:21 e Romanos 16:13). Marcos também se propõe a explicar terminologias semíticas a sua audiência, o que seria desnecessário caso seus leitores fossem Palestinos (Marcos 3:17, 5:41, 7:11 e 34, 10:46, 14:36, 15:22 e 34.). Ocasionalmente, ao invés de explicar o significado da palavra antiga, Marcos faz uso de expressões Latinas, que podem confirmar que sua audiência falava latin, como os Romanos (5:9, 6:27, 12:15 e 42, 15:16, e 15:39). Poucas referências ao Antigo Testamento são feitas, Marcos faz uso da expressão “Reino de Deus” ao invés de “Reino dos Céus”, o que seria ofensivo aos judeus. Creio que a prova cabal para esse achado é quando Marcos usa o sistema romano de medição do tempo como referência em sua obra (6:48 e 13:35). Em luz destas evidências internas, a audiência Romana deve ser mantida em mente quando escrutinamos a obra de Marcos.

O livro de Marcos busca fortalecer a fé de crentes que estão sofrendo; explicar o sofrimento presente dos cristãos; admoestar o carregar da cruz como peça fundamental no discipulado; e encorajar fiéis com esperança, apesar de suas falhas (10). No livro, Jesus é apresentado como um escravo que veio a sofrer em nosso lugar (10:45), o que pode ter relação com a persistente explicação de Marcos a respeito do sofrimento entre os fiéis. É interessante notar que os ensinamentos de Jesus não são tão enfatizados quanto seus milagres nesta obra. Por outro lado, a humanidade de Cristo é mais clara aqui do que em qualquer outro Evangelho: suas emoções (1:41, 3:5, 6:34, 8:12, 9:36), suas limitações (4:38, 11:12, 13:32), e outras características essencialmente humanas são enfatizadas (7:33-34, 8:12, 9:36, 10:13-16). Com isso em mente, parece que Marcos estava tentando ajudar os leitores a entender a cultura judaica que os cercava, e os introduzir a Jesus em sua divindade e humanidade.

Idéia Central e Esboço da Passagem

A identidade do Filho do Homem como Cristo começa a ser reconhecida, e seu plano de redenção é predito aos discípulos.

Podemos separar a passagem que vamos estudar desta forma:

I. Jesus cura o homem cego em Betsaida e diz que ele não deve entrar no vilarejo (8:22-26).

II. A caminho de Cesaréia Filipense, Jesus questiona seus discípulos a respeito de sua identidade e Pedro confessa Jesus como Cristo (8:27-30).

III. Jesus prediz seu sofrimento e plano de redenção aos discípulos (8:31-38).

Próxima Semana

Neste texto você foi introduzido ao livro de Marcos, sua autoria, data, propósito, e leitores primários. Uma outline também foi apresentada e a idéia central da passagem também está disponível. Semana que vem estaremos observando o contexto literário de cada ponto do esboço e também iremos refletir em algumas aplicações que o texto pode nos dar.


(1) R. C. Sproul, The Reformation Study Bible: English Standard Version, 3rd ed. (Orlando: Florida: Reformation Trust, 2015), 1727.

(2) M. Eugene Boring and Fred B. Craddock, The People’s New Testament Commentary (Louisville, Kentucky: Westminster John Knox Press, 2004), 6.

(3) Ibid.

(4) História da Igreja, III. XXXIX. XV.

(5) David Arthur DeSilva, An Introduction to the New Testament: Contexts, Methods and Ministry Formation (Downers Grove, Illinois.: InterVarsity Press, 2004), 196.

(6) Keener basea-se em uma relação entre o conteúdo interno do livro e o fim da guerra Judaico-Romana em 66-70DC. Conforme Craig S. Keener, The Ivp Bible Background Commentary: New Testament, 2nd ed. (Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 2014), 126.

(7) Adversus Heareses, III. I. II.

(8) História da Igreja, II. XV.

(9) Em Marcos 15:42, o autor parece estar explicando o significado da palavra “Gólgota” e introduzindo os leitores a tradição judaica.

(10) Extraído de Clinton E. Arnold, Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary (Grand Rapids, Mich.: Zondervan, 2002), 205.

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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