Uma Teoria Histórico-Cristã: Historicismo

Quando observamos este mundo com cuidado podemos concluir algumas idéias a respeito de um Ser poderoso e divino (Romanos 1:20). Seria possível que através de uma análise sobre guerras, doenças, e tristeza alguém tenha a capacidade de “perceber claramente” Deus ou suas ações? O resultado do (suposto) determinismo causativo pode ser conhecido através do mundo atual, mas será que podemos tornar claras as intenções das deidades ao analisarmos a história? Estas são as questões que os filósofos historiadores estão tentando responder. O desafio de afirmar a mão de Deus na história humana é grande e o risco é alto. Cristãos que se empenham em desenvolver teorias históricas devem ter cuidado para não afirmarem aquilo que Deus não afirmou. Devem ser cuidadosos para não negligenciarem seu desenvolvimento espiritual, nem seu exercício  intelectual e desejo para se relacionar com os acadêmicos. Então a pergunta é: como cristãos devem entender a história?

Teorias de Interpretação Histórica

“Não há nada novo debaixo do sol,” disse o rei Salomão em meados de 930AC (Eclesiastes 1:9). Até mesmo nos tempos mais remotos o homem mais sábio do mundo parece entender a história como sendo cíclica. Humanidade, reinos, seres humanos, e tudo mais parece viver em um ciclo. Civilizações nascem e morrem, e o progresso civil parece ser um fato ou uma contradição dependendo em que ano e que país você está lendo isso. Esta abordagem pode ser considerada materialista e pessimista. Earle Cairns reconhece que filósofos pessimistas tendem a serem “obcecados com a falha do homem na história” (Earle E. Cairns, Christianity Through the Centuries: A History of the Christian Church, 3rd ed. [Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishers, 1996], 19). Alguns analisam a nossa presente situação e concluem que a civilização ocidental está experimentando uma decomposição orgânica. Progresso, nessa visão, é difícil de engolir, porque o que progrede progrede apenas para sua queda futura. Como o passado funciona como uma forma para o futuro, essa espécie de relacionamento causal encurrala o progresso como algo que não pode permanecer, independente do que seja feito para previnir a queda. Cristãos não devem ser pessimistas quando se trata do futuro e do passado. Não devemos afirmar que história é apenas o que existe “debaixo do sol”, porque eventos presentes nunca são repetidos, muito menos as promessas de Deus e cumprimento das mesmas.

Deus irá renovar sua criação como prometeu. Se isso é verdade a história não pode ser cíclica! Se é, se parece mais como uma linha composta de pequenos circulos, mas circulos que sempre avançam em direção a algo novo. Eventos nunca são repetidos, nunca. Alguém pode ler e dizer, “claro que são! Humans nascem e morrem todo dia!” Isso, no entanto, nunca foi negado no texto. Cada nascimento, porém, é numericamente e qualitativamente diferente. Nada se repete. Se partes são diferentes, o todo difere. Determinado evento A pode ser similar com A1, similar em essência no que foi compartilhado (a queda de um império, por exemplo). Mas tais eventos são diferentes porque tudo é valioso e unico. Guerras ocorrem, mas nunca pelos exatos mesmos motivos. Criaturas que detém a imagem de Deus carregam e criam a história, uma história unica.

Por outro lado temos filósofos que são otimistas. História é quase um sinônimo de progresso. Estes afirmam a espiral que eu sugeri, mas eles afirmam uma espiral que está sempre progredindo. Impérios nascem e morrem, mas devemos concordar que impérios contemporâneos são mais sólidos do que os do passado. Pessoas ainda ficam doentes, mas humanos tem desenvolvido medicamentos e tratamentos para curar e controlar doenças. “Progresso”, afirma Cairns, “é um processo em que séries de contradições sucessivas são reconciliadas em sínteses sucessivas até que o Absoluto seja completamente manifesto na história (Ibid.).O homem parece estar no centro, controlando o curso da história e guiando o mundo. Tal idéia não é ruim em si mesma, porque parece excluír Deus como responsável por catástrofes e desastres (ou pelo menos das mesmas que não são consideradas naturais). O homem é a força atualizante, a entidade que faz do futuro o presente.

Será que Deus é tão impassivo assim? Estaríamos descrevendo o Deus deísta de Thomas Jefferson, o “Watchmaker”, aquele que é ausente de sua própria criação? De forma alguma! E é aqui que dificuldades se apresentam para os otimistas. Se Deus age, como distinguir suas ações, decretos, e planos, da liberdade humana? Guerras parecem aumentar em proporção e numero, a tecnologia facilita o pecado sexual (e por mais que alguns neguem que liberdade sexual através de pornografia e traições são prejudiciais, doutores e psiquiátras descordam), e a humanidade não parece estar desenvolvendo um senso moral mais profundo e ético. Você não vai encontrar civilizações mexicanas sacrificando 20 mil humanos para glorificar uma determinada deidade. A humanidade já superou isso. O século XXI é mais desenvolvido. Mas é verdade isso? E se falarmos sobre aborto? Posso dizer que humanos da sociedade ocidental agora sacrificam para a deusa da preservação pessoal e o deus Anthropos. Rejeitar uma visão cíclica e aformar uma teoria linear não é suficiente porque a humanidade é depravada e imoral. Como devemos prosseguir?

O Modelo Sugerido

Na Cidade de Deus Agostinho parece afirmar o que chamamos de visão pessimista-otimista (PA). A humanidade é nascida em pecado (aspecto pessimista) e é necessária uma mudança para que alguém migre para a Cidade de Deus e aproveite a consumação otimista do retorno de Cristo. O homem é pecador, mas a imago Dei não é removida; Deus soberanamente restaurará tudo, mas a liberdade humana existe. Essa mentalidade permita que um entenda que ações ruins são o resultado da natureza (agora) perversa do homem. Também permite que rendamos graças à Deus por tudo que é bom em meio a nossa sociedade corrupta. A revelação de Deus é percebida e a corrupção do homem é evidente. O balanço em si deveria ser motivo suficiente para preferirmos esta visão ao invés das outras. Mas se PA é verdade, e se agora podemos perceber Deus trabalhando na história de maneira saudável, como balancearmos isso? Será que podemos apontar o dedo e dizer “aqui eu tenho certeza que Deus está agindo”?

O Desafio

O desafio de conectar eventos e concluir eventos não palpáveis de eventos conhecidos deve ser analizado com cuidado. Explico: podemos dizer que a rejeição do cristianismo nas escolas (evento real), a influência da mídia, e a corrupção do governo (ambos palpáveis) são apenas atos de julgamento de Deus contra a nação brasileira (evento suposto). Não sabemos se este evento suposto é real. mas inferimos que seja devido às premissas que estão disponíveis para formar nosso julgamento. Obviamente não queremos negar que Deus trabalha, justamente porque a Palavra constantemente nos lembra que Deus estava ativo no passado, e não existem sugestões de que ele tenha parado de agir após a ascensão de Cristo ao Pai. Algumas coisas precisam ser levadas em consideração:

  • Inspiração, inerrância, e infalibilidade: Será que historicistas são como os profetas do Antigo Testamento que receberam uma palavra inerrante diretamente de Deus? Se sim, será que eles também estão sujeitos a pena capital caso errem em alguma vírgula?
  • Conteúdo do tempo: O que é necessário para que alguém venha a entender eventos e atos na história?
  • Revelação Natural além de Romanos 1:20: É possível conhecer o “coração de Deus” e suas intenções afora da Escritura?
  • Conteúdo material: O método de preseravação de fontes é confiável?

Uma Chamada à Reflexão e Pensamento Crítico

Profetas do Antigo Testamento receviam uma palavra de Deus por meios supernaturais (e as vezes naturais) e estavam sujeitos a ordenanças estritas, como sujere Deuteronômio 18. Historiadores do presente tem a desvantagem de não terem a lei do AT ativa, e isso permite que muitos errem e façam julgamentos precipitados. A caminhada do historicista parece ser mais fácil porque os profetas previam o futuro enquanto os historicistas analizam o passado. No entanto, se pensarmos que, ao tornarmos nosso julgamento conhecido, estamos presetes a colocar palavras na boca de Deus devemos ter mais cuidado com nossas palavras e julgamentos. Devemos ter em mente Deuteronômio 18 como uma espécie de revelação divina de como Deus se relaciona com pessoas que usam seu nome para afirmar coisas que Ele nunca disse. Precisamos ser honestos com nossa própria mente e estarmos tão seguros a ponto de morrer por esta verdade. Se temos coragem de dizer que “evento A foi atualizado porque Deus queria que o evento C viesse à tona”, tenhamos coragem de dizer “assim diz o Senhor” de uma vez! Como você pode perceber, não creio que isso seja sábio…

Em How to Read a Book, Mortimer J. Adler e Charles Van Doren sugerem que o leitor nunca deve tirar conclusões sobre um livro antes de terminá-lo. Antes do fim é impossível analizar a figura toda. C. S. Lewis também afirmou que “história é o tipo de coisa que não pode ser entendida até que você ouça o todo” (C. S. Lewis, Historicism, 231). Devemos entender a história do mundo como um livro muito grande, porque isso facilita a compreensão do problema que temos diante de nós: o livro não está terminado. Não podemos ter conclusões infalíveis sobre o capítulo V se lemos apenas a introdução, muito menos sobre o capítulo VI ou MMMDLXXIII, se é que este capítulo existe. Algum biblicista pode se levantar e contestar dizendo que Deus proveu o fim da história no livro de Apocalipse, e que minha abordagem otimista no início do texto deve me obrigar a ter em mente a restauração que vem pelo Cristo no fim dos tempos. Apesar da afirmação estar correta, ela despreza o fato de que mesmo tais verdades são verdades genéricas. Elas podem ser específicas a respeito da cor do cavalo que João viu quando o selo foi aberto, mas ela não mostra o que cada habitante da Espanha estava fazendo naquele momento, muito menos quem é o presidente dos EUA ou o senador da Califórnia. A partir de tais narrativas podemos saber o que vai acontecer de maneira geral, mas não explica absolutamente nada do por que a mãe de Genésio, que era uma crente piedosa, morreu após sofrer por 13 anos debaixo de doenças maleficentes. Podemos dizer que “no final das contas ela está com Deus”, para seguir os clichês de velório. Mas de modo algum alguém deve dizer que Deus deu à mae de Genésio tais doenças para que tal evento tenha um efeito A em Genésio, e efeito B em sua família, ou evento C em todos os que ouvem tal história. Pensar de tal maneira “profética” é pensar de maneira extremamente simplística. Isso é comum dos amantes de conspirações, e daqueles que entendem (ou pensam que entendem) o mundo como algo simples cordenado pelos “5 ou 6 de Sião” (quem lê, entenda). Deus não é simples, e ele não precisa de sua criação para conseguir o que deseja.

A Palavra afirma que o poder de Deus e a sua divindade são reconhecidas mediante o que chamamos de Revelação Natural. No entanto, é difívil provar, sem apelar para supostas profecias, que Deus deseja que a humanidade tire conclusões sobre seus planos e intenções nos atos que vem a tona no mundo atual. Essa espécie de revelação que os historicistas precisam não parece estar dentro das intenções de Deus, e cristãos não devem firmarem suas crenças no solo movediço da subjetividade. Se isso não fosse suficiente, devemos ter em mente que a preservação dos materiais necessários para criar “história”, como documentos e artefatos, não estão debaixo do controle dos homens. Para interpretar o passado precisamos dos documentos que trarão o passado à luz. Os documentos que temos em mãos sobreviveram o apodrecimento, mas como podemos saber se estes são os documentos certos e necessários para fazermos afirmações sobre Deus em relação à história e fatos contemporâneos? Mesmo que você acredite que Deus preserva somente o que é necessário e util, você nunca poderá provar isso a partir da Palavra. Pelo contrário, você estará firmando subjetividade (sua conclusão) em cima de subjetividade (seu método e crença de preservação dos documentos) e em cima de subjetividade novamente (os documentos supostamente preservados divinamente). Você está usando uma doutrina que não pode ser analisada para provar uma crença que não pode ser provada para afirmar conclusões que não são certeiras a respeito de Deus. O mesmo Deus que nos deu uma quantidade massiça de conteúdo e evidência para ser analisada: a Bíblia. Isso parece ir contra todo o processo da revelação de Deus que nos é conhecido.

Conclusão

Devemos lembrar que nos Atos dos Apóstolos temos um exmplo claro e inspirado de historicismo. Lucas desenvolve conclusões importantes sobre Deus e seu plano quando conecta eventos conhecidos. Um exemplo disso pode ser visto em Atos 2:23 e 4:48. Então a tarefa do historicista parece ser possível. Porém, conforme elaborei acima, devemos nos abster de ir além de afirmações bíblicas e inspiradas como “Deus controla tudo”. A Palavra ensina que Deus controla tudo e sua soberania é infalível, mas não devemos desejar afimar os “porquês” ou como Deus age no presente porque não temos o chão necessário para firmar nossas crenças. Resumindo, Deus é soberano e o homem não. Deus conhece tudo e o homem não. Na história, não há limites para Deus, mas com certeza absoluta podemos dizer que existem limites para o filósofo-historiador.

 

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Natan de Carvalho é estudante de Teologia e Filosofia na Southeastern Baptist Theological Seminary, na Carolina do Norte. O Catarinense, de Jaraguá do Sul, agora reside em Raleigh, aonde congrega e serve na Crossroads Fellowship Church. Natan também está colaborando na tradução do Logos Bible Software para o Português. Completou o Intensivo Ministerial e Missionário com o minstério Clamor de Media Noche, e também cursou teologia no Instituto Teológico Batista Catarinense.

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